sexta-feira, 18 de março de 2022

Circunstancias Misteriosas.

                                                            J. B. Pessoa

Ronaldo Ramos seguia pela avenida sem nenhum ânimo pela festividade que estava começando naquele entardecer. Caminhou até a praça do poeta e prostrou-se, totalmente desanimado, no baluarte que separava a praça das ladeiras que davam acesso à parte baixa da cidade. Naquele momento alguns foliões subiam pelo íngreme declive de uma delas, cantando cantigas de letras marotas do carnaval tradicional, ainda trajando seus uniformes de trabalho, indicando que a farra começou logo após o término do expediente daqueles alegres comerciários. A concessão do governo ditatorial à chamada Semana Inglesa prevalecia já havia alguns anos; embora alguns patrões recusarem-se a cumprir a lei. Naquele sábado carnavalesco, os trabalhadores da maior cidade histórica do país, fizeram valer seus direitos, obrigando os gerentes a fecharem os estabelecimentos comerciais no horário designado pelo regulamento. Ronaldo quedou-se momentaneamente, seduzido por aquela alacridade simplória de pessoas que sabiam viver, e os acompanhou com o seu olhar melancólico até o grupo sumir, descambando para um determinado terminal de ônibus coletivos, que os conduziria até os subúrbios da cidade, onde moravam.

O anoitecer despontou sorrateiramente como se fosse cúmplice de uma série de fatores que acabrunhavam a sua deprimida alma. Nesse momento, o rapaz olhou para o mar e vislumbrou os últimos clarões do por do sol. Um leve sorriso acometeu em seu rosto tristonho, lembrando-se de que, talvez, a sua cidade fosse a única do mundo, onde o Sol nascia e morria no mar. Tirou do maço um cigarro e colocou em seus lábios, acendendo-o em seguida. Tragou a fumaça com avidez, sentindo a noite que se formava, semelhante a um filme preto e branco. Nesse momento, lembrou-se das românticas películas que assistia com a sua mãe, quando ainda era menino, e uma doce saudade aflorou em seu coração, esquecendo-se, por uns instantes, das amarguras que o corroíam. No último novembro, tinha completado quarenta anos e no ano que se seguia, elucubrava a sua vida, sobre o seu passado e a sua solidão. Sentia-se velho e alquebrado, sem nenhuma esperança no porvir. Havia passado onze anos, desde que fora abandonado no altar pela noiva e, até aquele dia, lutava contra uma depressão que o castigava impiedosamente. Era um funcionário público. Pertencente ao primeiro escalão, ele foi progressivamente decaindo, em virtude de sua incorruptível atuação; desagradando a velhos amigos e alguns familiares, inclusive os da própria nubente, sua namoradinha de infância.

Já era noite formada, quando Ronaldo abandonou o baluarte, pois o número de pessoas que preferiam o local aumentava constantemente, e foi sentar-se nas escadarias de um prédio, onde outrora havia um famoso teatro. Tirou do bolso um cantil prateado e tomou um trago de uísque, acendendo novamente outro cigarro. Nesse momento, escutou uivos e berros de um monstrengo elétrico que percorria a rua de luxo da cidade, vindo do centro histórico. O monstrengo estacionou na praça, na confluência de duas vias, como se fosse um deus pagão adorado por milhares de fieis, que o prestavam culto e venerações. No cume daquele artefato, rodeado por uma orquestra singular, estava uma espécie de sacerdote ou pajé, de gênero indefinido, berrando num sinistro canto, que era o rei da cidade. O rapaz notou que aquela seita tinha uma espécie de hábito, de tecidos diversos e cores berrantes, denominado de

mortalha. Havia algumas fantasias diversificadas que não faziam parte do cortejo, pertencentes a uma época que aquela seita antropófaga destruía aos poucos. Misturados, democraticamente, na inócua festividade aos pierrôs e arlequins, o termo mortalha pareceu para Ronaldo bastante apropriado àqueles foliões, que tinham renegado as velhas tradições. Usando como incenso, uma erva especial que dava aos adeptos daquela seita, percepções ultra valoradas, eles se rendiam às delirantes concepções artísticas de falsos intelectuais, que emergiam constantemente na cidade, a qual estava se tornando a capital da moda párvoa.

À medida que o tempo passava a aglomeração de pessoas com todos os tipos de fantasias, começou a despertar no rapaz uma sensação de pânico. Ele então percebeu que a verdadeira solidão é se sentir sozinho em uma multidão. Nesse momento, apareceu na sua frente, a figura sinistra do Zé do Caixão, personagem famosa de um filme de terror nacional, segurando pela correia um aterrorizante cão, que mais parecia um lobo, o qual lhe lançou um olhar demoníaco, rosnando raivosamente. Zé do Caixão encarou o rapaz e, arregalando os olhos, o ameaçou numa arrepiante voz:

- Esta noite levarei a tua alma!

Ronaldo olhou para aquela corporatura fantasmagórica com aflição e tremeu de pavor ao ouvir a sua apavorante gargalhada. Simultaneamente apareceram outras duas figuras, as quais formavam o Diabo e a Morte. A noite tornou-se mais escura e ele não conseguia divisar o horizonte. Parecia a Ronaldo, que ele se encontrava em um grande buraco. A Morte vestida numa fantasia negra, colante em seu corpo, tinha o desenho que um esqueleto branco, pintado com tinta acrílica, que resplandecia no escuro. Ela olhou para Ronaldo, indicando com sinais que estava de olho nele, enquanto o Diabo sussurrava ao seu ouvido:

- Esta noite encarnarei em teu cadáver!

Ao ouvir o hediondo prenúncio, o rapaz fugiu apressado daquele lugar, enquanto tentava controlar o pânico que tomava conta de toda a sua alma. Respirou fundo e foi sentar-se em um banco de outra praça, onde não se ouvia a cantoria e a zoada dos equivocados ideólogos. Ainda bastante agitado, o rapaz tomou outro trago do seu cantil, sentindo o efeito inebriante do álcool desvanecer o medo que sentia. Baixou as vistas e tentou chorar, pois estava sentindo uma profunda pena de si mesmo. Nenhuma lágrima veio em seu socorro. Tinha chorado tanto na vida, que suas lágrimas haviam secado. Nesse momento ouviu uma doce voz, que o perguntou:

- Porque o meu filhinho está tão triste?!

Ronaldo levantou os olhos e viu uma mulher fantasiada de lavadeira, com uma trouxa de roupas na cabeça. Era jovem e bastante bonita. Dela desprendia uma suave fragrância de rosas, que era tão natural, como se as flores não tivessem sido, ainda, colhidas. Ela pegou uma cabaça que levava a tiracolo; despejou o seu conteúdo numa pequena cuia e deu para Ronaldo beber. Enquanto solvia a bebida, o rapaz percebeu que o líquido tinha o sabor de um finíssimo vinho, jamais concebido por qualquer mortal. Ronaldo observava a mulher com contentamento, que era branca de cabelos lisos e negros. Parecia muito com a sua trisavó portuguesa, a qual ele só conhecia por fotografias. Ela sentou-se junto dele e começou a acariciar os seus cabelos, dizendo: - O meu filhinho é guerreiro! Sempre combateu os seus inimigos sem temor! Não tenha medo da solidão, pois o meu filhinho nunca está sozinho. Não ligue para os invejosos e nem lhes dê explicações. É um bando de hipócritas. O meu

filhinho é um doce menino! Nunca deixe morrer esse menino que vive em você e não espere muito desse louco mundo de fariseus!

Concluída a mensagem, a mulher se despediu de Ronaldo com um beijo em seu rosto e sumiu na multidão. O rapaz ficou inerte por alguns segundos, sem entender muito bem, o que tinha lhe acontecido. As palavras da encantadora lavadeira encheram-no de ânimos e a bebida que ela lhe ofereceu, tinha dissipado totalmente, o seu pânico. Naquele momento, ele sentia uma sensação de conforto, que aliviava o seu ser cansado. Ficou quieto em seu canto, saboreando o uísque que trazia consigo. Esqueceu-se completamente do monstrengo elétrico, e dos adeptos daquela sistemática estética de modernosos. Ronaldo acendeu um cigarro e ficou brincando com a fumaça, fazendo anéis, que se dissolviam em poucos segundos. De repente, notou que a noite tinha se modificado. Não tinha mais a característica de um filme preto e branco, e sim, de um belíssimo colorido Vista Vsion. Nesse ínterim começou a ouvir numa maravilhosa voz, uma belíssima melodia dos velhos tempos:

Eu perguntei a um malmequer

Se meu bem ainda me quer,

Ele então me respondeu...

O rapaz levantou-se do banco e olhou ao redor, para averiguar de onde vinha a suave canção. Na calçada de um luxuosíssimo cinema, vizinho de onde funcionava um famoso café, pode divisar ao longe, uma bela garota a qual cantava, olhando em sua direção. Ronaldo caminhou até aquele café que estava abarrotado de foliões trajando fantasias tradicionais, bailando em volta da moça, que cantava e continuava a olhar para ele. Ronaldo foi se aproximando e, ao chegar a certa distância parou; tolhido pela timidez que sempre o acompanhou. Nesse momento verificou que estava diante da menina mais linda que os seus olhos já viram. Sim: se tratava realmente de uma menina; fantasiada de fada com belíssimas asas de borboleta. Aparentemente, não deveria ter mais de quinze anos. Embora totalmente fascinado pelo doce encanto que o tinha acometido, tratou de sair dali imediatamente. Porém, ao virar as costas, ouviu da menina uma pergunta acompanhada de um suave pedido:

- Oh Inho!... Por que vais embora?... Fica um pouco comigo! Ronaldo voltou-se subitamente ao ouvir aquele apelo. Como a menina continuava a olhar para ele com uma imensa ternura, resolveu adentrar naquele ambiente acolhedor para cumprimentar a bela fadazinha e ganhou dela um sorriso, que era lindo como um alvorecer. O rapaz pegou na mão da garota e levou aos seus lábios, num ósculo delicado. A seguir, se apresentou:

- Boa noite! Meu nome é Ronaldo Ramos. Sou...

- Oh Inho, não estás me reconhecendo?

Completamente embaraçado, perante a pergunta da encantadora jovem, o rapaz elucidou o seu esquecimento, alegando haver bebido um pouco. A garota o convidou a acomodar-se numa mesa, separada de outras pessoas. Ronaldo olhou bem para a menina, procurando lembrar-se de onde a tinha conhecido. Notou que ela era dotada de boa altura, com um corpo perfeito. Tinha os cabelos doirados com belíssimos olhos azuis, que resplandeciam diante das luzes daquela atmosfera festiva. Como tinha muitos parentes, inclusive no exterior procurou adivinhar, usando o tratamento na segunda pessoa:

-Tu não és a minha prima sobrinha portuguesa?

- Não! Sou a tua Inha, a garota de teus sonhos!

Ronaldo emitiu um leve sorriso, julgando que a linda menina estivesse flertando consigo. Como era considerado um homem atraente, e no carnaval as adolescentes ficam mais afoitas, resolveu brincar um pouco com a garota, perguntando:

-Tu não achas que és jovem demais para mim?

- Oh Inho! Tu realmente não te lembras de mim?!

- Para ser honesto contigo, não!

Nesse momento, uma pequena banda de foliões, a qual procurava preservar as antigas tradições do carnaval, apareceu no recinto dando o seu recado, cantando:

- Tanto riso, oh quanta alegria!

Mais de mil palhaços no salão.

Arlequim está chorando,

Pelo amor da colombina!

No meio da multidão.

A garota pegou Ronaldo pela mão e começou a brincar com ele pela calçada, juntamente com outros jovens foliões, que adoravam as antigas marchinhas carnavalescas. A banda chegou ao final da canção, com sua letra sugestiva:

- Vou beijar-te agora, não me leves a mal, hoje é carnaval!

Simultaneamente, a maioria dos casais trocou beijos de amor, naquele delicioso momento. Ronaldo, completamente enlevado naquela conjuntura, fez o mesmo com a linda fadazinha e foi correspondido pela menina com uma intensa paixão. O rapaz ficou por alguns segundos mirando aquela beleza singular, completamente enamorado pela misteriosa garota que olhava e sorria para ele, com muito carinho. Um tanto indeciso com a situação, ele tirou do seu bolso o cantil prateado e tomou um trago da bebida, para conter a emoção que sentia. O rapaz e a moça permaneceram juntos um bom tempo, bailando com animação, outras românticas marchinhas de outrora. Subitamente, a banda se retira daquele lugar, cantando e dançando, arrastando muitos foliões, deixando o café quase vazio:

- Ó abre alas que quero passar!...

Ronaldo conduz a garota para a mesa e lhe oferece uma bebida, enquanto pede ao garçom uma dose de uísque. Ela solicita um coquetel de frutas sem álcool. Um tanto incomodado por estar com uma adolescente em um bar, o rapaz comenta a sua condição e a menina afirma com serenidade:

- Não te preocupes querido, que tenho mais de dezoito anos! O rapaz olha para a garota sem parecer acreditar. Percebendo o seu acatamento, a moça afirma para ele, dizendo com discernimento:

- Sem dúvidas, não te lembras de mim! Eu sou uma fada semelhante a Sininho, enquanto tu és uma espécie de Peter Pan! Eu sou a tua Inha e tu és o meu Inho!

Ronaldo ficou encantado ao ouvir aquela simpática profecia. Como era carnaval, julgou que tudo aquilo fosse uma brincadeira de menina, dando continuidade à fantasia que usava. Estava feliz demais na companhia da graciosa jovem e resolveu aderir a sua charmosa alegoria. Percebendo o seu ceticismo, a menina lamentou com tristeza:

- Oh Inho, vejo que não acreditas em mim!

O rapaz observou a menina com seriedade, procurando averiguar se ela estava caçoando dele. Depois sorriu contente, olhando para a bela adolescente com ternura, pois sentiu que não havia nela a menor malícia. Percebendo a natureza

daquela manifestação e diante de tamanha sinceridade, o rapaz começa a vislumbrar uma vaga recordação, a qual ele não sabia definir com precisão. Concentrou-se em sua infância e, de repente, tudo lhe veio à mente. Lembrou-se de que, quando ele ainda era um bebê, aquela fadazinha o visitava e ele a chamava de Inha. Olhou para a garota, sorriu e exclamou:

- Sim!... Agora sim, eu me lembro, com se fosse um sonho! Quando eu era muito pequeno e acordava na noite, tu vinhas acalentar o meu sono, com uma cantiga de ninar!

A menina sorriu e exclamou feliz:

- Isso Inho, finalmente tu te lembras de mim e tu sabes quem eu sou!

Ronaldo não conseguia acreditar no que estava lhe acontecendo. Subitamente, tudo fazia sentido para ele. Sentiu que, naquele mágico momento, a sua vida encaminhava para uma solução definitiva. Doravante não ligaria mais para as críticas de seus opositores, pois ficou ciente de que, o tempo era seu aliado. Ele percebeu então, que nunca havia se sentido, realmente, um adulto na acepção íntegra da palavra. Jamais teve algum tipo de ambição e não havia coisa alguma que ele desejasse para si mesmo. Sempre sentiu que lhe faltava alguma coisa, algo que o seu raciocínio não definia. Alguma coisa que, no fundo do seu coração, ele procurava e não sabia bem o que era. Compreendeu que ali estava o que ele sempre desejou: ela, a sua menininha, a sua Inha, a sua alma gêmea. O rapaz afagou as mãos da bela menina e as beijou em seguida, desejando saber mais a respeito do mundo que ela pertencia. Ela delineou em poucas palavras a sua natureza e o mundo encantado em que vivia. Afirmou que as fadas eram mistas de humanos e anjos e que a Terra era o planeta natural delas e de todos os seres etéreos, abaixo dos anjos imaculados de Deus. A Terra apenas hospedava os seres humanos, os quais eram anjos decaídos, evoluindo para chegar ao seio de Deus. Os anjos decaídos não foram expulsos do Paraíso; saíram dele por vontade própria, exercendo o seu livre arbítrio. Deus jamais expulsaria um filho da Casa Paterna.

Ronaldo ouviu, maravilhado, o relato da sua linda fadazinha. Esperando dela uma existência venturosa, comum aos dois, perguntou:

- O que será do porvir?

-Ainda não é o momento de estarmos juntos, meu querido! Eu nunca te abandonei! Apenas sentia saudades de conversar contigo e sentir o teu olhar no meu olhar. Para poder estar aqui, ao teu lado, precisei usar o grosseiro envoltório humano, o que me deixa fraca como qualquer pessoa comum. Por isso pedi permissão à Rainha Morgana, que me recomendou muito cuidado.

- Quem é a Rainha Morgana?!

- A nossa rainha, a Rainha das fadas.

- Por que é tão perigoso assim? – Perguntou Ronaldo, preocupado com a segurança da sua bela fada.

Querendo alertar o rapaz sobre os inimigos naturais dos seres etéreos e humanos, ela proferiu em tom sério e cauteloso:

- Existem as criaturas das trevas, que vivem nos umbrais, as quais atuam livremente na face do planeta. Os humanos, por terem um egocentrismo acentuado, são sempre vítimas desses seres, os quais então na mais baixa posição, da evolução espiritual dos anjos decaídos. No momento três deles estão a minha procura, disfarçados de foliões fantasiados.

Lembrando-se dos três tipos que o abordaram no começo da noite, o rapaz explanou para a garota:

- Mais cedo, antes de te encontrar, eu me deparei com uns caras, que me ameaçaram. Principalmente um fantasiado de Zé do Caixão!

- São esses mesmos! Mas não te preocupes com eles, que não podem fazer nada conosco, antes da meia noite!

- Antes da meia noite?! Faltam poucos segundos para isso! – Disse Ronaldo para a sua fadazinha. Subitamente as sonoras badaladas do relógio de uma igreja nas adjacências se fizeram ouvir:

- Como assim?! Não são só onze horas da noite? – Perguntou a menina assustada, com a novidade.

- Estamos adiantados em uma, devido o horário de verão! – Afirmou o rapaz, surpreso com a aflição da garota.

- Oh Inho, eu não contava com esse imprevisto. Bem que a rainha me alertou sobre as leis e costumes locais! Devemos ir embora depressa daqui! – Alertou a fadazinha, olhando para todos os lados, preocupada com aquela situação.

Ronaldo abraçou a menina, procurando lhe dar um pouco de conforto e ambos saíram apressados daquele local. De repente, uma estranha ventania varreu toda a praça e o sinistro uivo de um lobo se ouviu ao longe. O rapaz notou que, com o avançar das horas, os bares foram sendo fechados e a localidade ficou quase vazia, Nesse momento Ronaldo percebeu que a noite perdeu o seu colorido e em seguida a aparência noir se fez sentir, trazendo um pouco de insegurança para ele. A fada lhe avisou que os vilões estavam por perto e só havia um local, onde eles poderiam ficar em segurança até o amanhecer. Ela olhou para o rapaz dizendo com ansiedade:

- Oh Inho, nós temos que seguir até o santuário da sagrada colina!

Ronaldo, querendo dar mais confiança à sua fadazinha, assegurou:

- Estarei contigo querida e nada poderá nos acontecer!

Naquela hora os ônibus já tinham sido recolhidos. Ronaldo tentou encontrar um taxi, mas foi em vão a sua procura. Um finíssimo e frio sereno começou a cair, trazendo desconforto para ambos. Os dois seguiam apressados pela avenida vazia, quando depararam com as horripilantes figuras: Zé do Caixão, de cartola e bengala na mão, usando uma capa escura sobre a casaca negra, segurando o seu lobo; o Diabo, com sua fantasia vermelha e um tridente nas mãos; e a Morte, a qual resplandecia o seu esqueleto na sombria hora noturna. Vendo aqueles espectros, a menina exclamou com aflição:

- Veja Inho, são eles!

O rapaz pegou a menina pela mão e ambos saíram correndo, entrando nas estreitas ruas do centro histórico, sendo perseguidos pelos algozes vilões. Após algum tempo, a fada carente do seu encantamento, clamou exausta:

-Oh Inho, eu não posso mais. Estou cansada!

Imediatamente Ronaldo ergueu a sua fadazinha e a carregou nos seus braços, verificando que ela era leve como um bebê. Correu mais rápido ainda, subindo e descendo as famosas ladeiras da sua amada cidade. Depois de algum tempo nessa agonia, acabou chegando num local bastante movimentado. Nesse momento avistou uma senhora parda, com seus trajes tradicionais, sentada em um banco, a qual vendia em seu tabuleiro, as famosas iguarias da cidade. Indagando-a onde ele poderia encontrar uma condução, ela observou:

- Nessa madrugada é quase impossível, devido o carnaval! Ronaldo observou aquele ambiente, com angústia. A mulher olhou para ele com curiosidade e, depois percebendo que o rapaz carregava uma menina nos braços, perguntou:

- Sua filha está doente?

Ronaldo respondeu que sim e ela o advertiu:

- O Senhor está entrando numa zona do baixo meretrício, que é muito perigosa. Para evitar isso, suba aquela ladeira à esquerda, que logo depois, o senhor encontra um pronto socorro.

Ronaldo agradeceu a amável senhora e partiu dali apressado. Depois de percorrer muito tempo pelas ruas desertas, naquela madrugada, verificou que não estava sendo seguido e suspirou aliviado, dizendo:

- Acho que estamos fora de perigo!

Nesse momento a sua Inha lhe abraçou e um suave e indescritível perfume penetrou em suas narinas, transportando-o aos longíssimos tempos de sua primeira infância, quando ele era ainda um bebê e recebia a visita daquela linda fadazinha. Afagou seu dourados cabelos, osculando todo o seu rosto, dizendo:

- Nunca irei abandonar a minha Inha e jamais deixarei algo lhe acontecer!

- Eu sei disso, querido. Sempre soube.

Ronaldo sorriu feliz e continuou a sua especial odisseia, carregando a sua bela fadazinha que, apesar do invólucro humano, era leve como uma pluma. A seguir chegou ao final de uma comprida ladeira, a qual começava na parte baixa da cidade. No mesmo instante, a fadazinha avistou, ao longe, o famoso santuário e disse contente:

- Olha Inho, lá está ela! A sagrada colina.

As duas almas gêmeas seguiram felizes, abraçados um ao outro, sentindo o sabor do paraíso. Desceram pela a longa ladeira, convictos de que estavam livres de ameaças. Porém, chegando ao inicio da subida, perto do terreiro de uma famosa mãe de santo, encontrou os três facínoras de tocaia. Nesse momento, Ronaldo respirou fundo e dominou o medo que sentia. Colocando a sua fadazinha sentada em cima de um muro, deixou-a em segurança, livre do ataque do lobo. A seguir, pegando um porrete que encontrou no chão, se prontificou a enfrentar os três canalhas. Inesperadamente, ouviu uma suave e poderosa voz lhe saudando:

- Olá Seu Ronaldo! Se a briga for com o senhor, eu entro do seu lado!

O rapaz olhou a sua direita e viu um senhor escuro de cabelos e barbas grisalhas, fumando o seu cachimbo. Reconheceu-o imediatamente. Era um velho amigo do passado, o qual sempre o protegeu do perigo e o carregava para casa, em suas famosas bebedeiras. Ele sempre se apresentava como o amigo Preto Velho. Graças aos seus conselhos, Ronaldo se livrou de um provável alcoolismo. Os três malfeitores, ouvindo a pretensão do velho, caíram numa ruidosa gargalhada e começaram a mangar dele. Zé do Caixão disse com arrogância:

- Se esse coroa aí não é de nada, imagine você velho gagá!

Preto Velho estalou os dedos e o feroz lobo se transformou em um dócil cachorro. Desceu à fadazinha do muro e colocou aquele belo cão para lhe fazer companhia. Subitamente, o inconfundível som dos atabaques e berimbaus começou a ritmar na madrugada, encobrindo a sinfonia dos galos, que anunciavam aquele amanhecer. Nesse momento, o velho começou a sorrir e gingar na frente dos malandros. Enquanto isso acontecia, apareceram as jovens filhas de santo do famoso terreiro e fizerem uma roda em volta do capoeirista, e dos três meliantes. Enquanto a luta prosseguia, elas deram suas mãos umas às

outras, começando a girar em volta dos lutadores e cantar uma conhecida cantiga de roda, modificando, um pouco, a sua letra:

- Pai Francisco entrou na briga,

Batendo com o pé e com a mão!

Dingue, dingue e dingue dão!

Dingue, dingue e dingue e dão!

Deu uma surra nos valentões,

E Pai Francisco salvou o seu irmão!

Como ele vem todo contente,

Deixando surrados os bobalhões!

Como ele está sorridente

Depois de surrar os meliantes!

Logo após a mostra perfeita daquela arte, o pessoal do terreiro ficou em volta do velho, saudando a sua destreza. Todos pareciam conhecer a natureza da bela fadazinha. Nesse momento, os vilões surrados levantaram-se do chão e trataram de sumir dali imediatamente, abandonando o seu cão. Principalmente quando os capoeiristas do terreiro botaram os três para correr. A mãe de santo assegurou a Ronaldo e sua bela fada, dizendo:

- Não se preocupem meus filhos! Fiquem sossegados, que aqueles três não irão incomodá-los. Os meus meninos só vão deixar eles, além do velho farol da praia norte.

Despedindo-se de todos e agradecendo a grande ajuda, Ronaldo e sua fada seguiram contentes para o santuário da sagrada colina. Faltava apenas uma hora para o amanhecer. Enquanto andavam, iam escutando a cantoria dos galos, sentindo os aromas peculiares da aurora, anunciando um dia perfeito. O rapaz não carregava mais a garota. Seguiam juntos, de mãos dadas, como um belo casal de namorados; felizes pelo reencontro e por tudo terem terminado bem. Quando chegaram à colina e começaram a subir os primeiros degraus da milagrosa igreja, o final da noite se transformou, novamente, em um belo colorido. Nesse momento, aquela maravilhosa fada desfez-se do seu invólucro humano e apareceu para Ronaldo, mais bela ainda, na sua forma verdadeira; portando na cabeça um diadema dourado, cravejado de cores cintilantes e usando um finíssimo vestido azul, cujas estamparias, formadas por pontos brilhantes e coloridos, pareciam desvinculados do próprio tecido. A fada pegou na mão de Ronaldo, fazendo-o sentir o êxtase profundo dos seres etéreos. O suave perfume que dela exalou, deixou-o totalmente enlevado no mágico momento. De repente o rapaz começa a levitar e, surpreso com tudo aquilo, perguntou a sua fadazinha:

- Oh Inha, o que está nos acontecendo?

- Uma situação puramente etérea, querido! Tu estás entrando no meu círculo dimensional, no qual seguiremos em total segurança, sobrevoando a cidade, até a tua morada!

Nesse mesmo instante o rapaz, conduzido pela sua bela fadazinha, elevou-se às alturas, deslumbrado com o que via. Sentiu que não estava voando, apenas o efeito gravitacional da matéria deixou de atuar, numa magia delirante. Observando a cidade naquela altura, notou que ela era mais bela do que ele imaginava. Transportado até o prédio onde ele residia a sua fadazinha entrou pela janela do seu quarto e o colocou em sua cama, como se ele fosse ainda um bebê. Ela o mirou ternamente e beijou os seus lábios, dizendo:

- Eu quero que o meu Inho durma tranquilo e nunca esqueça a sua Inha! Não temas nada, pois és muito amado! Em um belo dia, num futuro ainda

distante, eu virei te buscar. Até lá sejas feliz! – inesperadamente, ela elevou-se no ar, tornando-se pequenina, do tamanho de um dedo indicador. Pegou a sua varinha de condão e salpicou milhares de estrelinhas brilhantes por todo o quarto do seu Inho, purificando todo o ambiente. Depois disso, jogou-lhe um beijo com as mãos, acenando sorridente para o sonolento rapaz e saiu pela janela, deixando atrás de si, a sua suave fragrância.

Era quase meio dia, quando Ronaldo despertou naquela manhã, ouvindo o som estridente de um trio elétrico, que passava por perto. Levantou-se da cama e se dirigiu para a sala, indo até a janela para observar a folia. O dia estava maravilhoso, dando-lhe uma sensação de conforto e bem estar. Morava no terceiro andar de um novo prédio, na principal avenida da cidade, ápice de toda aquela conjuntura. Apesar de não gostar de trios elétricos, não os considerava mais nenhum mostrengo. “Afinal havia gosto para tudo”, pensou ele no momento, relembrando um ditado popular que dizia: “O que seria do azul se todos gostassem do vermelho”. Entretanto, preferia uma frase de um poeta que dizia: “Arte é uma questão de gosto; contudo, gosto é uma questão de cultura”. Saiu da janela e foi sentar-se num sofá, perto da televisão. Lembrou-se de sua aventura na noite anterior. Teria ele sonhado?!... Perguntou isso a si mesmo e não encontrou uma resposta razoável para aquele acontecimento. “Parecia tão real!” Pensou ele no momento, considerando como uma coisa fantástica toda aquela ocorrência. Lembrou-se que tinha saído de casa no entardecer do dia anterior; porém, não conseguia se lembrar de como tinha chegado até a sua casa. Não conseguiu lembrar-se de nada! Só do sonho maravilhoso que teve com a sua linda fadazinha. “Teria sido mesmo um sonho?!” Perguntou a si mesmo, novamente, e teve dificuldade em achar uma resposta racional. Sorriu feliz com toda aquela circunstância e chegou à ambígua conclusão: “Pode ser que sim, mas pode ser que não!” Levantou-se do sofá e foi até a mesa, para pegar uma garrafa de uísque e tomar um trago. Notou que não havia em si, nenhum sinal de ressaca da bebedeira daquele sábado. Tentou ascender um cigarro e, sentindo que, não precisava mais daquele achaque, amassou o maço, jogando-o ao lixo. Em seguida, não pensou muito e despejou todo o conteúdo da garrafa na pia. Após aquele ato reflexivo, foi até a geladeira à procura de algo saudável para beber. Encontrou um pacote de suco de laranja, bebendo todo o liquido com prazer. A seguir, foi refugiar-se na sua rede, armada na área de serviço do seu apartamento e foi ler um bom livro, sentindo que um novo capítulo, iria começar em sua vida. (Publicado pelo Site londrino ArtsFacts)

Um comentário:

  1. Sarava bonjour!
    Boa crônica.
    Abraços
    Heitor de Pedra Azul
    * heitordepedrazul@yahoo.fr

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