Meu filho, teu filho.
Charles Meira
Apresentação
Emocionante o texto de Charles Meira sobre o
relacionamento entre Pedro e Lúcia. Uma paixão digna de um romance ou uma
novela. Não sei se é baseado em um caso real, ou não. No entanto, não deixa de
emocionar o leitor. Charles é um escritor historiador, sempre voltado para
assuntos que envolvem biografias e entrevistas sobre as lutas entre coronéis e
jagunços de Jequié, no passado, ou ainda sobre músicos e atletas do nosso
futebol. Dessa vez Charles relata uma história de amor com um final
surpreendente. Carlos Eden Meira
A garota
Foto Ilustrativa
Na década de
70, Pedro conheceu, na cidade de Jequié, uma garota por nome Lúcia. Era muito
atraente, principalmente por causa do seu belo corpo. Na época, Pedro era muito
namorador e não demorou em aproximar-se da bela mulata. Eles estudavam no
Instituto de Educação Régis Pacheco, na mesma sala, fato que contribuiu para,
em pouco tempo, ele conquistar a colega, mesmo com a rivalidade de outros
rapazes. Além de namorar no colégio, saíam para festas nos clubes e barzinhos,
sempre acompanhados das amigas de Lúcia e a sua turma, formada por Moisés, seu
irmão, Paulo e Roque, primos, Antônio, Alfredo e Cosme, amigos de infância.
Uma noite fazendo amor
Foto Ilustrativa
Com o passar
do tempo, Lúcia demonstrava, pelas suas atitudes, que estava gostando de Pedro,
mas ele não correspondia aos seus sentimentos, pois não conseguia ter somente
uma namorada. Pela insistência dela, de vez em quando iam curtir a noite de
Jequié. Em uma dessas noites, depois de uma festa no clube, foi levá-la à sua
casa, que ficava na Avenida Santa Luzia, no bairro do Joaquim Romão. Como era
madrugada e não tinha ninguém na sua residência, resolveu ficar para dormir.
Passaram o restante da noite fazendo amor. Acordaram com um barulho: a perna da
cama tinha-se quebrado! Daí por diante foi que ela grudou no seu pé. Mas, ele
considerava seu relacionamento com Lúcia uma aventura como outras tantas.
Passou a receber presentes, que eram enviados por ela para a empresa em que
trabalhava. No dia do seu aniversário um bolo, de outra vez um cachorrinho, que
morreu na casa de sua tia Lindaura depois de 15 dias. Cada presente que chegava
era motivo de gozação dos colegas. Como gostava muito dele, queria engravidar,
mas, devido a problemas uterinos, não conseguia realizar o seu sonho.
Mudança de Lúcia e Pedro para Salvador
Foto Ilustrativa
No ano de
1974, Lucia, foi morar em Salvador. Em 1975, Pedro também se mudou com sua
família para a capital. Quando Pedro chegou a Salvador, Lúcia já tinha
encontrado seu irmão Moisés, seu primo Roque e os amigos Cosme e Alfredo. O
relacionamento entre eles continuava o mesmo vivido em Jequié. As praias e as
festas de largo eram os lugares mais frequentados pela turma. A relação de
Pedro com eles não era mais a mesma, pois os seus pensamentos e atividades
mudaram. Estava namorando e gostando de Marina, procurava emprego e pretendia
estudar novamente. Assim aconteceu. Logo estava trabalhando, estudando e
pensando em casamento. Durante esse período, teve alguns contatos com Lúcia,
mas, em companhia dos seus amigos. Lúcia estava residindo em um pensionato na
Rua do Gravatá. Sempre passava naquele local quando ia fazer teste para
trabalhar.
O pencionato na Rua do Gravatá
Foto Ilustrativa
Numa tarde, quando retornava da parte baixa de Salvador, encontrou
Lúcia à porta do pensionato. Entraram para conversar, pois já fazia algum tempo
que não via sua amiga. Lúcia continuava com esperanças de reatar o namoro.
Neste dia conversaram bastante. Aproveitou a ocasião e falou com Lúcia que
gostava de Marina e pretendia ficar noivo em pouco tempo, inclusive mostrou as
alianças que tinha comprado. Ficaram por muitos tempos sozinhos e acabaram
tendo uma relação amorosa. Depois do ocorrido, ela ficou parada no canto da
cama, como se estivesse escondendo algo, talvez a lembrança do relacionamento
entre eles, que naquele momento estava terminando. A partir daquele dia, suas
vidas se separaram. Lúcia, logo mudou de endereço e Pedro perdeu contato com
ela.
O casamento
Foto Ilustrativa
Em abril de
1976, casou-se com Marina e continuou morando em Salvador, na casa de sua mãe.
Passados alguns meses, Moisés e Roque estiveram com Lúcia na Rua do Gravatá,
porém em outra casa. Estava morando com uma amiga e havia-se engravidado. Novamente
Lúcia desapareceu e nem seus amigos davam notícias. Como o envolvimento que
teve com Lúcia era considerado para ele uma aventura, não se lembrava mais
dela, passou a dedicar-se à sua esposa, ao trabalho e estudar.
O nascimento do primeiro filho
Foto Ilustrativa
Passados uns
quatro anos, Pedro continuava morando em Salvador com sua mãe, e tinha um filho
que nascera em 1977, um belo menino de cor branca, cabelos vermelhos, parecido
com seus tios e os parentes de Catingal, distrito da cidade de Manoel Vitorino.
Estava terminando o curso e havia mudado de setor no emprego, trabalhava agora
na Praça da Sé, fazendo o estágio exigido pela escola. Certo dia, quando fazia
um projeto na sala em que trabalhava, foi avisado por um colega que alguém
queria falar com ele. Ficou um pouco apreensivo, julgando que seu filho tivesse
adoecido ou outra notícia ruim. Nessa hora, só pensava em algo desagradável.
Dirigiu-se rapidamente à sala de espera.
A visita inesperada
Para sua surpresa, a visita era uma
pessoa que há muito tempo tinha deixado o convívio com eles. Sentada no sofá, quando
Lúcia o viu, levantou-se e friamente cumprimentaram-se. Inicialmente,
comentaram sobre o longo tempo sem contato. Depois, sobre assuntos relacionados
com saúde, moradia, família e seus amigos. Como não podiam conversar muito,
porque ele estava no horário de trabalho, Lúcia falou que era melhor acertar um
encontro em outro local, a fim de que tivessem mais tempo para dialogar.
Marcaram-no o final da tarde, na saída principal do edifício onde ele
trabalhava. No local e horário combinado, encontraram-se e saíram conversando.
Na ladeira da praça, próximo a um centro comercial, perguntou a Lúcia o que
queria falar que necessitava de tanto tempo. Ela sorriu, mas não respondeu.
Sentou-se na murada de proteção das lojas, e ela começou a contar o que
desejava. Fez primeiro um relato do que tinha acontecido durante o período em
que passou desaparecida.
Lúcia fala da gravidez
Disse ter sido muito difícil os meses de gravidez,
pois não estava trabalhando. Para suprir suas necessidades, teve que morar com
uma amiga, e depois que o filho nasceu, sujeitou-se a fazer tudo para dar-lhe o
sustento. Num clima ainda de suspense, Pedro esperava ansioso o desenrolar do
que Lúcia tinha mais a falar. Prosseguiu o relato, passando a recordar o último
encontro deles naquele pensionato na Rua do Gravatá. Contou-lhe ter-se
engravidado no período em que tiveram aquela relação amorosa. E, quanto a
Marivaldo, não era ele o pai, tinha falado aquilo apenas por brincadeira. E, em
seguida, declarou que de acordo com suas contas o pai do menino com certeza era
ele, Pedro. Antes de terminar, contou que o nome do filho deles era Roberto, e
tinha sido registrado como de pai ignorado. Naquele momento, Pedro ficou um
pouco tenso, mas ao mesmo tempo pensava em tudo que tinha ouvido. Depois
perguntou a Lúcia por que havia demorado tanto tempo para tomar aquela decisão.
Respondeu-lhe que, devido aos problemas que aconteceram durante esse período,
ficou com vergonha de comunicar-se com todos seus amigos, principalmente ele,
de quem escondia esse segredo. Num clima ainda tenso, terminaram a conversa,
pois ele teria de ir à escola. Despediu-se em poucas palavras. Lúcia pegou o
ônibus para Brotas e Pedro foi andando para o Tororó, com a mente cheia de
dúvidas.
O coral da Coelba
Na empresa em
que Pedro trabalhava, tinha um coral formado por alguns de seus empregados, do
qual também ele fazia parte, porque gostava de cantar dede os seis anos de
idade. Certa ocasião, o coral foi convidado para fazer uma apresentação no
Teatro Castro Alves, deixando todos muito alegres, pela possibilidade de cantar
naquele importante local, considerado o melhor de Salvador. Como o evento era
organizado pela Secretaria de Cultura e Lazer do Estado, foram distribuídos
convites entre os participantes dos corais. Os seus, ele deu para alguns
colegas de trabalho, familiares, e o último guardou para dar a Lúcia. Na semana
da apresentação, encontrou-se com ela e deu-lhe o convite. Prometeu-lhe que
iria ao evento.
Apresentação do coral no Teatro Castro Alves
Foto Ilustrativa
No dia da apresentação do coral, foi ao teatro acompanhado de
sua esposa, seu filho e sua mãe. O público que compareceu foi basicamente
composto de colegas de trabalho, familiares e alguns amantes daquela arte.
Mesmo sendo um encontro de corais amadores, que pela primeira vez cantavam no
Teatro Castro Alves, tiveram um desempenho razoável que agradou ao público
presente. Como ele estava envolvido numa apresentação do coral, não teve nenhum
contato com as pessoas da plateia. Quando foram liberados pela maestrina,
somente sua família estava esperando-o.
Em casa,
quando comentava sobre a apresentação dos corais, Marina, sua esposa, falou ter
visto Lúcia no teatro e estava acompanhada de um menino que corria de um lado
para o outro brincando com José e que foi necessário segurá-lo, pois estava
dando muito trabalho. Em outro momento do comentário, Marina perguntou-lhe como
poderia Lúcia ter ficado sabendo do evento. Respondeu que o motivo teria sido
por causa da boa divulgação feita pelos organizadores. Acreditou não ter dado
uma resposta convincente para sua esposa, mas foi a que veio à sua mente de
imediato. Para evitar mais perguntas, chamou Marina para dormir, insinuando
cansaço e sono devido a uma noite bastante agitada.
Conclusão do curso de Eletrotécnica
Foto Ilustrativa
No ano de
1981, quando concluiu o curso, Pedro foi transferido para Jequié. Com o passar
do tempo, o seu entrosamento com os colegas foi aumentando, principalmente com
Adélio, que se tornou seu parceiro de música. Como seu amigo era cristão,
participaram de alguns festivais evangélicos. Na mesma época, passou a
frequentar a igreja batista, convidado pelo pastor Juvêncio e Evanildes, que
era irmã de sua esposa. Em 1985, aceitou Jesus Cristo como seu Salvador e uma
grande mudança aconteceu na sua vida. Motivado por esses acontecimentos, meses
depois passou a sentir a necessidade e vontade de contar à sua esposa um
segredo de algo que aconteceu antes do seu casamento. Um dia passaram na casa
de Evanildes, como era de costume. Ali chegando, encontraram a família dela
reunida. Logo veio ao seu pensamento a lembrança da revelação que ele tinha
para fazer e não teria momento melhor. Falou para os familiares dela que tinha
uma história para contar e queria atenção de todos.
Segredo revelado
Iniciou contando sobre o
namoro que teve com Lúcia na época do colégio, e todo o desenrolar dos
acontecimentos em Jequié e Salvador, os momentos no pensionato no Gravatá, até
o dia em que Lúcia falou que Roberto era seu filho. Marina não deixou ninguém
falar, começou a chorar e ao mesmo tempo condenava Pedro, achando que a relação
que ele teve com Lúcia havia acontecido depois do casamento deles. O pastor
Juvêncio e as irmãs de Marina deram suas opiniões, orientando sua esposa para
agir com calma e analisar o que ele tinha dito, para não tomar atitudes
precipitadas. Depois de várias horas reunidas, os ânimos de Marina foram
diminuindo devido aos muitos apelos feitos pelos seus familiares. Por algum tempo,
teve que ouvir de Marina a mesma conversa acusando-o daquele ato praticado no
passado. Feliz ideia que teve de fazer aquela declaração na casa do pastor.
Mesmo com a desconfiança de Marina das declarações feitas por Pedro, referente
à data em que teve uma relação com Lúcia, nada mudou no ambiente familiar.
Apenas evitava contactar com Lúcia e Roberto.
O curso fornecido pela Coelba em Salvador
]Foto Ilustrativa
Numa
segunda-feira, enquanto trabalhava, foi informado pelo seu chefe imediato que
teria que ir a Salvador para tomar um curso de aperfeiçoamento na área
comercial. O hotel escolhido foi o Palace, situado na Rua Chile. Na mesma noite
que chegou a Salvador, telefonou para Lúcia, mas ela não estava. Pela manhã,
conseguiu falar com ela e saber notícias de seu filho. A única novidade era que
queria conhecê-lo. Achou mais que justo e então marcaram o encontro para sábado
no Shopping Iguatemi, local onde ela trabalhava. Durante a semana, ficou
pensando como deveria agir no momento em que estivesse frente a frente com seu
filho. No dia combinado, foi grande a sua expectativa. Às 9 horas, pegou o
coletivo na Praça da Sé que ia para a rodoviária. Saltou no ponto em frente ao
Iguatemi e andou até o local sugerido por Lúcia, que ficava próximo a uma
agência do Bradesco. Esperou em pé, encostado numa pilastra junto do banco.
O encontro com o filho
Foto Ilustrativa
Não
demorou muito, avistou Lúcia, toda de vermelho e os sapatos de saltos bem
altos. Ao seu lado um adolescente mais alto que ela, cabelos compridos, magro e
com um sorriso bonito nos lábios. Cumprimentou Lúcia e depois apertou a mão de
Roberto, que falou com ele deixando transparecer o nervosismo que estava
sentindo. Da sua boca saiu algumas palavras que com certeza há muito tempo
tinha desejado falar. Perguntou-lhe se estava bem, chamando-o de pai.
Conversaram ali o suficiente para uma apresentação e foram à parte internas do
shopping onde passaram todo o dia conhecendo-se melhor. Em cada gesto, um
sorriso, um olhar, percebia a alegria de Roberto. Procurou agir de maneira que
ele pudesse ficar bastante à vontade, mesmo sendo para Pedro uma experiência
nova e difícil de ser enfrentada. No final da tarde, ao despedir-se de seu
filho, percebeu o quanto aquele encontro tinha sido importante.
A reação dos filhos de Pedro
Desde o
início, o relacionamento de Pedro com Roberto era muito formal. O sentimento
que ele nutria foi sempre de amizade, nunca do amor que um pai sente pelo
filho. Outra dificuldade encontrada foi à reação dos seus filhos José, João e
Sara, quando souberam que tinham outro irmão. José, o mais velho, foi radical.
Fez ameaças, prometendo fugir se Roberto entrasse em sua casa. João, o mais
novo dos homens, levava na esportiva, mas não era simpático à ideia de ter uma
amizade maior com seu outro irmão. Sara foi quem aceitou Roberto como seu
irmão. Falava que gostava dele porque não brigava com ela. Pedro e sua esposa
sempre procuravam mostrar aos seus filhos que Roberto não tinha nenhuma culpa
no que aconteceu, sendo assim, deveriam aceitar a realidade do fato.
Registro de Roberto
Algumas vezes,
Pedro foi questionado por que nunca tinha sido pressionado por Lúcia para
assumir a paternidade ou oferecer qualquer tipo de ajuda financeira a Roberto.
Respondia que devia ser para não ferir o sentimento das pessoas que realmente
assumiram na época todas as necessidades suas e do seu filho. Mas, aproveitando
que o relacionamento afetivo entre a família de Pedro e Roberto estava cada vez
melhor, Lúcia, começou a falar sobre o registro do nosso filho. Contou-lhe que
ele ultimamente tinha estado muito revoltado porque no seu registro de
nascimento constava que o seu pai era ignorado e que por causa disso tinha
passado alguns constrangimentos quando precisava utilizar o referido documento.
Pedro, depois de ouvir o relato dela, ficou bastante comovido. Depois de
refletir no que escutara, falou para Lúcia que era justa a revolta de Roberto,
mas mesmo assim não iria registrá-lo porque sua esposa não aceitava e temia que
este ato causasse conflitos no seu lar. Terminou a conversa sugerindo a Lúcia
que desse um pouco mais de tempo.
A visita de Roberto
Como Pedro
esperava, o tempo foi determinante nas decisões tomadas pela sua família. Aos
poucos, seus filhos José e João foram aceitando a possibilidade de terem outro
irmão. Confirmando as suas previsões, eles comungaram com a ideia de Roberto
poder visitá-los no período de férias do colégio. Tudo aconteceu com a
aprovação de sua esposa, que demonstrava ter concordado com a atitude por eles
tomada. No dia da visita de Roberto, a mais alegre era Sara. João brincava com
José, dizendo que Robertinho logo chegaria para jogar bola com ele na garagem.
José, muito sério, não gostou das gaiatices de seu irmão. Quando Lúcia e
Roberto chegaram, foram recebidos por Pedro e discretamente cumprimentados pela
família. Depois das apresentações, conversaram um pouco sentados no sofá da
sala. Sara ficou quieta, olhando desconfiada para Roberto, que por sua vez
contemplava com sorrisos a beleza de sua irmã. O silêncio foi quebrado quando
os vizinhos Dida e Marlon chamaram os meninos para jogar vôlei. Logo ficaram
sabendo da presença de Roberto, que foi também convidado. Ainda muito
envergonhado, aceitou participar das brincadeiras. Enquanto Pedro mostrava a
casa a Lúcia, sua esposa foi para a cozinha fazer uma merenda. Sara, que tinha
ido ajudar sua mãe, foi quem anunciou que o lanche estava pronto. Com muitos
elogios ao pão de forno feito por sua esposa, retornaram para a sala onde
dialogaram por mais alguns minutos. Pouco antes de se despedir, Roberto
pediu-lhe permissão para seus irmãos passarem as férias de junho com ele em
Salvador. Respondeu-lhe que somente dependia de eles aceitarem. Num clima diferente
do ocorrido na chegada, eles despediram-se de José, João, Sara e sua esposa. Em
seguida foi levá-los no seu carro à casa do pai de Lúcia. Quando manobrava o
carro para retornar, contemplou a alegria deles estampada nos seus rostos,
manifestando os momentos de felicidade vividos naquele dia.
A possibilidade de registrar Roberto
Em virtude do
fortalecimento das relações entre a família de Pedro e Roberto, foram quebradas
as barreiras existentes que impediam o registro do seu filho. Consequentemente
passou a pensar com mais frequência nesta real possibilidade. Uma campanha
realizada pelo governo com o mesmo intuito foi outro fato que contribuiu para
aumentar a sua motivação de concretizar aquele ato de reconhecimento e amor.
O telefonema
Foto Ilustrativa
Mas, através
de um telefonema que deu para Lúcia pedindo informações sobre o pagamento das
contas de água e luz do seu apartamento, que gentilmente algumas vezes ela
efetuava, teve uma notícia surpreendente. Contou-lhe que seu companheiro, com
quem há pouco tempo estava namorando, tinha tomado a decisão de registrar
Roberto como seu filho. Ficou por alguns segundos somente pensando o que iria
falar. Ainda confuso, perguntou como Roberto havia reagido. Falou que estava
muito alegre e satisfeito, pois era um sonho que há muito tempo desejava
realizar. Falou com Lúcia que esperava ter sido uma atitude tomada por amor.
Ela não deu resposta. Terminaram o diálogo, tratando sobre o assunto do
apartamento.
Depois de
acertar a venda do seu apartamento pelo telefone, teve de ir a Salvador para
assinar a escritura. Ali chegando, ligou para Lúcia, cobrando o documento do
I.P.T.U que tinha deixado para ela pagar. Acertou para encontrá-la no shopping
Piedade, na parte da tarde, depois que assinasse a escritura num cartório em
frente ao relógio São Pedro.
O encontro com Lúcia
Às 16h, chegou ao local combinado. No início da
conversa, Pedro falou com Lúcia que sua aparência estava bastante mudada.
Sorriu e disse ter sido o corte diferente do seu cabelo. Procurou saber como
estava Roberto e o seu companheiro. Enquanto dava notícias de Roberto, pegaram
na sua bolsa alguns retratos para que ele conhecesse o seu companheiro. Olhou
todas as fotos e achou ele muito parecido com Roberto, mas não comentou nada
com Lúcia. Colocou o álbum no balcão e ficou aguardando ela atender um
telefonema. Depois que ela guardou as fotografias, saíram procurando um local
para sentar, pois ela queria falar com ele. Como não encontraram, ficaram
conversando em pé junto de uma lanchonete. Aproveitou e pediu dois cafezinhos.
No momento em que a moça da lanchonete colocava as xícaras no balcão, Lúcia
começou a falar.
A notícia surpreedente
Contou que tudo se tinha iniciado no pensionato na Rua do
Gravatá. Na mesma época do relacionamento amoroso deles, ela havia conhecido o
seu atual companheiro, com quem teve um longo caso de amor, e que perdera
contato com ele depois que viajou para São Paulo. Com pouco tempo, percebeu que
estava grávida e também em dúvida de quem era a criança. Assim mesmo, quando o
menino tinha quase quatro anos, resolveu dizer que o filho era seu, preferindo
acreditar no instinto de mãe. No seu relato, declarou ter ficado sabendo de
amigos que o seu atual companheiro esteve em Salvador noutra ocasião à sua
procura, mas não conseguiu encontrá-la. Depois de terminar de tomar o
cafezinho, continuou a conversa contando que há dois meses, quando estava no
seu trabalho atendendo um cliente, alguém pronunciou o seu nome de uma forma
diferente, levantou a cabeça e quando viu quem era ficou parada por alguns
segundos não acreditando que era verdade. Conta Lúcia que o silêncio foi
quebrado por Felipe, aquele com quem teve um caso de amor no pensionato na Rua
do Gravatá, que depois de cumprimentá-la disse ter encontrado muita dificuldade
para encontrá-la, mas que dessa vez estava preparado para enfrentar todas as
barreiras.
Felipe diz que é o pai de Roberto
Disse ter vindo à Bahia com duas finalidades: uma era encontrá-la e
a outra era conhecer o seu filho, pois teria de provar para amigos paulistas
ter feito um menino em Salvador. Logicamente, ela teve de contar para Felipe
toda a história relatada até aqui. Felipe ouviu atentamente e depois disse a
Lúcia que o filho era dele e queria conhecê-lo imediatamente. Ela prometeu que
iria conversar com Roberto quando chegasse a casa. Naquele dia voltou para sua
residência muito nervosa e aflita, pensando como iria contar para Roberto.
Tentou esconder dele o máximo que pôde, mas foi pressionada, colocada na parede
devido a seu comportamento ter despertado a curiosidade de Roberto. Foi vencida
pela insistência dele e acabou contando. Roberto confessou para sua mãe ter
percebido desde o início que Pedro não era seu pai por causa das suas
diferenças físicas e a falta de amor no relacionamento deles. No outro dia,
quando Lúcia chegou ao trabalho, encontrou Felipe que estava esperando-a. Falou
com ele que tinha marcado o encontro para o final da tarde. Na continuação do
relato, Lúcia disse a Pedro que foi um momento marcado de muita emoção, e os
dois se abraçaram e comentaram o quanto eram parecidos. Depois que concluiu
aquela história de definição, declarou que estava novamente apaixonada. Quando
ela terminou de falar, Pedro levantou, pagou a despesa e foram até o local do
trabalho dela. Despediu-se de Lúcia e foi procurar uma loja de material
esportivo para comprar uma camisa do time que era torcedor o Vitória.