domingo, 23 de novembro de 2025

O ADVOGADO DO DIABO

                                      Por Carlos Eden Meira

"Dr." Albert Dupont era um "rábula"(advogado fajuto), cujo falso diploma ficava exposto na parede do seu gabinete ostentando o vistoso título em letras góticas: DR. ALBERT DUPONT. O título teria sido outorgado por uma universidade chinesa que desapareceu durante um terremoto, levando junto, a biblioteca da tal universidade, que jamais foi encontrada entre os escombros.

Albert Dupont era um "advogado de porta de cadeia"que defendia os pobres coitados sem condições de pagar um defensor particular, contando apenas com a defesa de advogados públicos. Mas, também era uma espécie de "advogado do diabo", ao defender crimes cometidos pelos chamados "colarinhos brancos", o que lhe valeu a fama de grande profissional. Tinha uma lábia impressionante, quando, num tribunal, fazia citações de grandes oradores como o grande Catão da antiga Roma, e outros mais atuais.

Isso deu-lhe também, a fama de grande erudito, filósofo, conhecedor da História e da literatura clássica. Durante uma sessão do tribunal do júri, Albert que era francês naturalizado brasileiro, falava o Português quase sem sotaque. O dito advogado, enquanto defendia um  criminoso "pé de chinelo", usou o termo "garricho" , causando assim, grande rebuliço entre o juiz, o promotor e outros advogados ali presentes. - Esse pobre "garricho"  - disse Albert,- nunca poderia ter cometido o crime pelo qual está sendo acusado! E se cometeu, foi pela necessidade, pela fome! É um pobre miserável, sem eira nem beira, - dizia Dupont fazendo um gesto dramático em direção aos jurados. 

É um pobre "garricho", repetiu ele, causando tumulto entre a plateia que assistia à sessão. O juiz então pediu silêncio, suspendeu a sessão por uns instantes, convocando a promotoria e outros advogados ali presentes,  para um pequeno gabinete reservado, alí ao lado da sala do júri.

Falando em voz baixa, abriram um enorme dicionário procurando a palavra "garricho". Não acharam! Consultaram enciclopédias, livros de direito penal, enfim, assuntos ligados à advocacia de um modo geral, e nada da palavra "garricho".

Ao retornar à sala do júri, o juiz questionou Albert Dupont:

-Afinal, onde é que vossa excelência achou essa palavra "garricho" ?Ela não consta em nenhum dicionário ou enciclopédia que consultamos! 

Dupont sorrindo olhou para o público presente: - Ora, ora, meus senhores, como não existe a palavra? - e voltando ao juiz: - A  palavra está lá na biblioteca chinesa onde me formei. Claro que vocês nunca iriam achá-la  em nenhum dicionário. Foi citada pelo grande orador francês, Maurice Lennard, durante o Tratado de Viena em 1847. E está no único volume do tratado, que existia na biblioteca chinesa que desapareceu durante um grande terremoto na cidade onde me formei. Dupont ainda conseguiu convencer a todos de que a palavra "garricho", vinha do Latim "garrinchum". O pobre acusado foi absolvido por unanimidade pelo corpo de jurados, Dupont ficou famoso e rico. Já do tal Tratado de Viena de 1847 e do "grande orador" Maurice Lennard, ninguém sabe se existiram, ou não. Nem eu.


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