sábado, 7 de maio de 2022

Processo de Evolução da Indústria, Comércio e Agropecuária de Jequié.

                                                               J. B. Pessoa

A cidade de Jequié nasceu na confluência de dois rios, onde estava localizada a sede de uma fazenda, desmembrada do antigo latifúndio Borda das Matas, que pertencia ao inconfidente José de Sá Bithencourt. O seu nome é derivado do pequeno afluente do Rio das Contas, outrora denominado Rio Jequié, hoje Rio Jequiezinho. A Fazenda Barra do Jequié, ou simplesmente Jequié, pertencente a Joaquim Fernandes de Souza, casado com a bisneta do inconfidente, tornou-se ponto obrigatório de repouso, aos cruzamentos naturais entre tropeiros e boiadeiros, vindos do sertão e do norte de Minas Gerais, com o destino ao litoral. Esses constantes movimentos de idas e vindas, com paradas na Fazenda Jequié, ocasionou o aparecimento de rancharias e das primeiras vendas, onde o tropeiro e o boiadeiro refaziam suas forças e tomava as suas “pingas”, comentando as noticias que eram trazidas de diversas paragens. Não tardou muito, e em volta da fazenda começou formar um pequeno povoado, que crescia, constantemente, com o aparecimento de retirantes, (1860) provindo das secas sertanejas. A partir de então, foram se multiplicando às construções, próximas à sede da fazenda, incentivadas pelo próprio dono, que doava ou vendia terras a quem quisesse se estabelecer. As primeiras praças e ruas foram aparecendo e as casas sendo construídas seguindo a margem esquerda do Rio de Contas e as duas margens do Rio Jequiezinho, Havia poucas casas de telhas. A maioria era de taipa, coberta de palhas, com grandes quintais, onde eram plantadas hortas, árvores frutíferas e com criatório de porcos e galinhas. A localidade crescia com um pequeno comércio, constituído, na maior parte, de casas de pasto, rancharias, pequenas vendas e quitandas, que serviam aguardentes e atendiam as necessidades de tropeiros, boiadeiros e viajantes que cruzavam esses rincões. Nessa época começaram a aparecer os primeiros comerciantes ambulantes, a maioria de origem árabe, conhecidos como “mascates”, os quais traziam mercadorias para serem negociadas com os habitantes de um povoado, que crescia com vigor, transformando-se num arraial, cheio de esperanças no futuro. É Também desse tempo, o começo da imigração italiana, com a chegada de João Rotondano (1866), José Rotondano (1868) e José Niella (1869), que vieram estabelecer no povoado, dinamizando o seu comercio, sendo os precursores da colônia italiana em terras jequieenses. Por volta de 1877, época de outra grande seca, Jequié teve a sua população aumentada, com novas levas de retirantes que, acolhidos em suas terras, teve a sua população aumentada, terminando, assim, sendo elevado à categoria de distrito de Maracás, em 13 de agosto de 1880.

Com a chegada dos italianos e a instalação da firma Rotondano & Niella, o arraial foi progredindo a passos largos, devido aos métodos modernos de seus empreendedores. Graças o apoio dessa firma pode o arraial ter a sua feira semanal e o seu serviço de correios. Os italianos dinamizaram o comércio jequieense, deixando marcas dessa atuação. O trabalho desses empreendedores, oriundos da cidade italiana de Trecchina, foi primordial para o progresso da região. A agricultura e a pecuária ajudaram a desenvolver a riqueza, com o plantio de

diversas culturas, como fumo, algodão, mamona, cana, café, cacau e a criação de gados bovinos, suínos caprinos e muares.

A implantação da pecuária em Jequié, não apresentou a mesma rentabilidade, que agricultura, no seu início. O gado solto pela caatinga necessitava de cuidados especiais e a maioria dos vaqueiros tinha outras atividades. Além disso, a região era infestada de felinos, a exemplo da onça pintada e da suçuarana, que faziam estragos nos rebanhos. Com o tempo e muito trabalho, abrindo novas pastagens e a renovação do capim, o rebanho bovino, a principio constituído de gado rústico, melhorou de qualidade, com a introdução de raças mais apuradas.

Apesar de trazer em seu bojo o vírus do progresso, Jequié era atormentada pelo banditismo que infestava a região. Euclides da Cunha, em seu famoso livro “Os Sertões”, escreveu: “Em Jequié, toda sorte de arbitrariedades eram cometidas”. Além do bandoleiro vulgar, havia chefes políticos, os quais utilizavam serviços de jagunços, para fazer valer suas pretensões. O respingo das lutas entre as facções políticas para deter o poder no município de Maracás, atingia Jequié na sua condição de distrito. Nessa época, o bacharel em direito, Lindolfo Rocha reuniu os homens de bem da terra e fundou o Clube União, que objetivava o combate ao banditismo e a emancipação política de Jequié. Concretizando seus objetivos pode o ilustre bacharel dar uma nova realidade a Jequié: a de município autônomo e de vila emancipada.

Ainda na condição de distrito de Maracás, os italianos que, além dar impulso à agricultura e pecuária, ensaiaram os primeiros passos na atividade industrial. José Rotondano passou a fabricar rolos de fumo, enquanto Miguel Conte fabricava tachos de cobre e consertava armas. A criação de gado alimentava uma indústria de derivados, como a manteiga, queijo e requeijão além de carnes “charqueadas” secas, inteiramente absorvidas pelo mercado regional. Com a chegada de vários artesãos, provindos de diversos cantos da região, pode Jequié contar com padarias, alfaiatarias, sapatarias e marcenarias. Com a plantação de mandiocas surgiram às casas de farinha e com o cultivo da cana, começou a produção de rapaduras e apareceram os primeiros alambiques, dando destaque à produção de aguardente. Entretanto, a produção artesanal que fez Jequié ser conhecida nacionalmente, foi a produção de selas. Tanto que, Graciliano Ramos, em um dos seus romances, deu destaque às famosas selas de Jequié.

Em 1908, quando o presidente do Brasil, Afonso Pena organizou a grande Exposição Nacional para comemorar o centenário da abertura dos portos às nações amigas, o comércio jequieense, liderados pela colônia italiana, marcou presença, ao lado de onze mil expectadores, conquistando um diploma e nove medalhas na referida exposição.

Com a chegada da ferrovia na cidade em outubro de 1927, pode o município escorrer a sua produção agropecuária com mais facilidade. A produção jequieense de algodão, arroz, cacau, café, feijão, fumo, milho e farinha atingiram patamares elevados, assim como sua produção de gado. A produção jequieense de cacau no ano de 1926 assegurou a cidade o quarto lugar no Estado.

Durante as décadas de 30 e 40 surgiram algumas indústrias de pouca importância. A agropecuária era mais importante. Nessa época a cidade tinha um comercio bastante desenvolvido e era considerada a terceira cidade mais importante do Estado. Nos anos 50 e 60 surgiram algumas fabricas de destaque;

outras, devido à retração da economia jequieense, tiveram curta duração, a exemplo de uma fábrica de pregos e uma indústria de calçados, que chegou a exportar sapatos para países do continente sul americano. Nessa época duas indústrias ficaram famosas entre a população e concorriam com as similares do sul, ganhando a preferência dos jequieenses: a Fábrica de doces “Peri” e o refrigerante “Guaraná Regis” fabricado por Adalto Simões. É também desse tempo a Fábrica Carioca, que produzia caramelos e dos deliciosos biscoitos “Tio-Gau” fabricados pela padaria Conceição.

Em 1968 quando a população do município foi estimada em 84.430 habitantes, a população pecuária era de 247.122 cabeças, sendo que, o gado bovino,representava 81,8% do valor total. Nesse ano foram produzidos 9,8 milhões de litros de leite e a produção de ovos atingiu a cifra de 595 mil dúzias. Quanto a indústria de transformação, existiam 124 estabelecimentos, nos quais trabalhavam 897 operários.

Em 1970 Jequié contava com indústrias bastante desenvolvidas de confecções, calçados, colchões de molas, bebidas, derivados de leite, além de beneficiamento de sisal, fumo, café, mamona, couros, ouricuri, carnes e derivados. Havia também fabricas de Móveis, cordas, carroçarias de madeiras, serrarias, gráficas e produtos de cerâmicas.

Na última década do século passado e o inicio da atual, o cacau, a mandioca, e a cana-de-açúcar aparece como as principais atividades agrícolas do município. É também cultivado, com bastante destaque, o algodão a mamona, feijão, milho, tomate, abacaxi, banana, melancia, coco e laranja. No setor pecuário destaca os rebanhos bovino, suíno e caprino; destacando, também os rebanhos ovinos, eqüinos, e muares. O município dispõe também de grande quantidade de granjas, as quais produzem aves e ovos, que são exportados para outras localidades.

Apesar de destaque em muitas atividades, o frigorífico do Sudoeste Baiano (FRISUBA), que chegou a abater em 1992, cerca de 400 bois por dia foi fechado, como também o Curtume Aliança, que exportava seus produtos para todo o Brasil e para o exterior, a exemplo do Mercado Comum Europeu. A industria de confecções teve, também, seus reveses.

Atualmente a pecuária bovina, ainda coloca o município entre os principais produtores de carne da Bahia e a cafeicultura começa a ter um destaque especial em certas áreas. O cacau decaiu, não só em Jequié, como também nos municípios do sul do Estado, seus maiores produtores.

A atividade industrial localizada no Distrito Industrial de Jequié está em plena expansão, principalmente nas áreas de produtos alimentícios, vestiários e beneficiamento de produtos agropecuários. A indústria de sapatos Ramarim é a mais importante no número de operários

Nos últimos tempos tem se comentado na cidade a pretensão de indústrias arrojadas, a exemplo de uma siderúrgica e três companhias de mineração. A cidade tem potencial. Cabe aos homens públicos valorar seus ideais e valorizar as perspectivas da região, trabalhando, no sentido de transformar esta cidade, que muito brilhou no passado, voltar a ter o destaque de antigamente.

Este modesto trabalho foi realizado em 2008, pelo então monitor do Museu Histórico de Jequié João Batista Pessoa, visando a atender os alunos secundários do município, em suas pesquisas.

Bibliografia.

A Nova Historia de Jequié e Capítulos da Historia de Jequié de Emerson Pinto de Araújo; Fatos Pitorescos da Cidade Sol de Raimundo Meira; Geografia da Bahia de Fernando Floriano Rocha; Geografia da Bahia de Olga Pereira Meting; Revista de Jequié – Informativa de 1970 – Gestão: Waldomiro Borges; Jequié, Síntese Histórica e informativa de 1992 – Gestão: Luis Amaral e um livro de pontos para o curso primário, editado nos anos 50 pela Tipografia Sudoeste.

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