sexta-feira, 8 de março de 2013

Pascoal e o Futebol Amador de Jequié



                                                                     Por Charles Meira

            Numa noite de quarta-feira, quando estava conectado no Facebook, buscando novidades no Grupo Jequieenses, uma foto do ano de 1969 do time amador do Flamengo de Jequié me chamou a atenção. A maioria dos jogadores daquela foto  tive a oportunidade de vê-los atuando nos gramados do estádio Aníbal Brito e do Waldomiro Borges, entretanto fiquei surpreso quando visualizei um atleta da equipe que é meu grande amigo e não sabia que ele havia jogado futebol. Logo mantive contato com Pascoal e marquei uma entrevista para saber detalhes da sua marcante trajetória jogando no futebol amador da nossa cidade. No sábado dia 08/12/12, às 10h, sentados numa mesa no quintal da sua residência, conversamos descontraidamente por mais de duas horas. Usando um dos muitos chapéus que ele possui, Antônio Alberto Gomes Costa (Pascoal) me contou que nasceu em 14/03/1942 na cidade de Jequié, é casado com Leonice Santana Costa e pai de três filhos. Foi comerciante no ramo de mercearia, bancário e atualmente está aposentado.
Depois de mostrar várias fotos das equipes em que jogou, Pascoal começou a falar da sua infância e adolescência, quando ia assistir aos jogos do futebol amador na década de 50 com seu irmão Alberico (Bombardeio), no estádio Aníbal Brito no Jequiezinho. Contou-me que assistiu a vários craques jogarem, que ele nem amarraria as suas chuteiras. Alguns craques da época citados por Pascoal: Brás Procópio (meia do Comerciário), Guilherme Sucupira (meia), Teotônio (Ponta de Lança do Flamengo), o melhor de todos que viu jogar e que Marcal Martins trouxe de Valença, Nequinha ( Lateral Esquerdo), Nilsinho (médio volante do Jequiezinho). Participava do campeonato os times do Comerciário, Jequiezinho, HGPV, Flamengo e Botafogo. Em seguida contou sobre sua caminhada vitoriosa no futebol amador de Jequié. Começou a jogar de centro avante no areão do rio de Contas no ano de 1958, local mais frequentado na época pelos amantes da redondinha. Além dos babas diários, o do Ziro e o do jereré, o mais famoso que acontecia depois das 8h nos domingos e feriados, jogados das imediações do antigo Curtume Aliança até o atual bairro do Cansanção tinha o Campeonato da Liga Praiana de Futebol, organizado por Antônio Assis (Bria), Mariano Ferreira e Reinaldo Cafezeiro (Tal), que era realizado próximo da atual passarela que liga o bairro do Joaquim Romão ao Centro Industrial de Jequié.
O campeonato era muito bem organizado. O campo era marcado, tinha trave, bandeirinhas de escanteio e juiz. Cabloquinho e Dezinho eram alguns deles. A grande torcida ficava em volta dos campos com bandeiras para assistirem aos babas e jogos dos seus times preferidos, enquanto outras pessoas comercializavam bebidas e comidas em barracas, não faltando os amantes do samba. Santos, Náutico, Fluminense, Ipiranga, Cidade Sol, Portuguesa e América eram os times que participaram do campeonato. Pascoal, que era jogador do Santos, falou que em determinada época o time era formado assim: Detinho, Bojota, Galinha Preta, Beco, Hamilton, Tatu, Pascoal, Chinha e Cosme Preto e os jogadores que mais se destacaram foram: Vivi, Detinho, José Antônio, Édito Meira, José Otto, Iga, Bronzeado, Viladonega, Nilsinho e Hugo Vitamina . Encerrando o relato sobre o futebol no areão do rio de Contas, Pascoal contou um fato que ocorreu num jogo entre o Fluminense e o Santos. O Fluminense ganhava por 2 a 1. Ainda no primeiro tempo o Santos empatou. Durante o jogo, Badinho marcava Pascoal na bola, que não conseguiu jogar. A torcida do Fluminense gritava “cadê o artilheiro?”. No final do jogo, Cosme Preto bateu um escanteio de trivela e a bola foi na testa de Pascoal que colocou no ângulo e Paulinho nem se mexeu, fazendo o gol da vitória. Pascoal saiu comemorando a lá argentino, com os braços levantados e correndo. Outro fato que Pascoal destacou foi a negociação do goleiro Detinho, do time do Santos, que jogou no Vitória da Bahia e no Santa Cruz de Recife, e para  a equipe  do Náutico, que ofereceu ao jogador vantagens financeiras.
Nesta conversa descontraída, numa manhã ensolarada da nossa Jequié, Pascoal optou em dar uma pausa no futebol de campo e de falar um pouco do futebol de salão, esporte que teve início na década de 50, e que em pouco tempo tornou-se a sensação do interior da Bahia. O futebol de salão era jogado nas quadras do Jequié Tênis Clube. Inicialmente em uma quadra e depois em outra construída com o piso apropriado para a prática deste esporte. Os campeonatos eram realizados pelo próprio clube, que era presidido na época por Dr. Milton Rabelo. Os times que participaram dos campeonatos eram os seguintes: Cruzeiro, Butantã, Democrata, Bacardi, White Star e Labour. Mostrando uma foto do forte time do Cruzeiro que foi fundado por Pedro Gordo, Jojó e Gilson Aranha, Pascoal citou a sua primeira formação: Paulinho, Pedro Gordo, Gilson, Aranha, Pascoal e Hugo Vitamina e em seguida falou os nome dos melhores jogadores de futebol de salão a que assistiu atuar no JTC: Dida, kirika, kinka, Hige, Olavinho, Bara, Eduardo Corró, Wilsinho e declarou ser o Cruzeiro o time que ganhou mais títulos na época. Dando uma boa gargalhada, Pascoal passou a narrar um episódio em que aconteceu num jogo que o Cruzeiro ganhou de 6 a 3 para o Butantã. Contou que durante a partida, Hugo Vitamina fez um gol, porém a bola bateu no ferro e voltou para a quadra e Pascoal chutou novamente para o gol. O goleiro do Butantã chamado Zé Pessoa não gostou da atitude e deu um pontapé na perna dele. Imediatamente Pascoal revidou a agressão, dando um potente murro no rosto do goleiro. Em seguida o tempo fechou e a briga generalizou-se, somente terminando quando Élcio Cerqueira (Cueca) entrou na quadra arrastando uma cobra de mais de um metro pelo pescoço, que havia matado não se sabe onde, assustando os jogadores que saíram correndo da quadra.
Depois de contar este fato inusitado ocorrido naquela época, Pascoal me perguntou se queria um cafezinho ou um pouco de água, respondi negativamente e ele voltou a falar do futebol amador de Jequié. Disse que na década de 60, aconteceu um campeonato de Juvenis com algumas das seguintes equipes: América, Botafogo, Jequiezinho e Flamengo. Pascoal jogava no América, que era treinado por Isidoro Preto e tinha a seguinte formação: Paulinho, Erivan, Pedro Gordo, Pedro Farinha, Josivaldo, Nengo, Essinho, Perinho, Tõe de Badê, Pascoal e Macaxeira. Afirmou também que na mesma época tinha o campeonato de aspirante, que era a porta para o time profissional. Neste campeonato o Jequiezinho era o bicho-papão, ganhava quase todos os títulos. Pascoal ainda contou que em certa ocasião num jogo entre o aspirantes do América, enxertado com os juvenis, colocados por Isidoro, ganhou de 2 a 0  do Jequiezinho, com  gols dele. Neste jogo, o zagueiro do Jequiezinho apelidado de “Pegador de Menino”, deu uma pegada proposital em Pascoal no momento que fez um dos gols, quase quebrando a mão de Pascoal.
Em 1963, pascoal foi morar em São Paulo. No retorno em 1966, o finado Zequinha, ofereceu dinheiro para ele jogar no Flamengo. Não aceitou, pois queria um emprego de carteira assinada. Em seguida, jogou no Vasco da Gama de Deosdete Amaral e Luiz Amaral por um ano em troca de um emprego, entretanto o trabalho não deu certo.
No ano de 1967, Maneca Sampaio, pensando em formar um time profissional, conseguiu um emprego para ele no Banco Real. O time foi formado com jogadores de fora e mesclado com alguns de Jequié. Edmilson e Marcos de Salvador, Tufu e Zé Augusto de Santa Luz, Carlinhos de Iaçu, Maíca de Irará, Dilermando e Tanajura de Paramirim, Caculé e Édson de São Paulo, Humberto Cabeleira de Ipiaú, Bajara, Zé do Bife, Bara e Dete Leão de Jequié, Foca – Massagista de Santa Luz e  Maneca Mesquita - Treinador de Feira de Santana. Os times que participaram do campeonato da época eram os seguintes: Flamengo de Walter, Estudante de Bria, Jequiezinho de Radamés Lobão, Mandacaru de Guilherme Braga, Botafogo de Gildásio Viera, Comerciário de Nelson, Vasco da Gama de Deosdete Amaral e o América de Isidoro Preto. Um detalhe importante revelado por Pascoal foi de que os jogadores dos times mais fortes eram mantidos por seus dirigentes através de vantagens financeiras. Desta época Pascoal destacou os seguintes jogadores: Edmilson, Marcos e Maíca do Flamengo, Eduardo Corró e Jeir de Urbano do Jequiezinho, Pelé Cotó e Magno do Mandacaru, Hugo Vitamina, Paulinho de Santa Inês e Jurandy do Estudante e com um semblante de tristeza, narrou um fato que aconteceu no campeonato de 68 no estádio Aníbal Brito, num jogo entre o Flamengo e o Estudante. Os times estavam em igualdade de condições para ganhar o título. O jogo estava 0 a 0, os times jogando um belo futebol. Num lance da partida a bola veio alta, ele amorteceu no peito, colocou no chão e atrasou errado para Edmilson. A bola caiu no pé de Paulinho de Santa Inês, o atleta somente teve o trabalho de fazer o gol. Por este motivo, o time perdeu o campeonato.
Mudando o semblante, continuou a narrativa, agora falando de um fato alegre, ocorrido ano seguinte, quando novamente jogaram o Flamengo e o Estudante, com praticamente os mesmos times. Contou Pascoal de que na entrada das equipes em campo, Paulinho, goleiro do Estudante, falou baixinho no seu ouvido: “Espero que não aconteça o lance infeliz do jogo do ano passado”, Pascoal contrariando o adversário que tentava atingi-lo psicologicamente, respondeu rapidamente: “Eu espero que também não aconteça o lance do jogo contra o Mandacaru, quando Petrônio, possuidor de um potente chute, mandou uma “pomba sem asa” e você quando baixou a bola estava na rede”. Neste jogo o Flamengo venceu o Estudante de 2 a 0, com gols de Dete Leão, que não havia atuado no jogo de 1968. Pascoal foi convocado várias vezes para fazer parte da seleção de Jequié, porém devido o trabalho no banco, não conseguiu conciliar os horário para treinar. Jogou apenas num amistoso contra o São Cristóvão de Salvador, atuando de lateral direito, quando o time se preparava para os jogos do intermunicipal. Pelos mesmos motivos não aceitou jogar no time profissional da Associação Desportiva Jequié.
No encerramento do bate-papo, solicitei de Pascoal uma breve opinião sobre o atual futebol amador e profissional da nossa cidade. Parou, meditou e falou: “Hoje me pergunto, porque nossa cidade não tem uma seleção à altura, já que a população é quase o dobro de antes. Acredito que os motivos são a situação degradante em que se encontra o rio de Contas, pois do belo areão formado no seu leito, surgiram os melhores jogadores do nosso município e as drogas, um terrível mal que assolam precocemente os jovens da nossa terra. Quando se fala em futebol profissional, a minha opinião é de que deveríamos fazer um campeonato amador como antigamente, com a participação de todos os bairros, selecionando os melhores e buscando atletas qualificados de outras cidades da região, incluindo também alguns já profissionalizados, destaques comprovados em equipes do nosso Brasil, devidos o alto custo destes jogadores”.

Fontes: Além de Pascoal nosso entrevistado, conversamos com Jonas Gatão, César Almeida, Maíca, Antônio Borges, Agamenon Britto, Pedro Gordo, Manoel Batista, Edízio Santana, pessoas que participaram do futebol amador de Jequié e deram informações importantes para complementar esta matéria. Gostaríamos de pedir desculpas e compreensão dos amantes do futebol amador de Jequié, pois devido à abrangência do assunto, certamente não conseguiríamos contar esta história na sua totalidade somente neste texto. Matéria editada na Revista Cotoxó de fevereiro/2013.

Nenhum comentário:

Postar um comentário