Judson Pereira de Almeida
A
Rádio Bahiana de Jequié
mória
dos 50 anos da ZYH 472
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia
Índice
Introdução 9
Pressupostos teóricos metodológicos . . . . . . . . . . . .
. 10
Surgimento do Rádio no Brasil . . . . . . . . . . . . . . .
. 13
1 Implantação da Rádio Bahiana de Jequié 17
1.1 Evolução tecnológica . . . . . . . . . . . . . . . . .
. 24
1.2 O radioteatro, os programas de auditório . . . . . . .
. 31
1.3 Influência na vida social . . . . . . . . . . . . . . .
. 36
1.3.1 Integração da cidade com a zona rural: A Hora
do Fazendeiro .
. . . . . . . . . . . . . . . . . 38
1.3.2 A crônica social: o Bom Dia de Luiz
Cotrim . 40
2 O radiojornalismo 43
2.1 Opinião: os editoriais de Fernando Barreto e Adauto
Cidreira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
47
2.2 Os anos de chumbo: período pós-golpe de 1964 . . . . 51
2.3 Transmissões externas . . . . . . . . . . . . . . . . .
53
2.4 Músicas e
Informações: um programa de Geraldo Teixeira 57
2.5 O esporte . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. 59
2.6 Fatos pitorescos . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . 63
2.7 Os programas religiosos . . . . . . . . . . . . . . . .
67
2.7.1 A
Hora do Angelus . . . . . . . . . . . . . . . 70
3 O fim da Rádio Bahiana de Jequié 72
Considerações finais 82
Referências bibliográficas 83
Entrevistas 85
Transcrições 87
Anexos 88
Trabalho de conclusão do bacharelado em Comunicação
Social com habilitação em Jornalismo da Universidade
Estadual
do Sudoeste da Bahia. Orientador: Prof. Ms. José
Carlos Silveira Duarte.
Pequena caixinha que carreguei quando em fuga
Para que suas válvulas não pifassem,
Que levei de casa para o navio e o trem
Para que os meus inimigos continuassem a falar-me
Perto de minha cama, e para a minha angústia,
As últimas palavras da noite e as primeiras da manhã
Sobre suas vitórias e sobre meus problemas
– Prometa-me não ficar muda de repente.
Bertold Brecht
Agradecimentos
A Deus, criador de todo dom perfeito, Senhor de todas as
coisas.
Ao professor mestre José Duarte da Silveira, orientador,
pela disposição
e encorajamento.
Ao professor doutor Marcus Lima, pelo incentivo e apoio.
Ao radialista Ari Santana, pela entrevista e
disponibilização de gravações
raras, importantes para a feitura deste trabalho.
A Inaldo Sardinha pela entrevista e a disponibilização de
documentos
particulares importantes na construção do trabalho.
A Raimundo Meira Magalhães, diretor do Museu Coronel João
Borges
(Museu de Jequié) pela paciência e boa vontade em
disponibilizar
fotos, objetos e informações importantes sobre a ZYH – 472.
A Evandro Lopes, João Mendes, Ari Moura, Edísio Santana,
Cid
Teixeira, Virgílio Argolo, Helena Pereira, Nanci Dias,
Wando Pereira,
Tony Silva, Gilmar Azevedo, Wilson Novaes Júnior e Aroldo
Vieira
pelo carinho, disponibilidade e paciência.
Dedicatória
A minha família, pelo apoio incondicional e as orações que
são a
pedra de toque de todas as conquistas, sempre.
À memória de Geraldo Teixeira, e à de todos aqueles que
deixaram
sua marca na radiofonia baiana, na radiofonia da Rádio
Bahiana de Jequié.
Resumo
Esta pesquisa faz um resgate histórico dos cinqüenta anos
da Rádio
Bahiana de Jequié, uma das primeiras emissoras em Amplitude
Modulada
do Estado da Bahia. Mostra como e em qual contexto
histórico
a emissora foi implantada. Aborda as rádionovelas, o
rádioteatro, programas
religiosos, de entretenimento e os programas de auditório.
Descreve
como era feito o rádiojornalismo em época de parcos
recursos
tecnológicos. Relata fatos históricos transmitidos pela
emissora, as dificuldades
enfrentadas no período pós-golpe militar de 1964 e conta,
também, histórias pitorescas que fazem parte do anedotário
dos que
trabalharam na emissora. Fala da influência exercida na
sociedade de
Jequié e cidades vizinhas.Relata ainda as dificuldades
financeiras, as
crises, as mudanças de proprietários, o desfazimento do
acervo de discos
e documentos e o longo processo de decadência que culminou
com
o fim da Rádio Bahiana de Jequié.
Abstract
This research is a historical
review of fifty years of the Rádio Bahiana
Jequié, one of the first stations
in Modulation Amplitude of the State
of Bahia. It shows how and in which
historical context the station has
been deployed. Covers the soap
operas, the radio theater, religious programs,
entertainment and talk shows.
Describes how it was done radio
journalism in times of scarce
technology resources. Reports historical
facts transmitted by the station,
the difficulties faced in the post-1964
military coup and have also
picturesque stories that are part of the anecdotes
of those who worked on the station.
It speaks of influence in
Jequié’s society and surrounding
towns. Also portrays the financial difficulties,
crises and changes of owners to
terminate the collection of
records and documents and the long
process of decline that culminated
with the end of the Rádio Bahiana
Jequié.
A Rádio Bahiana de Jequié 9
Introdução
ARÁDIO Bahiana de Jequié foi uma das primeiras emissoras em
Amplitude Modulada do interior da Bahia. Fundada em 21 de
setembro de 1954, reinou absoluta no dial AM até
o ano de 1986, em
que chegou a primeira emissora em Frequência Modulada de
Jequié, a
Cidade Sol FM.
Como pioneira na comunicação eletrônica na microrregião de
Jequié,
a Rádio Bahiana produziu radioteatro, fez transmissões
externas
ao vivo, programas de auditório, musicais, jornalísticos e
de serviço.
O Festival
dos Brotos era realizado no auditório do Cine
Jequié nas
tardes de domingo. Mesclava apresentação de novos talentos
e de artistas
consagrados em âmbito regional e nacional. A Hora do Fazendeiro,
apresentado de segunda a sexta-feira das 13h00 às 14h00,
dedicava-se a
enviar mensagens de pessoas da zona urbana às da zona rural
de Jequié e
de outros municípios onde o sinal da rádio era captado.
Numa época de
estradas ruins, em que não existia internet e telefone era
coisa raríssima,
o programa foi de grande utilidade e audiência. No campo do
rádiojornalismo
marcaram época programas como O Repórter Esclarece, O
Grande Jornal Falado e o Plantão
Informativo. No quesito coluna social
destaque para as crônicas do professor Luiz Cotrim. Levadas
ao ar
de domingo a domingo às 07h00 da manhã, relatavam os
acontecimentos
considerados significativos da alta sociedade jequieense.
Durante
algum tempo a Rádio Bahiana transmitiu eventos políticos
como comícios,
o que, no início dos anos 1960, não era proibido pela Lei
Eleitoral.
Jornalismo e entretenimento eram levados ao ar, num período
de poucos
recursos técnicos e financeiros. Jornalistas e radialistas
enfrentaram a
censura imposta aos meios de comunicação, a partir do Golpe
de 1964
e que se agravou em 1968 com a edição do Ato Institucional
no. 5.
A Rádio Bahiana de Jequié foi o principal veículo de
comunicação
usado pela população da região para a obtenção de
informações regionais
durante a segunda metade do Século XX. Transmitiu e esteve
presente em momentos marcantes da vida social e política de
Jequié e
região.
Em 2006 a emissora encerrou um ciclo histórico na área da
comunicação
em Jequié e na Bahia. Depois de uma longa crise financeira
e
estrutural foi vendida para um grupo empresarial de Feira
de Santana e
www.labcom.ubi.pt
10 Judson Pereira de Almeida
passou a ser chamada de Rádio Povo AM. Com a adoção de um
novo
nome considera-se que houve a perda de um referencial
histórico de
Jequié. Hoje os momentos de glória vividos pela ZYH – 472
estão na
memória de pessoas que nela trabalharam e em pouquíssimos
documentos
escritos e sonoros.
Pressupostos teóricos metodológicos
O objetivo geral desta monografia não é contar com riqueza
de detalhes
a história da Rádio Bahiana de Jequié, mesmo porque tal
proposta
demandaria maior tempo de pesquisa e seria mais adequada
para um
trabalho em nível de mestrado ou doutorado, mas sim, traçar
um perfil
histórico da emissora. Trata-se de pesquisa descritiva,
baseada em
depoimentos (entrevistas) de pessoas que trabalharam e das
que foram
ouvintes da Rádio Bahiana de Jequié. Não é o propósito do
presente
trabalho fazer uma análise teórica profunda.
As informações foram coletadas a partir de fontes orais, de
fotografias
e recortes de jornais obtidos de pessoas que trabalharam na
emissora,
e de gravações magnéticas recuperadas pelo radialista Ari
Santana
em velhas fitas de rolo, gentilmente cedidas para a feitura
da presente
pesquisa. Muitas fitas contendo gravações da programação da
Rádio
Bahiana foram destruídas, conforme se verá, restando apenas
o que foi
salvo por Ari Santana. Sem dúvida uma contribuição
inestimável para
a preservação da história da Rádio Bahiana e de Jequié.
Para que o
ra
Gélia Ferreira), outros já são falecidos (como Geraldo
Teixeira, José
Mariano, Luiz Gonzaga Lymon). Foram escolhidos aqueles que
por
mais tempo trabalharam na emissora ou que viveram momentos
marcantes,
relevantes para a proposta do trabalho. Informações
passadas
por Evandro Lopes (comentarista esportivo), Inaldo Sardinha
(locutor
esportivo e rádiooperador), João Mendes (locutor), Ari
Santana (locutor
e rádiooperador), Ari Moura (jornalista), Edísio Santana
(locutor e
1Os áudios foram disponibilizados pelo autor deste trabalho
no site
www.4shared.com
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A Rádio Bahiana de Jequié 11
rádiooperador), Cid Teixeira (diretor), Virgílio Argolo
(rádiotécnico),
Nanci Dias (locutora e rádiooperadora), Wando Pereira
(locutor, rádiooperador
e narrador esportivo), Tony Silva (locutor, rádiooperador e
narrador esportivo), Wilson Novaes Júnior (jornalista),
Helena Pereira
(apresentadora de programa religioso) e Aroldo Vieira
(músico e corretor),
estes dois últimos ouvintes e colaboradores ad hoc da
emissora,
foram cruciais para traçar este perfil histórico. Merece
destaque, também,
a colaboração de Raimundo Meira Magalhães, diretor do Museu
Coronel João Borges (museu de Jequié), que disponibilizou
documentos
históricos (fotografias e objetos) e informações que fazem
parte do
acervo do museu. Destaque para Ari Santana, Virgílio Argolo
e Cid
Teixeira, as fontes entrevistadas que por mais tempo
trabalharam na
Rádio Bahiana, sendo que Virgílio Argolo participou da
inauguração da
emissora, como se verá.
A metodologia combinou as técnicas de entrevistas do
jornalismo
com o apoio dos métodos da história oral. As entrevistas
foram semiestruturadas,
combinando perguntas fechadas (pré estabelecidas) e
abertas,
sendo possível para o entrevistado falar sobre o tema sem
que o
entrevistador fixasse de antemão determinadas respostas ou
condições.
Apenas as questões centrais foram estabelecidas a priori.
As principais informações obtidas, portanto, são baseadas
em depoimentos
orais de pessoas que trabalharam e/ou foram ouvintes da
Bahiana
de Jequié. Fontes da mais alta credibilidade, pois, segundo
Henry
Rousso, “(...) a história pertence sobretudo àqueles que a
viveram (...)”
(Henry Rousso in
AMADO & FERREIRA, 2002.p.98) Este
resgate do
passado feito a partir de informações guardadas na memória
é legítimo,
conforme ensina o autor supra citado: “A memória, no
sentido básico
do termo, é a presença do passado” (Idem,
p.94). Depois de gravadas
as entrevistas foram transcritas e formaram um corpo de
informações
que, depois de sistematizadas, tornaram-se o cerne da
pesquisa. Ainda
tendo por base Henry Rousso, o presente trabalho acabou por
fazer a
sistematização de uma memória coletiva até então
fragmentada entre
seus principais personagens:
(...) as representações do passado observadas em
determinada
época e em determinado lugar – contando que apresentem
um caráter recorrente e repetitivo, que digam respeito
a um grupo significativo e que tenham aceitação neswww.
labcom.ubi.pt
12 Judson Pereira de Almeida
se grupo ou fora dele – constituem a manifestação mais
clara de uma “memória coletiva” (AMADO & FERREIRA,
2002,p.94).
Com base na lição de Maurice Halbwachs estas informações
constituem
o corpo de uma memória coletiva “(...) porque concordam no
essencial, apesar de algumas divergências, que podemos
reconstruir
um conjunto de lembranças de modo a reconhecê-lo”
(HALBWACHS,
1990, p. 25). Entretanto, ainda segundo Halbwachs, esta
memória coletiva
pode ser enxergada sob dois aspectos: do ponto de vista do
grupo
em relação ao qual pertence e do ponto de vista de pessoas
exteriores ao
grupo. O autor classifica estas informações como sistema
independente.
É porque formam um sistema independente, pelo fato de
serem as lembranças de um mesmo grupo, ligadas uma a
outra e apoiadas de certo modo uma sobre a outra; é que
esse grupo é nitidamente distinto de todos os outros
(idem,
p.30).
Não é possível ocultar uma certa ligação afetiva do autor
(isto pode
ser percebido nas entrelinhas do trabalho, não de forma
explícita) com
o presente trabalho, na medida em que o mesmo foi ouvinte
da Rádio
Bahiana de Jequié durante as décadas de 1980 e 1990.
Também,
como radialista, conviveu profissionalmente com algumas pessoas
que
fizeram parte da história da emissora, delas ouviu relatos
de fatos que
aconteceram na Bahiana de Jequié e com algumas destas
fontes possui
relação de amizade. Portanto a memória do autor também pode
ser
considerada parte da memória coletiva onde o corpus do
trabalho foi arregimentado,
ainda que em grau menor. De acordo com Halbwachs “A
primeira testemunha, à qual podemos sempre apelar, é a nós
próprios”
(ibidem, p. 25).
A presente pesquisa não se ateve à narração cronológica dos
fatos.
Objetivou, isto sim, traçar um perfil histórico baseado
muito mais em
períodos e fases da emissora. Em nenhum momento foi
pretensão do autor
esgotar o assunto. O desejo é que a pesquisa sirva como um
memorial
de passagens importantes para a história da radiofonia e do
próprio
município de Jequié, e como fonte para estudantes e
historiadores, uma
www.labcom.ubi.pt
A Rádio Bahiana de Jequié 13
vez que quase nada foi produzido até o momento sobre a
Rádio Bahiana.
Também é desejo que outras pesquisas possam aprofundar o
tema
ou abordá-lo por outro viés.
Surgimento do Rádio no Brasil
O século XIX foi marcado pelas primeiras experiências com
ondas eletromagnéticas.
Na década de 1830 o cientista inglês Michael Faraday
descobriu o princípio da indução eletromagnética e, em 1896,
com base
nos estudos de Faraday, Heinrich Herts e outros
pesquisadores, o italiano
Guglielmo Marconi construiu um equipamento que
possibilitava
o envio de sinais a alguns metros. Era o primeiro sistema
de telegrafia
sem fio da história.
Mas no Brasil, em 1893, o padre brasileiro Roberto Landell
de
Moura já realizara a primeira experiência de
radiotelefonia, transmitindo
sons do ponto mais alto da Avenida Paulista ao morro de
Sant‘Anna,
em São Paulo, numa distância de cerca de oito quilômetros.2
No século XX Marconi se notabilizou ao transmitir a voz
humana
por meio de ondas eletromagnéticas em 1914.
As primeiras transmissões radiofônicas no Brasil foram
experimentais.
O rádio aportou oficialmente nas terras brasileiras no dia
07 de
setembro de 1922, por ocasião das comemorações do
centenário da Independência.
Foram instalados, pela empresa Westinghouse Eletric
International,
transmissores e antenas no alto do morro do Corcovado,
no Rio de Janeiro, onde hoje se encontra o Cristo Redentor.
Os sinais
foram captados em Niterói, Petrópolis, na serra fluminense
e até em São
Paulo. Os receptores foram importados especialmente para a
ocasião.
A primeira transmissão foi o discurso do então presidente
Epitácio Pessoa
numa exposição na Praia Vermelha, seguido de música lírica.
Com
o fim da exposição, a estação experimental passou a
transmitir nos dias
seguintes óperas, entre elas O Guarani de
Carlos Gomes, diretamente
2 Segundo o Compêndio
sobre a História do Rádio no Brasil esta
foi “(...) a
primeira experiência de radiofonia de que se tem notícia,
embora não haja documentos
que comprovem o fato. Já em 1899 e 1900, jornais citam a
experiência,
dando fé do pioneirismo do brasileiro na transmissão de
sinais sonoros”. Extraído
do site da Abert: http://www.abertdf.com/site/images/stories/
biblioteca/historia.pdf
Acesso 08/03/2011.
www.labcom.ubi.pt
14 Judson Pereira de Almeida
do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. As primeiras
transmissões não
despertaram a atenção das pessoas. A qualidade do áudio era
sofrível.
Roquete Pinto comentou o desinteresse das pessoas de um
modo geral
para com as primeiras experiências com transmissões de
rádio no Brasil:
Na verdade é que durante a exposição do centenário da
Independência em 1922 muito pouca gente se interessou
pelas demonstrações experimentais de radiotelefonia
(...).
Creio que a causa principal desse desinteresse foram os
alto falantes instalados na exposição. Ouvindo
discursos
e músicas reproduzidos, no meio de um barulho infernal,
tudo roufenho, distorcido, arrombando os ouvidos, era
uma
curiosidade sem maiores consequências. (PINTO, 1923)3
Apesar do desinteresse geral o médico e antropólogo Edgar
Roquette
Pinto4 enxergou na nova tecnologia um eficiente canal de
comunicação,
que poderia ser útil para a educação das massas. Em 20 de
abril
de 1923 fundou, junto com Henry Morize, a primeira estação
de rádio
brasileira, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, sem fins
lucrativos, e
com o objetivo de promover a cultura e a educação. Gisela
Swetlana
Ortriwano, citada por Sêmia Mauad, em artigo sobre a
história do rádio
no Brasil e em Minas Gerais assevera sobre a primeira
emissora
do Brasil: “Nasceu como um empreendimento de intelectuais e
cientistas
e suas finalidades eram bastante culturais, educativas e
altruísticas”.
(ORTRIWANO apud
MAUAD. p. 02). A emissora tinha uma
programação
elitista, com a veiculação de óperas, concertos, palestras,
recitais
de poesia. Segundo Bertold Brecht, o rádio substituía as
apresentações
ao vivo:
Isso foi a radiodifusão na sua primeira fase, na
qualidade
de substituta. Substituta do teatro, da ópera, do
concerto,
das conferências, do café concerto, da imprensa local
etc..
(BRECHT, Bertolt. In MEDITSCH. 2005. p. 41).
3 Arquivo de áudio baixado do site http://www.microfone.jor.br/
historia.htm
(acesso 16/02/2011) e também citado
por Sêmia Mauad no artigo A
história do rádio no Brasil e em Minas Gerais, p. 02, publicado pela Biblioteca on line
de Ciências da Comunicação, no endereço www.bocc.ubi.pt
acesso 08/03/2011.
4Edgar Roquete Pinto é considerado o pai do rádio no
Brasil.
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A Rádio Bahiana de Jequié 15
A grade de programação era horizontal, ou seja, os
programas não
tinham horários predefinidos, e a publicidade era proibida.
A gênese
da denominação Sociedade está no fato de que, para manter a
emissora
no ar era preciso a contribuição dos ouvintes com uma
espécie de
mensalidade. A rádio recebia, também, doações de entidades
públicas
e privadas. A denominação “clube”, adotada por emissoras
país afora
também possui a mesma justificativa. Não havia como
desenvolver o
novo veículo de comunicação com uma receita financeira tão
inconstante.
Tanto a parte técnica quanto a de programação eram bastante
incipiente. Só nos anos 30 é que o governo de Getúlio
Vargas autoriza
a publicidade no rádio, mesmo assim limitada a 10% da
programação.
A partir de então as emissoras começam a se
profissionalizar e a programação,
antes voltada exclusivamente para a elite, começa a ganhar
traços populares. Posteriormente o limite da publicidade
passa para
20% e as emissoras investem na contratação de produtores e
artistas,
surgindo assim, a concorrência entre as rádios.
A competição teve, originalmente, três facetas:
desenvolvimento
técnico, status da emissora e sua popularidade. A
preocupação “educativa” foi sendo deixada de lado e, em
seu lugar, começaram a se impor os interesses mercantis.
(ORTRIWANO apud
MAUAD, p. 02)
Foram introduzidas mudanças na linguagem radiofônica,
tornando
a comunicação mais direta, de fácil compreensão e,
consequentemente,
de maior alcance na sociedade. Abandonou-se o tom rebuscado
e, de
certa forma, pedante e a comunicação no rádio tornou-se
mais coloquial
e de fácil entendimento. Segundo Mário de Andrade o rádio
abandona
a classe culta e assume sua real vocação, a de falar para
as grandes
massas:
A geografia do rádio não alcança as montanhas elevadas
da cultura. Fica-se pelos vales, pelos platôs largos e
pelos
litorais. Daí sua linguagem particular, complexa,
multifária,
mixordiosa, com palavras, ditos, sintaxes de todas
as classes, grupos e comunidades. Menos da culta, pois
que desta ele apenas normalmente se utiliza daquelas
cem
palavras e poucas normas em que ela coincide com todas
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16 Judson Pereira de Almeida
as outras linguagens, dentro desta abstração que é a
Língua.
(ANDRADE, Mário. in
MEDITSCH. 2005. p. 117)
A grade de programação passou a ter caráter vertical, com
programas
e horários pré-definidos. A publicidade, como dito,
possibilitou
uma receita fixa e maior desenvolvimento técnico e
artístico do veículo
de comunicação. A partir da década de 30 o rádio passa,
portanto, para
um período de profissionalização/mercantilização ao tempo
em que entra
na chamada “Era de Ouro”. Foi o período dos programas
musicais
populares e de auditório, como os da Rádio Nacional do Rio
de Janeiro,
com o surgimento de ídolos como Carmem Miranda, Orlando
Silva,
Cauby Peixoto, Emilinha Borba e outros, que ajudaram a
fazer do rádio
um instrumento presente na vida de milhões de brasileiros.
As emissoras
alcançavam todo o território nacional e transmitiam
partidas de
futebol, o que despertou a paixão por times do sul/sudeste
(especialmente
do Rio de Janeiro e de São Paulo) nos mais longínquos
rincões
do país.
A “Era de Ouro” do rádio começa o seu declínio a partir do
início
da segunda metade do Século XX com a chegada de um novo
meio de
comunicação de massa ao Brasil: a televisão. No dia 18 de
setembro de
1950 foi inaugurada a TV Tupi de São Paulo.
Neste período de declínio da “Era de Ouro” do rádio foi
implantada
a Rádio Bahiana de Jequié, objeto de estudo nos próximos
capítulos.
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A Rádio Bahiana de Jequié 17
1 Implantação da Rádio Bahiana de Jequié
O historiador Emerson Pinto de Araujo relata no livro A Nova História
de Jequié o
interesse de pessoas da comunidade jequieense pelo rádio
já na segunda década do século XX. A cidade estava sob a
intendência
do coronel João Carlos Borges, e em 1925, foi criada a
Rádio Sociedade
de Jequié, não uma emissora de rádio, mas uma espécie de
clube de amantes da radiofonia. Assim afirma o citado
historiador: “Alguns
moradores fundaram a ‘Rádio Sociedade de Jequié’, cujos
estatutos
foram elaborados pelo juiz da Comarca Bertino Passos,
adquirindo
um receptor para o deleite dos associados” (ARAÚJO, 1997,
p. 286).
Como se pode inferir, os aparelhos de rádio eram objetos
caros e raros
na época, sendo comprados por grupos de pessoas associadas.
Numa
cidade onde as opções de lazer eram mínimas naquele tempo,
o aparelho
de rádio despertou grande curiosidade e passou a ser objeto
de
admiração de muitos. De acordo com relatos do historiador e
jornalista
Raimundo Meira Magalhães: “O rádio era uma coisa raríssima.
Então reunia assim vinte pessoas, cada um dava cinco,
alugava um local
para tomar uma cervejinha e ficar ouvindo rádio”
(MAGALHÃES,
25/03/2011).
Segundo informações trazidas por Herzem Gusmão Pereira em
trabalho
monográfico sobre a trajetória da Rádio Clube de Conquista,
o
primeiro aparelho receptor de Vitória da Conquista foi
adquirido em
1936 por um grupo de pessoas que fundou o Clube do Rádio.
A história do Rádio em Vitória da Conquista tem início
em
1936 quando João Oliveira Lopes, Virgínio Maciel e
Leôncio
Dantas adquiriram o primeiro Rádio-receptor que ficava
à disposição da comunidade em uma casa alugada
na Praça da República (praça Tancredo Neves), onde as
pessoas pagavam uma taxa para ouvir as transmissões,
nascendo assim o Clube do Rádio, evoluindo mais tarde
(1938) para um Clube dançante. (PEREIRA, 2003. P.20)
Jequié, portanto, saiu na frente de Vitória da Conquista no
interesse
pela recepção das ondas sonoras do rádio, mas, já em 1952,
a cidade
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18 Judson Pereira de Almeida
teve sua primeira emissora de rádio instalada o que
aconteceu em Jequié
dois anos mais tarde, como veremos.5
Na primeira metade do século XX o cinema era o principal
instrumento
de entretenimento em Jequié, principalmente a partir de
1936,
quando foram instalados aparelhos sonoros que
possibilitavam ouvir a
voz dos personagens e a trilha sonora durante as exibições.
Mesmo
assim as condições técnicas eram precárias. No início a
sala
(...) dispunha apenas de um projetor, havendo
intervalos
entre as partes do filme em exibição , disso se
aproveitando
os baleiros para venderem bombons, chocolates , cocadas
e
outras guloseimas. Alguns expectadores aproveitavam nos
intervalos para fumar o cigarro (ARAÚJO,1997. p. 358).
As orquestras filarmônicas entravam em declínio. No mais,
as opções
eram as serestas, o bate papo em frente à casa do vizinho,
o mexerico
que dava conta da vida alheia e, para os boêmios, os
cabarés
como o Lanterna
Verde e o Bar Fascista e as casas de tolerância. Com
a chegada dos clubes sociais, em especial o Jequié Tênis
Clube, a cidade
contou com uma opção de lazer. No Jequié Tênis Clube eram
realizadas
festas dançantes, bailes de carnaval, banquetes, reuniões
para
tratar de assuntos de interesse da comunidade e eram
desenvolvidas
várias modalidades esportivas, não só o tênis.
A partir do fim da primeira metade do século XX Jequié
entra em
declínio econômico, que culmina com a perda da privilegiada
posição
de liderança entre os municípios da região Sudoeste da
Bahia. A cidade
que outrora fora pouso de tropeiros, principal entreposto
comercial da
região, fornecedora de matéria prima para vários estados do
país e para
o exterior, ligação entre o alto sertão e o litoral sul do
estado, sede de
empresas de grande importância e capital econômico (como as
empresas
fundadas por imigrantes italianos, e que chegaram a
desenvolver
5A Rádio
Clube de Conquista foi inaugurada oficialmente em 17 de dezembro
de 1952 em uma reunião nas dependências da mesma, no 1o
andar da então sede
da agência do Banco Econômico, localizada na praça
Barão do Rio Branco, onde
ocupava 03 salas. Neste mesmo dia, às 10h, a cantora
Dalva de Oliveira realizou
um show, apresentado pelo locutor Fernandes Filho, no
auditório do Cine Vitória que
mais tarde passou a se chamar Cine Ritz, onde
atualmente funciona a sede da Rádio
Clube (PEREIRA,
2003. P. 22).
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A Rádio Bahiana de Jequié 19
funções originalmente destinadas a bancos, até a instalação
da primeira
agência bancária na cidade) viu sua importância ser
diminuída gradativamente
a partir do momento em que o transporte rodoviário
suplantou
o ferroviário e o marítimo, principalmente, como assevera
Emerson
Pinto de Araújo, com a construção do trecho rodoviário
ligando Ipiaú
a Ilhéus. “A princípio, favorecido com a ferrovia ligando-o
a Vitória
da Conquista, o porto de Ilhéus, após a complementação da
BR 330,
se converteu no grande escoadouro do cacau e de outros
produtos da
região da mata”. (ARAÚJO, 1997. p. 395). Muitas firmas
estabelecidas
em Jequié responsáveis por armazenar e beneficiar produtos
oriundos
da mata fecharam suas portas. Com a diminuição do fluxo de
mercadorias a estrada de ferro Nazaré6 perdeu importância e
foi posteriormente
desativada, perdendo Jequié a condição de ponta de trilhos.7
Conta Emerson Pinto de Araújo:
A firma Araújo & Filho, estabelecida à Praça Luiz
Viana,
especializada em beneficiamento de fumo exportado para
a Europa através de multinacionais sediadas na capital
do
Estado, encerrou suas atividades, deixando
desempregados
cerca de trezentos operários. O mesmo fenômeno se
repetiu com as agências compradoras de café, mamona e
outros gêneros que até então vinham de longe para o
centro
receptor de Jequié.
(ARAÚJO, 1997, p. 395)
Passemos para 1954, ano de fundação da Rádio Bahiana de
Jequié.
A população brasileira consternada com o suicídio do
presidente
Getúlio Vargas, ocorrido no dia 24 agosto daquele ano, o
Brasil mergulhado
numa crise política e financeira, o mundo ainda em
recuperação
dos traumas provocados pela Segunda Grande Guerra. 1954
também
foi o ano do falecimento de Roquete Pinto, considerado o
pai do rádio
no Brasil. Régis Pacheco era o governador da Bahia, eleito
para
o quadriênio 1951/1954. Antônio Lomanto Júnior ocupava o
cargo de
6Em 1938
foram embarcadas pela Estrada de Ferro de Nazaré 10.065 toneladas
de cacau. Em 1954, essa cifra caiu para apenas 304
toneladas (ARAÚJO, 1997. P.
395)
7“O colapso final (sic) ocorreu em setembro de 1971, quando o governo decretou
a paralisação definitiva da Estrada de Ferro de Nazaré,
autorizando a retirada dos
trilhos”. (ARAÚJO, 1997. p. 305/306)
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20 Judson Pereira de Almeida
prefeito de Jequié. Eleito pelo Partido Liberal tomou posse
em 1951
concluindo o mandato em 7 de abril de 1955.8 Segundo dados
do censo
demográfico de 1950, Jequié contava com uma população de
20.500
habitantes9. Ainda segundo o senso de 1950, a população de
Jequié era
predominantemente rural, com 23% de habitantes na cidade,
7% nas
vilas e povoados e 70% na zona rural.
Quase trinta anos depois da fundação da Rádio Sociedade de
Jequié,
com os aparelhos mais populares e acessíveis, a cidade já
contava
mais receptores, que sintonizavam principalmente as
emissoras do eixo
sul/sudeste do país.
Em 1954 foi fundada em Jequié a Associação Jequieense de
Imprensa,
que teve como seu primeiro presidente o Juiz de Direito Walter
de Vasconcelos Nogueira “(...) um entusiasta e idealizador
da entidade”.
(NOVAES JÚNIOR, 2006, p. 29)
Neste contexto foi instalada a ZYN-27, Rádio Bahiana de
Jequié em
1954, uma das primeiras emissoras de rádio do interior da
Bahia. Foram
os esforços de Adilson Almeida, locutor do serviço de
alto-falantes A
Voz da Cidade de
propriedade de José Mascarenhas Oliveira, conhecido
como Zuzinha e que, posteriormente, fundou sua própria
empresa, A
Voz do Sudoeste10,
que possibilitaram a implantação da emissora na
8Antônio Lomanto Júnior foi um político de grande expressão
na Bahia e no Brasil.
Exerceu os cargos de vereador, prefeito de Jequié por três
mandatos, deputado estadual,
governador da Bahia e senador da República. Encerrou a
carreira política em
janeiro de 1997, quando passou o cargo de prefeito para
Roberto Pereira de Brito
eleito sob sua batuta e que, mais tarde, romperia com o
veterano político.
9Em 1950,
enquanto a população de Salvador se aproximava da casa dos quatrocentos
mil habitantes, nenhuma outra cidade do Estado da Bahia
ultrapassava a
cifra de trinta mil habitantes. Em números redondos,
Ilhéus contava com 22.600 habitantes,
passando um pouco mais de 27.000, se incluídos seus
limites administrativos;
Itabuna chegou aos 23.000 habitantes; Feira de Santana
a 26.500; Cachoeira – São
Félix a 17.00; Nazaré a 11.200; Alagoinhas a 21.000;
Jequié a 20.500; Vitória da
Conquista a 17.500; Juazeiro a 16.000. (ARAÚJO, 1997, p. 393/394)
10Os serviços de alto-falantes e os carros de som eram os
únicos meios eletrônicos
de comunicação disponíveis na época. Os alto-falantes
desfrutavam de prestígio e veiculavam
música, notícias, utilidade pública e assuntos sociais
(aniversários, casamentos,
batizados, falecimentos etc.). Com a implantação das
emissoras de rádio os altofalantes
entraram em declínio, conforme narra o historiador Emerson
Pinto de Araújo:
“Com a inauguração da emissoras locais de rádio e o
surgimento do radinho de pilha
os alto-falantes começaram a perder a importância que
desfrutava. Permaneceram os
carros móveis de som, fazendo propagandas comerciais e dos
candidatos a cargos elewww.
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A Rádio Bahiana de Jequié 21
cidade. Adilson Almeida, então, convenceu Alceu Nunes da
Fonseca11,
proprietário do grupo Rádiointerior, que agregava várias
emissoras no
Brasil, entre elas a Rádio Industrial de Juiz de fora e a
Rádio Carioca
do Rio de Janeiro, da viabilidade de instalação de uma
emissora de rádio
em Jequié. De acordo com a narrativa do técnico Virgílio
Argolo,
um dos primeiros funcionários da Rádio Bahiana, o primeiro
contato
de Adilson Almeida com Alceu Nunes da Fonseca se deu em
Jequié.
Na ocasião Adilson tentou demonstrar a viabilidade de uma
emissora
de rádio na Cidade Sol, não tendo Alceu, inicialmente,
demonstrado
interesse no empreendimento:
Adilson conversando com ele disse que aqui caberia uma
rádio, aí ele disse: e a dificuldade de técnico,
dificuldade
de locutor... ele disse: não, tem locutor, eu sou
locutor,
tem mais locutores. E aí começou a insistir com
Fonseca,
escrevia sempre pra lá. (ARGOLO, 25/03/2011).
O locutor queria uma emissora do grupo Rádio Interior
instalada em
Jequié. Depois do primeiro contato com Alceu Nunes da
Fonseca e diante
da negativa do empresário em implantar uma emissora na
cidade,
tivos” (ARAÚJO, 1997 p. 507). Porém alguns serviços de
alto-falantes resistiram e
até hoje operam em Jequié: A Voz da Cultura do radialista
João Veloso no bairro Jequiezinho,
A Voz da Cidade, no centro e a Voz América do policial
militar e radialista
Valdivino Filho no bairro Joaquim Romão. Os carros de som
ainda operam em grande
quantidade em Jequié. Destaque para Geraldo Teixeira, que
montou um dos primeiros
carros de som da cidade, o Geteixeira Publicidade, uma “veraneio”
dirigida por um
cidadão muito conhecido chamado Paraíba. O Geteixeira
Publicidade marcou época,
funcionou por mais de 40 anos em Jequié.
11Nascido em Marica, RJ, em 31 de abril de 1903. Representante
de produtos
farmacêuticos. E foi nessa atividade que começou seus
primeiros contatos com o
rádio, já que era necessário divulgar as qualidades dos
produtos que vendia nas farmácias
e drogarias. Entre 1940 e 1941, entrou no ramo
publicitário, conseguindo
as primeiras representações de estações de rádio do
interior do país, uma delas sob
a sua orientação: Rádio Cultura de Araraquara Ltda. SP. Foi
o pioneiro nesse encontro
do rádio do interior, com o mundo publicitário, do Rio de
Janeiro e de São
Paulo através do Grupo Alceu Nunes da Fonseca & Cia.
Ltda – Organização “RADINTERIOR”
sediada na então Capital Federal, Rio de Janeiro, GB, à
Avenida Rio
Branco, número 138, 9o andar. Inúmeras vezes tomou a
iniciativa de requerer a instalação
de emissoras para cidades do interior. Foi um verdadeiro “plantador
de antenas”
por este Brasil afora. Fonte: http://www.varandasbarbacena.com.br/
radialistas/alceu_nunes.html
Bastidores do Rádio. Acesso:
28/03/2011
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22 Judson Pereira de Almeida
Adilson continuou seus esforços. O jornalista Nelson Galvão
Rocha
Filho, em trabalho monográfico sobre a contribuição da
atividade radiofônica
para o desenvolvimento de Jequié assevera:
(...) segundo Geraldo Teixeira, Adilson Almeida
convenceu
o grupo a investir em Jequié por meio de fotografias da
cidade e região, da possibilidade do desenvolvimento
econômico
da região, e com isso conseguiu demonstrar que
a cidade já carecia de uma emissora própria. (ROCHA
FILHO, 2009, p 20.)
Diferente de Roquete Pinto, que, segundo os historiadores,
enxergava
no rádio um instrumento para a educação das massas, a visão
de
Adilson Almeida era comercial, viu o veículo como um
instrumento capaz
de ajudar a desenvolver Jequié economicamente. Adilson
Almeida,
finalmente, convenceu Alceu Nunes da Fonseca a investir em
Jequié
com a implantação da emissora mostrando ao empresário
carioca a viabilidade
do empreendimento, mesmo a cidade não ocupando mais a
posição de destaque que tinha no passado. Na visão de
Adilson Almeida
a viabilidade da emissora dava-se pelo potencial econômico
da região ao
tempo em que poderia ajudar a esta mesma região a, de certa
forma, se
recuperar do impacto provocado pelo declínio da atividade
econômica.
“Depreende-se que Adilson Almeida vislumbrava as
possibilidades sócio-
econômicas que a presença de uma emissora de rádio local
podia
proporcionar”. (ROCHA FILHO, 2009. p. 20)
Na noite de 21 de setembro de 1954 foram ao ar as primeiras
ondas
da ZYN 27, Rádio Bahiana de Jequié. O primeiro locutor a
ocupar
a cabine da emissora foi Geraldo Teixeira (que já atuava no
campo da
comunicação em Jequié como locutor do serviço de
alto-falantes A Voz
da Cidade), tendo como operador de áudio Virgílio Argolo,
também
responsável pela parte técnica da rádio. Na inauguração
duas transmissões
externas foram realizadas. A primeira do Cine Jequié, a
cobertura
do show com o cantor Lúcio Alves, e a segunda da Praça Rui
Barbosa,
cobertura do comício do candidato a prefeito Dorival
Borges. As
transmissões externas foram feitas por Maurício Costa
locutor enviado
pela Rádio Industrial de Juiz de Fora, também do grupo
Rádiointerior,
para a inauguração da Rádio Bahiana de Jequié. Cabe
salientar que o
Cine Jequié ficava a um quarteirão do estúdio da emissora e
a Praça
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A Rádio Bahiana de Jequié 23
Rui Barbosa a menos de trinta metros do mesmo. A Rádio
Bahiana foi
inaugurada no terceiro andar do Edifício 02 de Julho, na
rua do mesmo
nome, no centro da cidade, um prédio amplo e bem
localizado, onde
permaneceu até ser vendida no ano 2000 para um grupo da
Igreja do
Evangelho Quadrangular, conforme veremos no último capítulo
deste
trabalho.
Além dos depoimentos colhidos ao longo da pesquisa, os
detalhes
da noite de inauguração da Rádio Bahiana foram retirados de
uma gravação
de áudio feita em 21 de setembro de 1969, por ocasião da
festa
dos 15 anos da emissora. Transcrevemos, na íntegra, o texto
lido naquela
data por Geraldo Teixeira:
Alô ouvintes amigos, quem tem o prazer de lhes falar é
Geraldo
Teixeira, o modesto diretor artístico e locutor desta
emissora. Neste 21 de setembro de 1969 recordo-me com
muita satisfação aquele outro 21 de setembro de 1954
quando nos céus de Jequié e da Bahia, graças ao milagre
das ondas hertezianas, foram para o ar as transmissões
da
ZYN – 27, inaugurando-se oficialmente a Rádio Bahiana
de Jequié, então componente da cadeia Rádio Interior de
Alceu N. Fonseca. Naquela época, já trabalhando como
locutor do serviço de alto-falantes A Voz da Cidade,
era
convidado para fazer locução comercial na Rádio Bahiana
de Jequié através do seu incansável fundador Adilson
Almeida. E foi justamente na noite de 21 de setembro
de 1954 que este modesto locutor falou pela primeira
vez
através deste microfone tendo na sonotécnica o
rádiooperador
Virgílio Argolo, atual técnico da emissora. Naquela
noite duas transmissões externas foram realizadas. A
primeira
do palco do Cine Teatro Jequié, a cobertura do show
de inauguração com o cantor Lúcio Alves, e a segunda da
Praça Rui Barbosa, cobertura do comício em favor da
candidatura
Dorival Borges à prefeitura desta cidade que teve
como seu adversário o saudoso prefeito Adhemar Nunes
Vieira. Estas transmissões externas foram comandadas
pelo
locutor Maurício Costa que veio da Rádio Industrial de
Juiz de Fora, também da cadeia Rádio Interior, para as
solenidades de inauguração da ZYN – 27. Fiz a minha
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24 Judson Pereira de Almeida
estréia ao microfone da Bahiana de Jequié naquela noite
memorável funcionando como locutor de cabine. E hoje
são decorridos 15 anos, e continuei sempre ligado à
Rádio
Bahiana de Jequié, embora dela tenha me afastado por
alguns pequenos períodos por questões particulares e de
saúde. E assim assisti de perto e acompanhei o
nascimento
da nossa querida Rádio Bahiana de Jequié, e com ela
vejo
hoje transcorrer os seus 15 anos de bons serviços
prestados
à comunidade jequieense. Nesta oportunidade quero
apresentar o meu muito obrigado a todos aqueles que têm
me tolerado através deste microfone, e fazer preces á
Deus
para que, em futuro próximo, a nossa emissora possa
oferecer
algo de melhor aos seus ouvintes. Parabéns a Rádio
Bahiana de Jequié, e para vocês amigos a minha saudação
e o meu bom dia.
(TEIXEIRA, 1969)12
A rádio teve como seus primeiros diretores Tereza Tosta e
Wilma
Sarmento. Em 1960 quando a emissora foi comprada por
Antônio
Lomanto Júnior assumiram a direção Adauto Cidreira e Cid
Teixeira.
Foram os diretores que por mais tempo permaneceram no
cargo.
1.1 Evolução tecnológica
Convencido por Adilson Almeida da viabilidade de
implantação de uma
emissora de rádio em Jequié, Alceu Nunes da Fonseca
autorizou os técnicos
do grupo Rádiointerior a iniciarem os estudos para a
montagem
dos equipamentos da Rádio Bahiana. Não existem relatos de
como foi
o processo de outorga da concessão para o funcionamento da
emissora.
Para a instalação do transmissor e da antena foi escolhido
um
local próximo ao Rio Jequiezinho, na parte conhecida como
Manga do
Costa, por ser um local úmido, ideal para a instalação de transmissores
em Amplitude Modulada que precisam de um bom sistema de
aterramento.
Na época a Manga
do Costa era desabitada, praticamente fora
do perímetro urbano da cidade, existindo, apenas, um grande
matagal.
O parque de transmissão ficava nas imediações onde hoje
funciona o
12 Áudio disponível em http://www.4shared.com/audio/kIMZ3Wzf/
Geraldo_Teixeira_-_Mensagem_no.html.
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A Rádio Bahiana de Jequié 25
salão de eventos de Marlene Marinho e o Hiper Cardoso,
lugares muito
conhecidos na cidade. Também participou do processo de
instalação
dos equipamentos técnico jequieense Virgílio Argolo, que,
contatado
pela equipe de Alceu Nunes Fonseca, ficou responsável pela
instalação
dos equipamentos de estúdio enquanto que a parte de
transmissão estava
a cargo de um técnico chamado Murilo. Virgílio já era
bastante requisitado
na região para a montagem de amplificadores, rádios de
bateria e
outros equipamentos, além de rádios que operavam em baixa
freqüência,
conhecidos como PX, já que, na época era difícil encontrar
estes
equipamentos no mercado e, quando encontrados, os preços
eram altos.
Assim narra Virgílio Argolo:
Eu me lembro que na secretaria eu montei seis
transmissores,
Secretaria de Segurança Pública quando Lomanto
foi governador. Montei um aqui para Jequié, eu usava
sempre
um 807 porque eles trabalhavam só em telegrafia. Então
era 600 volts por 100 mil amperes, 60 Watts de entrada.
(ARGOLO, 25/03/2011)
Fato interessante destaca Virgílio Argolo. Quando da
inauguração
da Rádio Bahiana de Jequié a cidade já contava com um bom
número de
aparelhos receptores e não houve um aumento significativo
na demanda
por aparelhos por conta da implantação da Rádio Bahiana. A
população
já estava habituada a ouvir rádio, principalmente as
emissoras do sul do
país, e passou a dividir esta audiência com a emissora
recém implantada
em Jequié:
O aumento de receptor, a gente esperava que crescesse
muito, mas não houve este crescimento assim por causa
da
rádio. Era um crescimento normal porque as pessoas
queriam
ouvir aqui e as outras emissoras também. O sucesso
naquele tempo era Record, Marink Veiga, Rádio Nacional,
era quem dominava o mercado. (ARGOLO, 25/03/2011)
O equipamento inicial da Rádio Bahiana de Jequié era
incipiente.
No parque de transmissão foi montado um transmissor de
Ondas Médias
valvulado fabricado pela Sociedade Técnica Paulista, com
potência
de 250 Watts, um quarto de K/Watt (na linguagem comum no
meio
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26 Judson Pereira de Almeida
radiofônico era uma emissora com um quarto de quilo de
potência),
que operava na freqüência de 1250 KHz. Tal configuração era
de uma
emissora de pequeno porte, de potência baixa, autorizada a
funcionar,
apenas, até as 22 horas. Naquele tempo as válvulas
apresentavam defeitos
constantes e tinham vida útil pequena, necessitando de
constante
manutenção. Narra Virgílio Argolo que
A válvula tinha de ter uma manutenção maior porque o
índice de defeito era muito alto, não é como hoje como
um equipamento transistorizado, o transistor não tem
problema
de enfraquecer, ele também dá problema, mas depois
de muito tempo; e a válvula tinha um limite de horas,
de
vida útil.
(ARGOLO, 25/03/2011)
O equipamento de estúdio também era valvulado e de
fabricação da
Sociedade Técnica Paulista, composto por uma mesa de
controle de áudio,
dois toca-discos, uma entrada para gravador e quatro
microfones. O
conjunto do mix de áudio e dos toca-discos era chamado de “consolete”.
Os microfones eram do tipo “jacaré”. “Era um microfone
longo, cheio
de linhas, que parecia um jacaré”. (SANTANA 1, 26/03/2011).
A rádio
tinha, também, um microfone de fita da marca RCA, muito
usado na
época por outras emissoras, considerado de boa tecnologia.
O primeiro
gravador da Rádio Bahiana foi um de fita de rolo. Para a
inauguração
da emissora foi emprestado pelo grupo Rádiointerior um
gravador de
arame, pertencente à Rádio Sul Fluminense. A ligação do
estúdio para
o transmissor era feita por meio de fios, instalados em
postes, da Rua 2
de Julho até a Manga
do Costa. Não havia nenhum tipo de áudio
processador
ou equalizador. O som saia direto da mesa para o
transmissor. O
áudio que chegava aos receptores era grave, com poucas
freqüências de
agudo, característico das baixas freqüências do AM, sem
nenhum tratamento
porque a tecnologia da época assim não o permitia. Era
grande a
dificuldade técnica. Explica Virgílio Argolo que a perda
provocada pela
distância entre o estúdio e o parque de transmissão não era
significativa,
pelo uso de compensadores de linha:
O áudio não perdia porque a gente compensava, tinha
compensação
de linha, principalmente na perda dos agudos.
Mas não adiantava muito porque, se botasse grave demais
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A Rádio Bahiana de Jequié 27
sobremodulava em grave era pior, então tinha de fazer o
meio termo.
(ARGOLO, 25/03/2011)
Instalados em postes, um tanto precários, não raro os fios
que ligavam
o estúdio ao transmissor da Rádio Bahiana se rompiam e a
emissora
saia do ar. Era um veículo que batia num poste ou este caia
por
outro motivo qualquer e lá estavam Virgílio Argolo, Cid
Teixeira e um
auxiliar com uma escada procurando o local onde o fio se
rompeu para
fazer a emenda. “À noite eu cansava de sair com Virgílio
Argolo e Vavá
Eletricista e levantar poste e levantar a “fiarada” para
poder funcionar”
(TEIXEIRA, 12/03/2011). Os transtornos provocados pelo
rompimento
dos fios que levavam o áudio do estúdio para o transmissor
findaram
quando a ligação passou a ser feita pela Companhia
Telefônica de Jequié.
Foi avanço significativo na qualidade técnica. Segundo Cid
Teixeira,
houve também uma melhora no nível de ruído que, de forma
intermitente,
atrapalhava as transmissões da Rádio Bahiana: “Melhorou.
Só tu vendo, tinha aquele rangido terrível e com a mudança
direto pela
Companhia Telefônica melhorou o som e melhorou nosso
trabalho”
(TEIXEIRA, 12/03/2011).
Um sério problema naqueles tempos eram as cheias do Rio
Jequiezinho.
Não raras vezes o parque de transmissões da Rádio Bahiana
esteve
ameaçado pelas águas que, certa feita, chegaram a invadir o
abrigo
do transmissor. Uma canoa ficava posicionada próximo ao
equipamento
para o caso de as águas subirem de forma repentina. Um
funcionário da
rádio que morava no local, “tomava conta” do parque de
transmissão.
Era encarregado de manter técnico e direção da emissora
informados
sobre a situação. Em uma noite foi preciso desmontar todo o
equipamento
e transportá-lo na canoa para um local seguro, porque o
nível da
água subiu muito.
A água quando chegou na porta, no piso do abrigo, como
não podia tirar o transmissor inteiro eu comecei a
tirar
transformador de alta, aquele que estava embaixo pesado
para poder sair. Levamos uns 6 dias fora do ar por
causa
do excesso de água, da inundação (ARGOLO, 25/03/2011).
Em outra ocasião, na década de 1960, a Rádio Bahiana ficou
por
quase quinze dias fora do ar, por conta dos estragos
provocados pela
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28 Judson Pereira de Almeida
cheia do Rio Jequiezinho. “Uma vez ficou quase uns 15 dias,
porque
nós mandamos Geraldo em São Paulo buscar um material para
poder
recuperar a emissora” (TEIXEIRA, 12/03/2011). O problema
das inundações
só foi resolvido quando o parque de transmissões da Rádio
Bahiana foi transferido para o bairro São Judas Tadeu,
local conhecido
com Granja Pindorama. Com a transferência foram feitas
modificações
no projeto de instalação dos equipamentos, já que na Manga
do Costa o
abrigo do transmissor era colado à antena, o que hoje é
proibido. “Depois
que saiu de lá já foi feito dentro do padrão moderno”
(ARGOLO,
25/03/2011).
A Rádio Bahiana operou com o transmissor da Sociedade
Técnica
Paulista por cerca de vinte anos. Já na Granja Pindorama,
na década
de 1970, o parque de transmissões ganhou um transmissor
moderno,
de 1 K/Watt (um quilo de potência) e ampliou o alcance da
emissora.
A Rádio Bahiana deixava de ser uma emissora local e assumia
o posto
de emissora regional. Para esta ampliação foi necessário,
também, mudança
na frequência e no prefixo da rádio. A ZYN-27 passou a ser
ZYH
472, e deixou de operar em 1250 CPS13 passando para 1460
KHz14.
Mudanças, segundo Virgílio Argolo, necessárias para o
aumento da
potência:
Pra você aumentar a potência tem que mudar de
frequência.
Essa freqüência 1250 tinha uma aqui, outra em
Alagoinhas,
e tinha várias no Brasil. Parece que eram 11 ou
12 emissoras na mesma freqüência. Então teve de mudar
13Ciclos por segundo.
14O hertz (símbolo Hz) é a unidade de frequência derivada do SI para frequência,
a qual é expressa em termos de ciclos por segundo a
frequência de um evento
periódico, oscilações (vibrações) ou rotações por segundo
(s-1 ou 1/s). Um de seus
principais usos é descrever ondas senoidais, como as de
rádio ou sonoras. O hertz
é nomeado em homenagem ao físico alemão Heinrich Hertz, que
fez grandes contribuições
científicas importantes ao eletromagnetismo. O nome da
unidade foi estabelecido
na Comissão Eletrotécnica Internacional (International Electrotechnical
Commission) em
1930 e foi adotado na Conferencia Geral de Pesos e Medidas (Conférence
générale des poids et mesures) em 1960. Substituindo assim
o nome ‘ciclos
por segundo’ (CPS), juntamente com seus múltiplos,
quilocilos por segundo
(kc/s), megaciclos por segundo (Mc/s) e assim por diante. O
termo ciclos por segundo
foi amplamente substituído por hertz apenas na década de
1970. Fonte:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Khz. Acesso 01/05/2011.
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A Rádio Bahiana de Jequié 29
de freqüência para aumentar a potência, já passou a ser
uma potência regional (ARGOLO, 25/03/2011).
A mesa de controle de áudio era muito simples. Por exemplo,
a escuta,
sistema de amplificação interno que possibilita ao operador
colocar
o disco no ponto para que a mixagem seja feita de forma
correta, não
existia. O jeito era encostar o ouvido o mais próximo
possível da agulha
do toca-discos. Não era possível, também, testar o áudio
das transmissões
externas antes de ir para o ar, pelo mesmo motivo, não
existia
sistema de escuta na mesa de som. As inserções comerciais
gravadas
vinham das agências em discos de vinil, sendo que, todos os
comerciais
locais eram lidos ao vivo pelos locutores.
Tempos difíceis para os rádiooperadores. Operar os controles
de
som sem que nenhum erro fosse cometido era uma arte.
Necessitava de
criatividade e muita atenção. A força da mensagem
transmitida ao ouvinte
não dependia só do locutor que interpretava textos ao
microfone,
mas também do rádiooperador, que, com a mixagem perfeita,
combinava
voz do locutor com os sons extraídos dos discos de vinil.
A mistura de tudo isso dentro de um estúdio, onde não
se vê
ninguém,mas você sabe que o estão ouvindo, provoca uma
outra coisa, chamada emoção. Uma sensação difícil de
explicar mas fácil de entender, quando parte de uma
coisa
chamada rádio (CÉSAR,
1996. p.12).
O estúdio aos poucos foi sendo modernizado. A “consolete”
da Sociedade
Técnica Paulista foi substituída por outros equipamentos
mais
avançados. A nova mesa de áudio com sistema de escuta
facilitou deveras
o trabalho dos operadores. Toca-discos mais modernos foram
adquiridos, e novos microfones deram mais qualidade às
vozes da Bahiana
de Jequié: “Naquela época a rádio pertencia a Lomanto, e
ele
viajou até Los Angeles e trouxe aqueles microfones Shure
para fazer
transmissões externas” (SANTANA 1, 26/03/2011). Gravadores
com
fitas de rolo também ajudaram a modernizar a parte técnica
da rádio:
“(...) gravador grande de rolo da Phillips, depois veio o
da Sony e
outros que apareceram por aí” (SANTANA 1, 26/03/2011). Os
tapedecks,
aparelhos que rodavam as fitas K7 também foram adquiridos.
Os comerciais, antes lidos ao vivo, passaram a ser gravados
e veiculados
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30 Judson Pereira de Almeida
em cartucheiras, equipamentos com boa qualidade de áudio e
de fácil
manuseio. Mesmo com os novos recursos, segundo Ari Santana,
existia
uma resistência por parte do diretor da emissora em fazer o
noticiário
gravado. Só depois de algum tempo Cid Teixeira se deu por
vencido e
permitiu que algumas edições do noticiário fossem gravadas.
Nos primeiros anos as transmissões externas da Rádio
Bahiana eram
feitas por meio de redes de fios instaladas em alguns
pontos da cidade.
A Bahiana não possuía links em rádio frequência ou outro
equipamento
que permitisse a transmissão de qualquer local sem o uso de
fios. Foram
colocados pontos de transmissão no Cinema Jequié (de onde
foi transmitido
o show de inauguração da emissora e onde era realizado o
Festival
dos Brotos), no Jequié Tênis Clube, no Fórum (que
funcionava
num imóvel na rua Jerônimo Sodré, em frente ao Jequié Tênis
Clube),
na Câmara de Vereadores (localizada na Rua 2 de Julho,
vizinho à
emissora), da Praça Rui Barbosa (vizinha à emissora) e do
campo do
Aníbal Brito, no bairro Jequiezinho (local mais distante de
onde se
faziam transmissões esportivas no perímetro urbano). Só
depois de
firmada parceria com a Companhia Telefônica de Jequié foi
possível
transmitir de outros pontos da cidade sem maiores
dificuldades, através
de uma linha TX (transmissão). Para ligar os microfones os
locutores
utilizavam um equipamento chamado “maleta”, uma espécie de
amplificador
que poderia funcionar à bateria ou a energia elétrica,
apropriado
para transmissões externas. Transmitir ao vivo de outras
cidades da
região era uma aventura. Evandro Lopes, comentarista
esportivo da Rádio
Bahiana, narra a dificuldade para fazer uma transmissão
esportiva
de outra cidade por meio de linha telefônica. Conta o
veterano radialista
que não havia como saber se a transmissão realmente estava
no ar.
Marcava-se um horário, o rádioopetador abria o canal da
linha e o trabalho
começava. Se ocorresse algum problema durante a transmissão
a
equipe esportiva não tinha como saber, continuava o
trabalho até o fim,
mesmo não estando no ar:
Me lembro bem da primeira transmissão que eu fiz fora,
foi em Valença. Primeiro jogo de Jequié em 1967 contra
Valença. Você chega lá na cidade vai lá na telefônica e
pede uma reserva de uma linha aí liga pra cá ,aí Cid
pede
a reserva daqui aí você faz um interurbano. A gente
marcava
um horário. Não tinha retorno. Marcava o horário
www.labcom.ubi.pt
A Rádio Bahiana de Jequié 31
e naquele horário contava 1, 2,3,4,5 e entrava no ar (LOPES,
13/03/2011).
Transmissões externas de cidades mais próximas foram feitas
com
mais segurança e qualidade técnica depois que a emissora
foi adquirida
pelo então governador da Bahia, o jequieense Antônio
Lomanto Júnior.
Competições esportivas e outros eventos regionais passaram
a ser transmitidos
por meio de um sistema de RF, um link de frequência baixa
em
Amplitude Modulada, de propriedade particular do
governador, conforme
assevera Virgílio Argolo:
Na época que Lomanto foi governador eu era rádio
amador,
eu usava o transmissor de Lomanto, um Delta. A gente
transmitia tudo em 80 metros pra cá, então transmitia
dessas
cidades aqui por perto pelo rádio amador, PX mesmo.
Nós transmitíamos de Ipiaú, Maracás, aqui por perto.
Itabuna,
Ilhéus, fazíamos a transmissão direto em AM, modulação
em amplitude (ARGOLO,
25/03/2011)
No início da década de 1990 a sonotécnica da Bahiana contou
com
um computador dispondo de software de poucos
recursos para a veiculação
de vinhetas e comerciais. Muitos equipamentos foram
utilizados
na Rádio Bahiana de Jequié, sendo que, os acima elencados,
foram lembrados
pelas fontes, citados a título exemplificativo.
Além de Virgílio Argolo também trabalhou por alguns anos
como
técnico na Rádio Bahiana de Jequié Juvenal Moura Pinheiro,
como lembra
Ari Santana: “a gente chamava ele de cientista louco porque
ele é
um técnico fora de série” (SANTANA 1, 26/03/2011).
1.2 O radioteatro, os programas de auditório
De 1954 até a segunda metade da década de 1960 a Rádio
Bahiana de
Jequié levou ao ar várias radionovelas, gravadas em fitas
de rolo na Rádio
Sul Fluminense, também pertencente ao grupo Rádiointerior,
de Alceu
Nunes da Fonseca e enviadas para a Rádio Bahiana. As
telenovelas
engatinhavam no Brasil e o rádio ainda era o veículo por
meio do qual,
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32 Judson Pereira de Almeida
diariamente, as pessoas acompanhavam as histórias e os
dramas levados
ao ar por meio dos folhetins15. Na Bahiana de Jequié o
horário das
rádionovelas era às nove e meia da manhã, antes do programa
Músicas
e Informações, sobre
o qual falaremos em capítulo próprio.
Nenhuma radionovela foi produzida em Jequié, mas locutores
e
redatores da Rádio Bahiana chegaram a criar peças para o
rádioteatro.
Ao contrário das radionovelas que eram gravadas e editadas
pelo grupo
Rádiointerior, o radioteatro da Bahiana era ao vivo, ora
apresentado direto
do estúdio da emissora, ora em eventos sociais. Os textos
eram
em forma de script,16 os fundos musicais retirados de LPs e
os efeitos
sonoros improvisados pelos próprios locutores/atores.
Segundo Ari
Santana:
Tinha um programa de terror. Interessante que, na
abertura
tinha de ter uma porta rangendo, depois os passos e o
tiro. Aí Miriam Torres que era nossa colega naquela
época,
irmã de Érico Torres... eu entrava dando os passos, abria
a porta, fazia o rangido, parava e... Pááá, dava o tiro
e eu
fazia hahahahahah, eu dava aquela risada (SANTANA 1,
26/03/2011).
Todo esforço era feito com elementos verbais e não verbais
para que
o ouvinte fosse levado a criar um cenário imaginário no qual
a história
narrada se desenvolvia.
(...) a linguagem radiofônica é o conjunto de formas
sonoras
e não sonoras representadas pelos sistemas expressivos
da palavra, da música, dos efeitos sonoros e do
silêncio,
cuja significação vem determinada pelo conjunto dos
recursos
técnicos/expressivos da reprodução sonora e o conjunto
de fatores que caracterizam o processo de percepção
sonora e imaginativo-visual dos ouvintes (BALSEBRE,
apud MEDITSCH, 2005. P. 329).
15Áudio Disponível em http://www.4shared.com/audio/hzMckGn6/
Radionovela_-_Veiculada_pela_R.html.
16Áudio disponível em http://www.4shared.com/audio/OQtc9D9w/
Radio_Teatro_-_Rdio_Bahiana_de.html.
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A Rádio Bahiana de Jequié 33
Os programas de auditório marcaram época na ZYN – 27.
Alguns
de duração efêmera. Direto de um pequeno auditório da Casa
Paroquial
O Tabuleiro da Bahiana foi um espaço para grupos de jovens que
cantavam e tocavam influenciados por Elvis Presley e Bill
Haley & His
Comets (Bill Haley e Seus Cometas),17 a exemplo da banda
cover Ari
Santana e Seus Cometas. O programa Valores
da Terra era espaço para
a apresentação de artistas regionais. O jornalista Fernando
Barreto e o
radialista Ulisses Factum comandaram um programa que não
pode ser
considerado de auditório, mas contava com a participação do
público;
era apresentado da cabine da Bahiana de Jequié. Eu Acuso era uma
espécie
de júri no rádio, ao vivo: “Havia a participação de
promotores,
advogados, todo mundo participava, o ouvinte etc. Discutiam
um caso
daqui da região. O ouvinte participava condenando ou
absolvendo”
(SANTANA 1, 26/03/2011).
O programa de auditório de maior duração e repercussão
promovido
e apresentado pelo elenco da Rádio Bahiana foi o Festival dos Brotos.
A rádio não possuía auditório próprio e o programa era
realizado no
Cine Teatro Jequié, com capacidade de abrigar mil e
duzentas pessoas
sentadas. Era compromisso certo nas manhãs de domingo para
jovens
ávidos por entretenimento e artistas locais em busca de
sucesso. Animado
por Geraldo Teixeira, locutor de grande popularidade, e
transmitido
ao vivo pela Bahiana de Jequié, o Festival dos Brotos revelou talentos,
como a cantora Kátia Morbeck, Zamurinha e os conjuntos Capítulo
Quinto e o Bossa Seis. Sobre
este último, lembra o músico e radialista
Aroldo Vieira: “Éramos eu, Cleber de Fanor (Cléber
Ferreira), Tizo, Jocely,
Melquíades e João Faustino, a gente tocava no Festival dos
Brotos
17Bill Haley &
His Comets foi uma banda de rock and roll que teve
início nos anos
1950 e que continuou até a morte de Haley em 1981. Esta
banda, também conhecida
pelos nomes Bill
Haley and The Comets e Bill Haley’s Comets,
foi um dos primeiros
grupos de músicos brancos a levar o rock às grandes
platéias norte-americanas e ao redor
do mundo. Seu líder, Bill Haley, era um músico de country;
depois de gravar uma
versão country de "Rocket 88", uma cancão de
R&B considerada o primeiro Rock and
Roll gravado, ele mudou seu estilo para um novo som chamado
rockabilly. Embora diversos
integrantes do Comets tenham ficado famosos, foi Bill Haley
quem permaneceu
como o astro. Com sua postura energética ao palco, muitos
fãs consideram-nos tão
revolucionários para sua época quanto os Beatles e os
Rolling Stones foram para as
suas. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Bill_Haley_%26_His_
Comets
Acesso 15/04/2010.
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34 Judson Pereira de Almeida
todo domingo de manhã. Antes a gente ensaiava e domingo
tocava lá.
Era muito bom” (VIEIRA, 13/03/2011). Alguns músicos que se
apresentaram
no Festival
dos Brotos seguiram carreira profissional. Aroldo
Vieira, por exemplo, deixou a bateria do Bossa Seis para
assumir o vocal
do Embalo 4, de Gatinha, banda que marcou época em Jequié realizando
bailes memoráveis não só na Cidade Sol, como
em várias partes
da Bahia e do Brasil.
No Festival
dos Brotos dezenas de calouros concorriam a
prêmios
e corriam o risco de serem gongados, assim como nos
programas de
Abelardo Barbosa, o Chacrinha. Dezenas de brindes eram
sorteados
todos os domingos, oferecidos por empresas do comércio de
Jequié
que viam no programa uma oportunidade para tornarem seus
produtos
mais conhecidos entre os jovens. “A gente saia arrecadando
brindes
no comércio, o comércio fazia valer, dava os brindes e o
cinema superlotava”
(TEIXEIRA, 12/03/2011).
O locutor e apresentador do Festival dos Brotos, Geraldo Teixeira,
tornou-se um empresário de shows em Jequié. Muitos artistas
se apresentaram
na cidade empresariados por Geraldo. Quase todos os shows
promovidos por ele foram transmitidos pela Rádio Bahiana.
Quando
não havia transmissão, o artista era entrevistado na emissora.
Lembra
Ari Santana que “se apresentaram no Cine Jequié Nelson
Gonçalves,
Orlando Dias, Roberto Carlos, Emilinha Borba, Nelson Ned,
Agnaldo
Timóteo, Ângela Maria, Waldick Soriano, muita gente famosa
daquela
época” (SANTANA 1, 26/03/2011). Um dos artistas de maior
prestígio
e que fez várias apresentações em Jequié foi Cauby Peixoto.
Em
visita à Cidade
Sol, depois de uma turnê pelos Estados
Unidos, Cauby
se apresentou no Jequié Tênis Clube. Quem não esteve na
platéia pôde
acompanhar o show em casa, pelas ondas da Rádio Bahiana.
Cauby Peixoto mesmo, eu me lembro que a primeira
apresentação
dele, logo que ele chegou dos Estados Unidos
foi no Jequié Tênis Clube. A Rádio Bahiana
retransmitiu,
mas foi uma festa patrocinada pelo clube (ARGOLO,
25/03/2011).
Voltemos ao Festival
dos Brotos. O programa de auditório de maior
sucesso da Bahiana de Jequié teve a sua última edição no
final da década
de 1960, em um domingo, coincidentemente um 21 de setembro,
www.labcom.ubi.pt
A Rádio Bahiana de Jequié 35
aniversário da Rádio Bahiana, por causa de um
desentendimento entre
o diretor da rádio e o proprietário do Cine Jequié. Segundo
conta Cid
Teixeira o valor arrecadado com a bilheteria do programa
pertencia à
Rádio Bahiana.
Seo Altamirando, vendo o cinema cheio no dia do aniversário
da rádio, dia 21 de setembro, ele chegou e disse: olha
Cid meio dia eu vou desligar a luz. Aí eu perguntei:
por que
rapaz? Eu vou desligar porque tem matinê. Eu disse: se
você vai desligar pode desligar. Eu pensei: isso vai
ficar
ruim né? Aí eu disse: quanto é que você quer? Aí ele
pediu
“X”, eu disse: tá bem eu lhe pago. Aí eu acabei com o
programa (TEIXEIRA,
12/03/2011).
O fim do Festival
dos Brotos foi decidido de forma repentina, num
dia de comemorações, com o cinema lotado, como sempre
estivera
desde a primeira edição. Ficou na lembrança de artistas e
pessoas
que freqüentaram o auditório comandado por Geraldo Teixeira
naquelas
jovens manhãs de domingo. “Era um programa que tinha para a
época
uma conotação extraordinária” (LOPES, 13/03/2011).
Em 1989 Jequié reviveria, por um curto período, as emoções
de um
programa de auditório promovido por uma emissora de rádio.
Naquele
ano foi inaugurada a Estação 93 FM, tendo como proprietários
o empresário
Manoel Guedes18 e o então deputado federal Leur Lomanto.
O diretor de programação era Gilmar Azevedo e o locutor
mais popular
Tony Silva, um pernambucano com grande experiência no rádio
e que se
tornou uma estrela nos primeiros anos da Estação 93 FM.
Gilmar criou
o Show de
Prêmios19, um programa de auditório nos
mesmos moldes
do Festival dos Brotos, realizado nas manhãs de domingo no Cine Auditorium,
um antigo cinema que foi transformado em casa de eventos.
No Show de
Prêmios eram realizadas gincanas entre alunos
de escolas,
apresentação de calouros, sorteio de brindes e shows de
bandas locais.
18Cerca de um ano depois de inaugurada a Estação 93 FM,
Manoel Guedes vendeu
as ações da emissora para o então vereador e empresário
Euclides Fernandes.
19Segundo Gilmar Azevedo o principal objetivo do Show de
Prêmios “(...) foi popularizar
a rádio torná-la bem próxima do povão, aí sim tomar uma
fatia do público
da Bahiana” (AZEVEDO, 02/06/2011)
www.labcom.ubi.pt
36 Judson Pereira de Almeida
O público vibrava com a apresentação de Tony Silva, as
bandas, as competições,
os brindes e as dançarinas que davam mais colorido ao show.
No programa de estréia Geraldo Teixeira, apresentador do Festival dos
Brotos, foi
homenageado com a entrega de uma placa. Emocionado
agradeceu à direção do programa e ao público. “Convidado
para fazer
parte do júri do programa, os olhos de Geraldo brilhavam,
ao reviver os
velhos tempos, os velhos tempos dos programas de auditório
da Bahiana
de Jequié” (SILVA, 14/04/2011). O Cine Jequié, palco de
grandes acontecimentos
para cidade e do lendário Festival dos Brotos foi fechado na
década de 1990. Atualmente funciona no prédio do antigo
cinema uma
loja de tecidos e confecções.
1.3 Influência na vida social
A Rádio Bahiana de Jequié foi implantada em um período em
que não
existia telefonia móvel celular e o número de aparelhos
fixos era reduzido.
A Empresa Telefônica de Jequié foi inaugurada em 1920 e, em
1954, ainda dispunha de poucas linhas, instaladas
geralmente nas casas
de pessoas de maior poder aquisitivo. A Rádio Bahiana de
Jequié encurtou
distâncias impostas pelas dificuldades de comunicação,
feita boca a
boca, por meio das pouquíssimas linhas telefônicas
disponíveis e de cartas,
que muito demoravam a chegar ao destino devido às condições
ruins
das estradas. A emissora de rádio passou a integrar
comunidades que,
pertencentes ao mesmo município viviam distantes. Sobre
este aspecto
é oportuna a lição de Marshall McLuhan:
Platão, cujas idéias tribais de estrutura política
estavam
bem fora de moda, dizia que o tamanho certo de uma
cidade
era indicado pelo número de pessoas ao alcance da voz
de um orador. Até o livro impresso, para não falar do
rádio,
torna bem irrelevantes, para efeitos práticos, as
pressuposições
políticas de Platão. Mas o rádio, dada a sua
facilidade de relações íntimas e descentralizadas,
tanto ao
nível pessoal como ao de pequenas comunidades, poderia
facilmente realizar o sonho político de Platão numa
escala
mundial (McLUHAN,
2001, p. 345).
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A Rádio Bahiana de Jequié 37
A Bahiana de Jequié passou, então, a transmitir
acontecimentos
políticos e sociais, eventos religiosos, esportes,
factuais, demandas da
comunidade etc. Tudo que era dito aos microfones da
emissora alcançava
grande repercussão. Para Evandro Lopes a Rádio Bahiana “(...)
era um paradigma dessa cidade, era uma comunicadora de tudo
quanto
esta cidade tinha” (LOPES, 13/03/2011). Para se ter uma
idéia do prestígio
e da credibilidade da Rádio Bahiana cabe relatar um
acontecimento,
segundo Emerson Pinto de Araújo, ocorrido no final da
década de 1950.
O então tenente Etiene Falcão comandava o policiamento
militar ostensivo
em Jequié. O oficial perpetrou uma série de arbitrariedades
contra
cidadãos chegando ao ponto de proibir as pessoas de
cruzarem as pernas
no cinema. Mas o ápice das arbitrariedades foi quando a
dupla “Cosme
e Damião” (policiais que faziam o policiamento sempre
juntos), sob o
comando de Etiene, invadiu os estúdios da Rádio Bahiana, no
momento
em que era veiculada uma gravação contendo denúncias
deWashington
Navarro Pinto contra desmandos, arbitrariedades e violências
cometidas
pelo citado oficial. O tenente desligou o equipamento do
estúdio,
conforme narra Ari Santana: “ele perguntou: onde é que
desliga isso?
Eu respondi: não sei não senhor. Aí perguntou a Jota
Narcíso: onde é
que desliga? Narcíso disse: é ali. Ele foi lá e desligou”
(SANTANA 1,
26/03/2011). A invasão da Rádio Bahiana provocou a revolta
da comunidade,
que já estava cansada dos desmandos de Etiene.
Imediatamente, as forças vivas da comunidade reforçaram
os telegramas expedidos às autoridades federais e
estaduais
reclamando providências, o que culminou com a
destituição
do tenente arbitrário, chamado de volta à capital do
estado (ARAÚJO,
1997, p. 383).
Apesar dos baixos salários os profissionais da emissora,
principalmente
os locutores, faziam muito sucesso, gozavam de prestígio na
sociedade
jequieense. Eram como artistas, estrelas da comunicação
local:
“Galã de novela é o termo” (SARDINHA, 11/03/2011). Eram
admirados
e tietados por fãs de várias idades. “O status de
radialista naquela
época era muito importante. A gente era um reizinho, todo
mundo
queria conhecer” (MENDES, 12/03/2011). Muitos comunicadores
passaram
a fazer parte de entidades de importância e prestígio na
sociedade
como Lions Clube, Rotary Clube e Maçonaria.
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38 Judson Pereira de Almeida
Aproveitando a grande força da Bahiana AM alguns locutores
ingressaram
na política e, em um primeiro momento, tiveram êxito. Roque
Oliveira e Geraldo Teixeira foram eleitos vereadores com
expressiva
votação, o mesmo não ocorrendo na tentativa de se
reelegerem.
Anos mais tarde, em 1992, outros radialistas também
tentaram chegar
à câmara de vereadores. Toni Silva, Aloísio Rocha e Roque Legal
aproveitavam a popularidade da Estação 93 FM, inaugurada em
1989, e
se lançaram candidatos. Nenhum dos três conseguiu vaga no
legislativo
municipal. O locutor José Lima, que adotou o nome artístico
de Mister
Boy trabalhava na 93 FM de Jequié, mas candidatou-se a
vereador em
Ubatã – Bahia, confiando na popularidade adquirida por meio
da Ubatã
FM, onde atuou por vários anos com o pseudônimo de Jota
Camafeu,
também não obtendo sucesso nas urnas.
1.3.1 Integração da cidade com a zona rural: A Hora do Fazendeiro
Na década de 1960 surgiu um programa que foi de grande
audiência
da Rádio Bahiana de Jequié. A Hora do Fazendeiro, levado ao ar de
segunda à sexta-feira das 13h00 às 14h00, fazia a
integração entre o
campo e a cidade. O programa enviava mensagens para quem
morava
na roça e vice-versa. O rádio funcionava como elo entre o
urbano e
o rural. Encurtou a distância entre localidades onde,
antes, notícias e
recados demoravam a chegar.
As pessoas levavam até a sede da emissora, notas com
recados do
tipo: “atenção Maria na Fazenda Jabuti, João avisa que
chega hoje à
tarde com as crianças”. Tudo era passado a limpo e lido
pelo locutor,
que intercalava blocos de notas com músicas rurais
(sertanejas).
Nos primeiros anos da Rádio Bahiana de Jequié o programa
levado
ao ar das 13h00 às 13h30 era o Informação Agrícola. Gravado da Rádio
Sul Fluminense do Rio de Janeiro, também pertencente ao
grupo
Rádiointerior. Era dividido em: meu mundo é minha horta, conversa
com o agricultor etc.
No horário o locutor da Rádio Bahiana, informava
apenas a hora certa, o restante do conteúdo era gravado.
Conta
Ari Santana que, certa feita, nos idos de 1969 um
fazendeiro o procurou
na emissora e disse:
Moço, a gente ouve este programa lá na região e eu quewww.
labcom.ubi.pt
A Rádio Bahiana de Jequié 39
ria pedir um favor ao senhor. O senhor pode ler uma
nota
aí avisando pra lá que o gado chegou, já está aqui e
vai
chegar lá tal hora? Eu disse: pois não meu senhor (SANTANA
1, 26/03/2011).
Nos dias que se seguiram várias pessoas levaram notas para
serem
divulgadas no Informação
Agrícola. O volume de recados foi crescendo
e o locutor do horário incentivou a direção da emissora a
não mais veicular
o conteúdo gravado, mudando o nome do programa para A Hora
do Fazendeiro, com
uma hora de duração, das 13 às 14h00. “Chegou a
um ponto que a Hora do Fazendeiro atendia por dia 280 a 300
notas. Era
a comunicação com o homem do campo” (SANTANA 1,
26/03/2011).
O locutor tocava uma sineta dentro da própria cabine como
uma espécie
de sinal sonoro entre um recado e outro. Por mais de trinta
anos
o programa foi um sucesso estrondoso. Segundo Cid Teixeira “tinha
fazendeiro que botava funcionário à disposição na fazenda
para ouvir
os recados” (TEIXEIRA, 12/03/2011). A grande audiência de A Hora
do Fazendeiro comprovava
a eficácia do programa em sua proposta de
fazer a ligação entre o campo e a cidade e da Rádio Bahiana
como
veículo de comunicação de massa.
Em períodos de festas a equipe do programa recebia muitos
presentes
vindos da zona rural. As pessoas expressavam gratidão e ao
mesmo tempo amizade pela prestação do serviço. Vários
produtos do
campo chegavam á rádio: banana, laranja, melancia, batata,
jaca, inhame,
galinhas, leite etc. a maioria endereçada ao apresentador
Ari
Santana, que dividia com os colegas.
Outros locutores também apresentaram o programa, a exemplo
de
Mascarenhas Filho, Geraldo Teixeira, Silva Lopes e Edísio
Santana,
mas o grande sucesso do programa foi mesmo com Ari Santana:
“Interessante,
esse programa informativo, apesar das tentativas, nunca deu
certo com outro apresentador” (NOVAES JÚNIOR, 2006. p. 48),
o que
demonstrava a força pessoal e a credibilidade do
comunicador. Até o
ano de 2007 A
Hora do Fazendeiro foi apresentado na
Rádio Bahiana,
sendo extinto quando o pastor Josué Augusto vendeu a
emissora para o
grupo Pazzi, como se verá no último capítulo deste
trabalho.
Por fim, cabe atenção para uma questão curiosa. Os
programas rurais,
dedicados exclusivamente ao homem do campo, geralmente são
levados ao ar em emissoras de rádio no horário matutino.
Esta é uma
www.labcom.ubi.pt
40 Judson Pereira de Almeida
idéia tão fixa que foi encomendada uma vinheta cantada com
o nome
do programa e os músicos do estúdio colocaram, depois das
vozes, o
canto de um galo. Nada mais impróprio para um programa
levado ao
ar depois do almoço.20 A Hora do Fazendeiro teve a peculiaridade de
ser apresentado num horário sem tradição de programa rural,
mas com
absoluto sucesso e audiência.
1.3.2 A crônica social: o Bom Dia de Luiz
Cotrim
“Neste horário passamos a apresentar o nosso Bom Dia, uma
crônica
escrita pelo professor Luiz Cotrim e levada ao seu receptor
diariamente
neste horário”. Esta era a abertura de um dos quadros de
grande sucesso
da Rádio Bahiana, o Bom
Dia de Luiz Cotrim. Levado ao ar
diariamente
às 06:55, a crônica falava da vida social de Jequié.
Boêmio,
Luiz Cotrim freqüentava festas, bailes, aniversários,
casamentos, missas,
cultos, eventos, o reduto da alta sociedade. Tudo era
narrado nas
crônicas, sempre finalizadas com uma rosa vermelha à mulher
homenageada
naquele dia. Com linguagem poética e sempre galanteador, o
Bom Dia de
Cotrim foi, sem dúvida, um dos mais marcantes quadros do
rádio jequieense. O Poeta
Dourado, como é carinhosamente chamado,
não falava de questões políticas polêmicas, narrava apenas
fatos sociais.
“Tem participação ativa na vida mundana e cultural da
cidade, sendo um
dos baluartes pela fundação da Academia de Letras de
Jequié, em 1997”
(RIOS, 1997. p. 128). Quem deu vida e voz às crônicas de
Cotrim foi o
locutor Ari Santana que também apresentou, ao lado de Gélia
Ferreira, o
programa Hoje
é Domingo, também escrito por Luiz Cotrim. A
crônica
de Cotrim constituía-se em algo a ser guardado como
recordação por
aqueles que eram citados pelo poeta. “O pessoal ia em minha
casa com
a cópia da crônica para eu gravar para deixar em casa, para
ter guardado
aquilo ali” (SANTANA 1,26/03/2011)21. Depois de mais de
trinta anos
20Vinheta disponível em http://www.4shared.com/audio/cZkfTi9c/
Vinheta_-_Hora_do_Fazendeiro.html.
21Transcrição de uma crônica de Luiz Cotrim levada ao ar na
primavera de 1976.
Dona Edna Silva Cruz parabéns pelo aniversário do
esposo Antônio Souza
Almeida. Estando o lar em festa e o aniversariante
recebendo cumprimentos. O
casal feliz neste encontro. Olhe Edna, Roberto Carlos
vem cantar na festa do seu lar.
Antônio Souza Almeida, parabéns e tudo de bom.
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A Rádio Bahiana de Jequié 41
na Rádio Bahiana o Bom
Dia de Luiz Cotrim passou a ser
apresentado
na 95 FM, no mesmo horário, às 06h55.
Luiz Neves Cotrim é natural de Caetité – Bahia, nascido no
dia 20 de
outubro de 1919. Ainda jovem mudou-se para Jequié onde
construiu sua
vida. Professor de Língua Portuguesa por várias gerações no
Instituto
Leda Fonseca Teixeira. Noiva e amanhã uma promoção no
cenário encantado da
juventude, o chá de cozinha. Uma festa de amor, e
somente festa de juventude, porque
somente quem é jovem para se ancorar com alegria num
chá de cozinha o riso de
cristal de Leda. A noiva tão bonita, ela e o bem amado
Pedro Alves Lima. Anfitriões
nesta festa Nair e Juvenal, meus amigos e, sobretudo,
gente como Marinélia na envolvência.
Ela tão minha amiga e a amizade foi buscar tanta gente
hoje cara ao meu
coração. Judite e Alfredo com os filhos Lindi, Lídia e
Elizeu, com Dene, Liu, Nanai e
eu nem pensei nunca como eu iria dever tanto a Mari. A
amizade destas pessoas hoje
tão profundamente ligadas a mim por laços de tanta
amizade. Sim, o chá de cozinha
com o convidado Roberto Carlos cantando e encantando a
noite tão jovem de Júnior
e com apenas um traço de luar no céu.
Na biblioteca do IERP onde tenho ido invariavelmente à
noite num intervalo qualquer
para rever Humberto de Campos converso com Dina, a
bibliotecária do horário.
Muito amável esposa do professor Raimundo. E falo do
aniversário do filho Vagner
Meira Fernandes da Costa, doze anos, estudante e bom de
bola. De sorte que os pais,
com Júnior, cantam a canção de parabéns. A comemoração
é amanhã, dia cinco, com
os colegas reunidos no encontro de crianças e
adolescentes. Dina na biblioteca do
IERP é um convite à leitura mesmo nos curtos momentos.
Sua cortesia, seu silêncio,
sua bondade. Livro quer e requer carinho, aconchego. E
é uma pena quando vejo
um livro estragado, maltratado por mãos tão longe de
poder acariciá-lo. Parabéns
Vagner, pelo aniversário amanhã. Numa noite de festa no
cenário da família com
os pais sendo anfitriões. Festa do primeiro aninho de
Geraldo Júnior, filho de meus
amigos Geraldo e a professora Marilene. O nome do pai,
que se alonga no cenário
da casa. Geraldo é um dos comandantes da venda de
automóveis na Jordan Ford e
Peças, onde outro Geraldo tem os seus domínios. Geraldo
Magela Andrade. Meus
amigos Marlene e Geraldo, parabéns pelo primeiro aninho
do filhinho. E vocês e ele,
ouçam Roberto Carlos cantar. Nada melhor para que a
manhã abra as cortinas do
dia e possa a noite vir encontrar o lar em festa.
Geraldo sabe comandar, também, as
noites de festa na ACJ. Geraldo Júnior, no enlevo do
carinho dos pais e dos amigos e
motivo para uma braminha e frios e as crianças com
doces. Parabéns.
Aniversário de Maria Lúcia, muito bonita neste encontro
com a primavera. Mais
um ano de vida, um marco no tempo. Eleodora e Eunice, o
namorado e Lourival.
Ainda outros nomes circulando. As colegas do básico no
IERP. O locutor vai
deixar o disco rodar. É assim, como uma homenagem aos
aniversariantes e a quem
amanhã viverá a bela noite do chá de cozinha. Leda
minha amiga, você é noiva e
bonita. Com uma rosa e o fundo musical, e um bom dia
para você (COTRIM, LUIZ.
1976). Áudio disponível em http://www.4shared.com/account/audio/
o1p3HP6p/O_Bom_Dia_de_Luiz_Cotrin_-_197.html.
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42 Judson Pereira de Almeida
de Educação Régis Pacheco (IERP). É um dos membros
fundadores da
Academia de Letras de Jequié, titular da cadeira no01 que
tem como
patrono Lindolfo Rocha. Luiz Cotrim falou de Jequié em suas
crônicas
e poesias22 com paixão. É um símbolo vivo da Cidade Sol.
22Bibliografia: Seleção De Prosas e Versos (1982), Jequié,
Poesia e Prosa (Sec.
Cultura, Lazer e Esporte, 1992), A Poesia de Luiz Cotrim no
Centenário de Jequié
(Editora P&A, 1997). Fonte: www.alj.com.br.
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A Rádio Bahiana de Jequié 43
2 O radiojornalismo
Muitos programas jornalísticos foram criados e apresentados
em horários
diferentes na Rádio Bahiana. De hora em hora, nos primeiros
tempos,
o Correspondente
N-2723 levava aos ouvintes as últimas
notícias.
Depois, no início da década de 1970, o noticiário passou a
ser chamado
de Plantão
Informativo. O Repórter Esclarece, apresentado das 18h15
às 19h00 por Gildélito Ferraz, era um noticiário local com
participações
de repórteres ao vivo de pontos da cidade. Depois que a
emissora ampliou
a potência e obteve autorização para funcionar até a
meia-noite foi
criado O
Grande Jornal Falado, das 22h00 à
meia-noite, com as principais
notícias do dia. O
Jornal da Manhã foi levado ao ar das 07h00 às
08h00. Não havia uma divisão muito nítida entre repórteres
e locutores.
Muitos profissionais que trabalhavam na cabine da Rádio
Bahiana também
faziam reportagens.
As notícias regionais eram obtidas por meio da compilação
de jornais
impressos locais quase todos de vida efêmera, com exceção
do
Jornal de Jequié, fundado pelo jornalista e poeta Wilson
Novaes em
1945 e em circulação até os dias atuais. As reportagens
giravam em
tordo de política, polícia e cotidiano. As notícias
estaduais, nacionais
e internacionais eram compiladas de jornais impressos e
também captadas
de outras emissoras como as Rádios Globo, Tupi e Sociedade
da
Bahia, gravadas no gravador de fita de rolo e transcritas
para serem lidas
pelos locutores da Rádio Bahiana. “Gravava noticiário do
Rio, São
Paulo, Salvador” (TEIXEIRA, 12/03/2011). Merecem destaque
redatores
como Eutímio Almeida e João Mendes, considerados de escrita
fácil e muito ágeis na máquina de datilografar.
O Eutímio Almeida que mora hoje em Feira de Santana era
redator de notícias e de esporte da Rádio Bahiana. Era
o único que batia a máquina numa velocidade com dois
dedos que eu nunca vi coisa igual. Ele botava a
gravação
para tocar e transcrevia para fazer os textos do
noticiário
(LOPES, 13/02/2011).
23Áudio disponível em http://www.4shared.com/audio/_TwnLN9W/
Notcia_-_Correspondente_N-27.html.
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44 Judson Pereira de Almeida
Muitas vezes, por problemas com o equipamento, gravações de
entrevistas
etc., que faziam parte do noticiário tinham de ser
veiculadas diretamente
ao microfone. “Quando você ligava o gravador naquela mesa
grande às vezes não saía, dava bronca. Então eu preferia
fazer assim,
botava a notícia (entrevista gravada) na boca do microfone”
(MENDES,
12/03/2011).
Para fins deste trabalho relataremos alguns fatos marcantes
no radiojornalismo
da Bahiana de Jequié. O primeiro aconteceu no início da
década de 1980. Por volta das 19h15, horário em que todas
as emissoras
de rádio do país transmitem em cadeia A Voz Do Brasil
(noticiário
oficial produzido pela Rádiobrás) o repórter e
radiooperador Inaldo
Sardinha estava sozinho na emissora quando percebeu que um
pequeno avião dava vôos rasantes sobre Jequié. Passados
mais alguns
minutos constatou-se que o piloto da aeronave estava
perdido, sem encontrar
um local para pousar a aeronave. O avião sobrevoava a
cidade e
causava preocupação. Foi então que Sardinha teve a
iniciativa de interromper
A Voz do Brasil e convocar motoristas para irem até o
Aeroporto
Vicente Grilo iluminar a pista, para que o pouso fosse
realizado.
Eu fui até a porta da cabine de locução do estúdio
principal,
abri a porta, encostei uma cadeira, voltei para a
técnica,
abri o microfone, fiz o mesmo itinerário novamente
e pedi à população que tivesse com veículo que se
deslocasse
até o aeroporto para poder acender os faróis para
o avião pousar. Muitos carros foram e o avião pousou
(SARDINHA, 11/03/2011).
No dia seguinte soube-se que no avião estavam um americano
e
um francês, diretores de uma empresa mineradora, além de
piloto e
co-piloto. Uma tragédia foi evitada graças ao bom senso de
Inaldo
Sardinha, e às ondas da Bahiana de Jequié. Venceu o
espírito jornalístico
diante da obrigação legal de transmitir A Voz do Brasil.
Um segundo fato marcante, transmitido pela equipe da Rádio
Bahiana,
que aqui abordaremos foi a queda de um avião no Aeroporto
Vicente
Grilo. Um monomotor que pertencia a um pecuarista conhecido
na região como Doutor Gonzaga caiu na pista do aeroporto. O
filho dele
estava pilotando. “O avião caiu de bico no início da pista e
nós corremos
para o local” (MOURA, 24/05/2011). O piloto teve ferimentos
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A Rádio Bahiana de Jequié 45
graves, foi levado para Salvador, mas resistiu. Hoje é
piloto de aviões
comerciais. “As nossas fontes eram a própria comunidade, o
próprio
povo fazia questão da presença da gente nos bairros, nos
locais para dar
as notícias” (MOURA, 24/05/2011).
Outro momento marcante para o Jornalismo da AM 472 foi uma
grande enchente do Rio das Contas no início da década de
1980. Não
teve as proporções da enchente ocorrida em 1914, que
praticamente
destruiu a cidade, mas foi suficiente para causar
preocupação e deixar
pessoas desabrigadas. A Barragem da Pedra teve de soltar
mais de 2.500
metros cúbicos de água, uma parte baixa da cidade ficou
completamente
inundada.
A gente andava naquela época em uma mobilete, depois eu
tive uma vespa. A gente andava nesses veículos fazendo
reportagem de rua. Não havia VHF, a gente falava de
orelhão,
telefonando de orelhão com ficha pra chamar para
o estúdio, pra botar a gente no ar e dando estas
notícias
da enchente, casas que caíram aqui em Jequié. O Rio das
Contas e o Rio Jequiezinho cheios (MOURA, 24/05/2011).
O quarto acontecimento que destacamos é a polêmica
entrevista
concedida por Antônio Lomanto Júnior ao repórter Edísio
Santana em
1992. O ano era de eleições municipais e Lomanto concorria
com Ewerton
Almeida (Tom Legal) ao cargo de prefeito de Jequié. Foi
marcado
um horário na Rádio Bahiana para que Lomanto gravasse uma
entrevista que seria levada ao ar no dia seguinte, pela
manhã. Ficou
combinado de que, a entrevista seria veiculada na íntegra.
O bate papo
começou em tom cordial até que uma pergunta de Edísio
Santana tirou
do sério o veterano político. Queixava-se o ex-governador
(PFL) de que
o prefeito de então, Luiz Amaral (PMDB), não o apoiara no
intento de
eleger-se prefeito pela terceira vez, dizendo que não
gostava de traição.
Foi quando o entrevistador questionou: “O senhor disse que
não gosta
de traição. Então o senhor acha que Luiz Amaral deveria
trair o seu
partido pra apoiar o senhor e deixar de apoiar o candidato
do partido?”
(SANTANA 2, 26/03/2011). Foi então que Lomanto deu vários
murros
na mesa e, falando com o dedo em riste, esbravejou: “Não me
chame
de traidor eu não sou traidor! Você é um lobo em pele de
cordeiro!”
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46 Judson Pereira de Almeida
(SANTANA 2, 26/03/2011). O Clima ficou tenso. Lomanto não
estava
acostumado a ser questionado daquela forma na Rádio
Bahiana,
emissora que lhe pertencera durante muitos anos. E o
repórter indagou
mais uma vez: “Doutor, a única coisa que eu quero que você
me diga é
se o senhor trairia seu partido pra apoiar candidatos de
outro partido?”
(SANTANA 2, 26/03/2011). Lomanto suava em bicas e ainda
mais irritado
falou alto e não respondeu ao questionamento. Aos poucos o
clima
foi mudando, e, no final, o político pediu o apoio do povo
à sua candidatura.
Sabendo da polêmica o diretor do Sistema Nordeste de
Comunicação
(grupo do empresário Pedro Irújo que comprou a Rádio
Bahiana
no fim dos anos 80) Moacir Mansur, pediu cópia da
entrevista e não
fez nenhuma objeção para que a mesma fosse exibida na
íntegra, como
assim foi feito no dia seguinte. Depois da veiculação
Edísio Santana
encontrou na rua um velho e conhecido “puxa-saco” de
políticos de Jequié,
que fez a seguinte indagação ao radialista: “Rapaz você é
maluco?
como você faz aquilo com Doutor Lomanto? você pode perder
seu emprego”
(SANTANA 2, 26/03/2011). Edísio deu de ombros e nada lhe
aconteceu. Lomanto Júnior foi eleito e cumpriu o mandato de
prefeito
até primeiro de janeiro de 1996, quando transferiu o cargo
para Roberto
Pereira de Brito.
O rádiojornalismo da Bahiana de Jequié deu visibilidade à Cidade
Sol. “Uma
rádio sempre melhora uma cidade. O povo pode ser ouvido,
pode reclamar, o que antes ficava só no boca a boca ou no
serviço de
alto-falante” (ARGOLO, 25/03/2011).
Segundo Ari Moura a forma de fazer radiojornalismo na
Bahiana
influenciou gerações e até hoje apresenta reminiscências em
Jequié,
serviu de referência para outras emissoras implantadas na
cidade.
Eu tenho certeza que a Rádio Bahiana de Jequié prestou
um grande serviço. Tanto que a Rádio Bahiana, a sua
programação
principalmente jornalística, era tão boa, surtia
tanto efeito que as FMs que foram chegando, a exemplo
da
95 e depois a 93 e até outros que chegam agora adotam
no jornalismo um trabalho popular, um trabalho nas
ruas,
nos bairros, mais ou menos daquilo que era feito na
Rádio
Bahiana nos áureos tempo (MOURA, 24/05/2011).
A Rádio Bahiana foi uma reveladora de talentos, uma espécie
de
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A Rádio Bahiana de Jequié 47
escola de bons profissionais que atuavam na parte de
entretenimento e
no radiojornalismo. Ari Santana trabalhou por um período na
Rádio
Sociedade da Bahia. Inaldo Sardinha teve passagens pelas
Rádios Educadora
de Ipiaú e Difusora de Itabuna.
Tivemos locutores que saíram daqui que foram brilhar em
Feira de Santana, a família Veloso, por exemplo, que
começou
na Rádio Bahiana foi para Feira de Santana, outros
foram para Salvador para a Rádio Sociedade da Bahia,
Rádio Cultura. Eutímio Almeida até pouco tempo trabalhava
na assessoria de imprensa da Prefeitura de Feira de
Santana e tantos outros nomes (MOURA, 24/05/2011).
Merece referência a fundação do Sindicato dos Radialistas
de Jequié
comandada pelo rádioperador Tadeu Antônio, hoje servidor da
Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia, campus de
Vitória da Conquista.
“Trouxe para Jequié Pedro Ferreira, ele fez algumas
palestras conosco,
os funcionários da Rádio Bahiana que quiseram” (SARDINHA,
11/03/
2011). Além de Tadeu Antônio militaram no sindicato pessoas
como
Inaldo Sardinha, Humberto Oliveira (rádioperador e depois
locutor da
Estação 93 FM), Narcíso Veloso (locutor da Bahiana) Aloísio
Rocha
e Mister Boy (locutores da Estação 93 FM) até que foi
dissolvido no
final da década de 1990 e Jequié passou a contar com uma
delegacia
do Sindicato dos Trabalhadores em Rádio, Televisão e
Publicidade do
Estado da Bahia, SINTERP.
2.1 Opinião: os editoriais de Fernando Barreto e Adauto
Cidreira
Um dos jornalistas mais brilhantes de Jequié foi Fernando
Barreto. Nascido
na Cidade Sol trabalhou na imprensa do Sudeste do país, com
destaque para a atuação no jornal Tribuna da Imprensa ao
lado de Carlos
Lacerda.24 De volta à cidade mãe, Fernando foi cronista da
Rádio Bahiana
de Jequié, onde escreveu muitas crônicas que falavam da
cidade.
24Inimigo político de Getúlio Vargas, Carlos Lacerda foi o
grande coordenador da
oposição à campanha de Getúlio à presidência em 1950, e
durante todo o mandato
constitucional do presidente, até agosto de 1954. Uniu-se a
militares golpistas e
aos partidos oposicionistas (principalmente a UDN) num
esforço conjunto para derwww.
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48 Judson Pereira de Almeida
Marcou época o programa escrito por Fernando Barreto
chamado O
Cronista e o Mundo:
Era um dos programas mais ouvidos de Jequié, porque ele
fazia crônicas românticas. Eu me lembro de uma que li,
era
eu e Fernando Biondi, que o título era “nunca mais
fitarei
aquela estrela” (SANTANA
1, 26/03/2011).
Muitas cartas de ouvintes chegavam à emissora comentando os
textos
e dando sugestões de temas para o jornalista. Fernando
Barreto era
um literato. Em 1960 lançou um livro denominado Roteiro Histórico-
Sentimental de Jequié Cinqüentenária, com versos e informações históricas
sobre a cidade querida.25
Outro destaque de Fernando Barreto na Rádio Bahiana de
Jequié era
o editorial Nossa
Opinião, levado ao ar a partir de 1963, de
segunda a
sábado às 13h00. Com texto primoroso o jornalista falava de
assuntos
do cotidiano, principalmente de política. Analisava fatos
de relevância
rubar o presidente Vargas, através de acusações que
publicava em seu jornal, Tribuna
da Imprensa. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Lacerda
Acesso. 24/04/2010.
25Trecho do livro Roteiro Histórico-Sentimental de Jequié
Cinqüentenária, disponível
no site da Academia de Letras de Jequié: “Vem, forasteiro, vem conhecer a
cidade. Desçamos as suas colinas, contornemos o vale e
ganhemos a estrada. Vamos
vê-la no seu louro de sol batido, na pele queimada das
suas mulheres e nos ombros
fortes dos seus homens de fé; vamos nos misturar com o
povo e ouvir as suas lendas
– aquelas que fazem a história verdadeira. A poesia da
sua vida é uma aurora de
esperança; a juventude da sua luta, uma promessa de
ventura; a dedicação dos que a
construíram, raiz da sua vontade.
Vamos, vamos conhecê-la. É a nossa Cidade. Em cada
canto, existe um halo de
otimismo, um sorriso de amizade, um olhar de ternura.
Não tem, decerto, encrustado
no seu passado, nenhum deus mitológico, mas homens
simples que a amaram de
amor verdadeiro – amor que é abnegação, amor que é
renúncia, amor que é sacrifício.
Amante sublime, ela também os amou e os ama ainda,
dividindo o seu coração
generoso entre nativos e gringos, homens da sua terra e
de terras outras, homens de
vários portos, de várias línguas, homens do mundo.
Entra forasteiro, vem conhecê-la. Vem sentir o perfume
das suas flores, a alegria
dos pássaros que voltaram do inverno, a vida que
palpita no seio farto. Vem.” Fonte:
http://www.alj.com.br/index.php?s=fernando+barreto
Acesso
24/04/2011. Texto gravado por Judson Almeida para fins de
ilustração deste trabalho,
disponível em http://www.4shared.com/audio/BLM6Q1ds/Texto_de_
Fernando_Barreto_do_l.html.
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A Rádio Bahiana de Jequié 49
nacional e contextualizava-os com a realidade regional. “Eu
ficava abismado
com a capacidade dele” (SANTANA 1, 26/03/2011). Fernando
Barreto em muito influenciou a política com seus editoriais
na Rádio
Bahiana. Conta-nos Virgílio Argolo e Ary Santana que o
jornalista foi
um dos responsáveis pela candidatura de Lomanto Júnior ao
governo do
estado da Bahia na década de 1960. “Lomanto era da União
dos Municípios”
(ARGOLO, 25/03/2011), e com a bandeira do municipalismo
lançou-se candidato. Fernando Barreto engajou-se na
campanha e criou
aquele slogan: “Atenção Bahia, o interior caminha para o
governo, feijão
na lapela” (SANTANA 1, 26/03/2011). Além de cronista
Fernando
Barreto também foi diretor da emissora. É patrono da
Cadeira número
23 da Academia de Letras de Jequié. Uma escola municipal no
bairro
Jequiezinho leva o seu nome.
Outro articulista de grande destaque na Rádio Bahiana de
Jequié foi
Adauto Cidreira. Nascido em Camamu – Bahia em 1o de agosto
de
1909, chegou em Jequié em 1930. Adauto se apaixonou pelo
jornalismo
bem cedo. Entrou pela primeira vez em uma redação de jornal
aos nove anos de idade. Viu que aquele era o seu destino.
Colaborador
de quase todos os jornais impressos de Jequié Adauto chegou
à Rádio
Bahiana no início da década de 1960, ao lado de Cid
Teixeira, com a
missão de reestruturar a emissora, quando a mesma foi
vendida por Alceu
Nunes da Fonseca para Antônio Lomanto Júnior. Junto com Cid
Teixeira conseguiu recuperar o crédito da emissora na praça
e assinar a
carteira de trabalho de todos os funcionários que, até
então, não tinham
os direitos trabalhistas garantidos. “Aí eu cheguei,
convoquei todos eles
juntamente com Adauto Cidreira e procuramos legalizar. Em
março nós
legalizamos todos eles, março de 1960” (TEIXEIRA,
12/03/2011). Autodidata,
Adauto Cidreira participou da fundação da República Estado
de Sítio, um
pensionato localizado na Praça da Bandeira de tendência
anarquista, do qual saíram libertários que fundaram a
Associação
dos Empregados no Comércio de Jequié, hoje sindicato da
categoria.
De tendência libertária, Adauto Cidreira é definido por
Evandro Lopes
como anarquista: “O Adauto, a filosofia política dele era
de anarquista.
Adauto era anarquista por excelência” (LOPES, 13/03/2011)
Leitor voraz,
falou sobre muitos assuntos em seus editoriais na Rádio
Bahiana:
política, atualidades, economia, aspectos históricos de
Jequié, coisas
relacionadas à terra que escolheu para viver: “(...)
comentava em cima
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50 Judson Pereira de Almeida
de um aspecto político, enfim, ele abordava de todas as
maneiras de uma
forma bastante versátil” (LOPES, 13/03/2011). Segundo texto
do perfil
de Deodato Astrê, membro da Academia de Letras de Jequié e
ocupante
da cadeira 19, da qual Adauto Cidreira é o patrono, o
articulista “(...)
possuía uma visão extraordinária. Era como se fosse dotado
da faculdade
de ver claramente o que os outros não percebiam senão sob
esforço
mental”.26 Em As
Velhas Caminhadas “(...) narrava os fatos por onde
ele passou na política, envolvendo políticos com os quais
ele conviveu”
(NOVAES JÚNIOR, 26/03/2011).
A atuação de Adauto Cidreira na imprensa baiana, tanto no
rádio
quanto no jornal impresso, influenciou a carreira de vários
jornalistas.
Relata Wilson Novaes Júnior:
“Eu conhecia poucas pessoas que tinham a facilidade de
escrever como seo Adauto Cidreira. Eu tentava imitar os
termos que ele utilizava porque ele era muito bom,
tinha
uma facilidade de redigir que era uma coisa
impressionante
(NOVAES JÚNIOR, 26/03/2011).
Os editoriais de Adauto causavam grande repercussão na
sociedade
jequieense. Boêmio27,tinha muitos amigos, adquiriu
prestígio e respeito,
ingressou em entidades como Maçonaria e Rotary Clube.
Elegeu-se
26Texto disponível em
http://www.alj.com.br/cadeiras/cadeira-19/#respond.
27Texto de Adauto Cidreira extraído do livro Cem Anos de Poesia
e Prosa, editado
pela Academia de Letras de Jequié. Narra o fim dois pontos
a boemia jequieense, na
primeira metade do século XX. A citada obra não traz a da
em que o texto foi escrito.
Bar Fascista e Lanterna Verde – Caiu afinal, cedendo às exigências do progresso, o
prédio onde era a Supermania; ali, segundo se conta,
vai ser edificada a sede local
de importante banco. Vale a pena relembrar alguns dados
sobre o prédio que por
mais de 60 anos era esquina da Rua João Mangabeira com
a Avenida Alves Pereira.
Aliás, já existia o prédio, quando aquelas artérias
receberam nome. Construído por
Salvador Colavolpe, que por algum tempo teve ali uma
padaria, passou a ser loja
A Indiana, de Nicolau Giudice; depois, armazém de
compras com Maimone & Cia.,
voltando a ser loja Ameritália, de Grisi & Cia.,
cujo chefe era Ângelo Grisi, mais
poeta que comerciante, hoje ainda forte e bem humorado
nos encontros com os velhos
amigos, desfrutando o ócio dos setenta e tantos de
velhice; de Ameritália passou
a Bar Fascista, onde as quintas-feiras à tarde
reunia-se a juventude para um chá
animado onde não faltavam chopp e tertúlias literárias
com números de canto, música
e declamação. Um pianista permanente alegrava o
ambiente do Bar Fascista, já que
não tínhamos então o conforto do rádio, tevê e energia.
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A Rádio Bahiana de Jequié 51
vereador, presidiu o legislativo. Era um homem de idéias
renovadoras,
as expôs por meio de veículos de comunicação (rádio e
jornais) por
onde passou.
Com a sua morte, em 15 de outubro de 1995, ficou uma lacuna
na
imprensa baiana, em especial nos jornais e na radiofonia de
Jequié.
2.2 Os anos de chumbo: período pós-golpe de 1964
Os anos que se seguiram ao 31 de março de 1964 foram de
relativa tranquilidade
na Rádio Bahiana de Jequié. A emissora não enfrentou
problemas
relevantes por conta do controle dos veículos de
comunicação e
da censura imposta pelos militares, principalmente depois
do Ato Institucional
no 05 de 13 de dezembro de 1968. No período pós-golpe a
emissora já pertencia a Antônio Lomanto Júnior, então
governador da
Bahia. Lomanto elaborou um manifesto em apoio ao Presidente
João
Goulart, que não chegou a ser divulgado, face à rapidez com
que o golpe
foi desenvolvido. Conforme Emerson Pinto de Araújo: “João
Goulart
foi deposto e o Palácio do Governo do Estado da Bahia,
mesmo sem
a divulgação do manifesto, amanheceu cercado pelas tropas e
canhões
da 6a Região Militar” (ARAÚJO, 1997. p. 421). Por pouco
Lomanto
Júnior não foi deposto. O único jeito de garantir a
continuidade do
mandato foi apoiar o golpe e contar com o apoio de pessoas
que tinham
ligações com os militares:
Salvou-o uma série de fatores, como o apoio
incondicional
do arcebispo Dom Álvaro Augusto da Silva, em nome do
clero baiano, e a interferência do coronel Cabral,
secretário
de segurança pública, junto a Jarbas Passarinho, de
Ao lado do Bar Fascista, um salão de bilhares, no mesmo
prédio e da mesma
empresa que o sublocava, onde Gutemberg Ribeiro era o
número de mais destaque,
campeoníssimo estadual do taco. Em seguida, o Salão de
Marcolino, um mulato alto
e elegante, sempre de branco e gravata borboleta,
camisa de palha de seda, árbitro de
elegância, que tinha no salão um modelo de ordem e
asseio e servia para os viajantes
confrontarem-no com os da capital.
O local das velhas paredes vai continuar sem os ruídos
dos velhos tempos, as confidências
dos boêmios tresnoitados, a impaciência e o stress dos
manipuladores de
ases e curingas, no salão ao fundo, onde está a Mobiluz
até a Damião Vieira e era então
o Lanterna Verde. É o destino das coisas e pessoas, a
renovação que o progresso
e a fatalidade biológica determinam (apud RIOS, 2007, P. 13).
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52 Judson Pereira de Almeida
quem fora colega de turma. Pesou ainda a favor da manutenção
do mandato de Lomanto Júnior a sua aproximação
com o general Justino Alves, quando fez realizar um
congresso
de âmbito nacional no sul do país, na condição de
presidente da Associação Brasileira de Municípios (ARAÚJO,
1997. p. 422).
Com Lomanto (proprietário da rádio) apoiando os militares e
o medo
geral que caracterizou os anos mais sombrios da ditadura,
não houve
na Rádio Bahiana quem aventurasse posicionamento público
contrário
ao estado de exceção. Os diretores Cid Teixeira e Adauto
Cidreira
chegaram a ser convocados a prestar esclarecimentos no
quartel. Lá
viram várias pessoas contrárias ao golpe presas, como o
advogado Rui
Alberto de Assis Espinheira. Cid e Adauto foram
interrogados sobre
várias questões: “Aí me fez um bocado de pergunta e liberou
a gente,
não teve nada” (TEIXEIRA, 12/03/2011). Não há registro de
prisões
de radialistas e jornalistas ligados ao quadro da Bahiana.
O ato arbitrário
de invasão do estúdio da emissora pelo tenente Etiene,
conforme
já narrado, deu-se antes do movimento de 1964.
Mesmo sem falas públicas contrárias ao golpe, profissionais
da Rádio
Bahiana sofriam uma pressão velada sobre o que deveriam
falar aos
microfones da emissora. O radialista João Mendes assevera:
Não podia falar sobre quase nada. Era limitado a
notícias
de futebol, notícias de morte, de acidente essas coisas
assim.
Quando era política tinha: cuidado, olha você cuidado.
Sempre recebia apontamentos de cuidado. A polícia tá
aí, o exercito tá aí. (MENDES, 12/03/2011)
O locutor Ari Santana revela que viveu um momento difícil
no período
dos anos de chumbo por conta de uma palavra lida ao vivo de
forma equivocada: “Naquela época eu fiz um noticiário às
nove da
manhã e falei: ‘O presidente da república Costa e Silva
esteve em uma
reunião de cópula28 hoje’, e coisa e tal” (SANTANA 1,
26/03/2011).
Percebendo a gafe Adauto Cidreira, cronista e um dos
diretores da Rádio
Bahiana, chamou Ari Santana e pediu que ele gravasse o
mesmo
28Cópula: O ato sexual; coito (sinôn. copulação).
(FERREIRA, 1987)
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A Rádio Bahiana de Jequié 53
noticiário lido ao vivo às nove da manhã. “Eu disse: o que
houve?
Nada! Grava esse noticiário como ele está aí. Aí eu gravei:
‘O presidente
Costa e Silva esteve em uma reunião de cúpula hoje... ’”
(SANTANA
1, 26/03/2011). Logo em seguida um representante do
exército
procurou Adauto Cidreira para pedir explicações sobre o que
ouvira no
ar. O cronista, então, mostrou a gravação e argumentou que
o militar
ouviu mal, entendeu errado. “Ele passou a gravação e o
tenente disse:
‘mas não é possível, eu ouvi cópula’” (SANTANA 1,
26/03/2011). Adauto
Cidreira pensou rápido e livrou Ari Santana de um possível
problema
com os militares. “Ele usou a cabeça, só que não me falou
nada
porque eu iria ficar nervoso se ele falasse não é?”
(SANTANA 1, 26/03/
2011).
A Rádio Bahiana não chegou a ter a presença de censores em
seu
estúdio e redação, mas todo o noticiário era gravado e
arquivado.
Tudo que dizia a respeito do governo, principalmente
Federal,
era um zelo naquilo que ia ser divulgado. No programa
jornalístico tinha que passar pela censura de gravação
e todos eles datilografados, e arquivados com a
assinatura
de punho pelo locutor (SANTANA 2, 26/03/2011).
Os grilhões invisíveis da censura na Rádio Bahiana foram se
afrouxando
a partir do início da década de 1980 e se romperam em
definitivo
com a abertura democrática em 1985. “Foi um período
péssimo. Quem
viveu não deve ter saudade. É melhor uma democracia ruim do
que uma
boa ditadura, pode ter certeza” (MENDES, 12/03/2011).
2.3 Transmissões externas
Muitos eventos considerados importantes para Jequié e para
a Bahia
foram transmitidos pela Rádio Bahiana. Posses de
governadores, prefeitos;
visitas de personalidades da política, da música, da
ciência; competições
esportivas; sessões na câmara de vereadores, inaugurações
de
logradouros públicos e de empreendimentos particulares;
bailes de carnaval.
As festas carnavalescas eram transmitidas do Jequié Tênis
Clube,
da Associação Cultural Jequieense, ACJ, do Clube do
Jequiezinho e das
ruas da cidade. As apurações das eleições municipais (de
Jequié e municípios
vizinhos), estaduais e federais também foram transmitidas
do
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54 Judson Pereira de Almeida
Jequié Tênis Clube, do Centro Social Urbano (CSU) e do
Ginásio de
Esportes Aníbal Brito. Como o voto era registrado em
cédulas de papel
a apuração era lenta, a equipe da Rádio Bahiana passava
vários dias
informando ao ouvinte os boletins.
Uma curiosidade é que, durante muito tempo não existia
horário
eleitoral gratuito, e as emissoras de rádio não eram
proibidas de transmitir
comícios. Cabe salientar que só eram transmitidos os
comícios
de candidatos ligados ao grupo político do proprietário da
emissora,
a saber, Lomanto Júnior: “De Clóvis Barreto, de Lomanto,
todos da
situação, só os de Lomanto” (TEIXEIRA, 12/03/2011). O
jornalista
Wilson Novaes Júnior também relata: “Lá em casa o rádio
ficava ligado
ouvindo os comícios. Só transmitia o lado que bem
interessasse, é
bem verdade, que era o lado do doutor Lomanto” (NOVAES
JÚNIOR,
26/03/2011). Era a tentativa do veículo de comunicação em
moldar a
opinião pública, estratégia que muitas vezes se mostrava
ineficaz. Por
certo outros fatores influenciavam na decisão dos
eleitores, não era o
fato de a rádio apoiar de forma aberta determinado
candidato que a
eleição deste estaria garantida. Tanto é que, nas eleições
municiais de
1962, vários comícios do candidato Clóvis de Souza Barreto29,
apoiado
por Lomanto Júnior proprietário da emissora na época, foram
levados
ao ar pela Rádio Bahiana, mas as urnas deram vitória ao
médico Daniel
Andrade. Assim narra Emerson Pinto de Araújo:
Além da popularidade que desfrutava como médico nas
camadas
populares, vários outros fatores contribuíram para a
vitória do novo titular da prefeitura, contando com o
apoio
dos desafetos de Lomanto Júnior, dos partidários do
candidato
Waldir Pires, vencido no pleito para governador, e
de grande parte dos evangélicos. Na eleição municipal,
o eleitorado de Lomanto Júnior se dividiu entre Milton
de
Almeida Rabelo e Clóvis de Souza Barreto (ARAÚJO,1997.
p. 423).
Destacaremos, aqui, duas transmissões históricas para
Jequié, feitas
pela Rádio Bahiana. A primeira em 1985. O então prefeito
Landufo
29Trecho da transmissão de um comício de Clóvis Barreto
disponível em
http://www.4shared.com/audio/AOCRfICy/Transmisso_do_com
cio_de_Clvis_.html.
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A Rádio Bahiana de Jequié 55
Caribé, que tomara posse em 1983 para um mandato de seis
anos, enfrentava
sérias dificuldades de relacionamento com o legislativo
municipal;
a oposição era ampla maioria e o prefeito argumentava que
não
poderia continuar refém dos vereadores, que lhe negavam
créditos suplementares,
deixando a administração refém do parco orçamento do
município. “Acuado, vendo sua popularidade cada vez mais em
baixa,
Landufo Caribé escolheu o caminho errado, passando a agir
autoritariamente,
voltando as costas para a Câmara de Vereadores” (ARAÚJO,
p. 454). O município mergulhara em uma crise política que
teve o seu
ápice em 19 de novembro de 1985, quando a Câmara cassou
Landufo
Caribé:
O agravamento do conflito envolvendo o Executivo e o
Legislativo
atingiu seu clímax em novembro de 1985, quando
a Câmara de Vereadores, em Decreto Legislativo no6,
datado
do dia 19, cassou o mandato de Landufo Caribé, acusado
de não cumprir as determinações legais, assegurando
a posse do vice-prefeito José Simões de Carvalho (ARAÚ-
JO, 1997, p. 455).30
Relata o radialista João Mendes, um dos profissionais que
trabalharam
na transmissão do impeachment
de Caribé31, que a sessão foi
longa: “Transmiti até duas horas da manhã, de oito da noite
até as
duas da manhã” (MENDES, 12/03/2011). O plenário da Câmara
estava
lotado, os discursos inflamados contra o prefeito
sucediam-se. Depois
do resultado e do encerramento da sessão seguiram-se
entrevistas com
autoridades e pessoas presentes. Uma noite histórica e de
muita audiência
para a Bahiana, já que, pela primeira vez um prefeito de
Jequié foi
submetido a tal processo. “Para mim foi uma grande experiência,
eu
nunca tinha assistido a uma ação deste tipo, a cassação de
um prefeito”
30Houve,
meses depois, um breve retorno de Landufo Caribe ao exercício do cargo
de prefeito, para novo afastamento, que perdurou até 22
de janeiro de 1987, quando
por decisão da Justiça reassumiu a chefia da Comuna,
cumprindo o restante do
mandato, que perdurou até 31 de dezembro de 1988 (ARAÚJO, p. 455).
31Com base nos depoimentos colhidos constatamos que também
participaram da
transmissão o radialista Inaldo Sardinha e o jornalista
Wilson Novaes Júnior, este
como colaborador, já que não fazia parte do quadro de
funcionários da emissora. Já o
senhor Cid Teixeira, diretor da rádio na época, não
forneceu informações sobre o fato.
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56 Judson Pereira de Almeida
(MOURA, 24/05/2011). A movimentação política daquela noite
teve
grande repercussão no cenário político regional e estadual.
Interessante
é que, em 1985, a Rádio Bahiana ainda pertencia ao grupo
Leur e Lomanto
Júnior, e este apoiara Landufo Caribé no processo
eleitoral.
Outro fato histórico, transmitido pela Rádio Bahiana e que
nos propomos
a relatar neste capítulo, foi a queda do Edifício Grilo.
Depois
da enchente que devastou a cidade nos primeiros dias de
1914 a empresa
Grilo Marota, do imigrante italiano Vicente Grilo ergueu,
num
mangueiro pertencente à empresa, um sobrado que se tornaria
motivo de
admiração para moradores e forasteiros. Talvez o Edifício
Grilo tenha
sido o símbolo maior do soerguimento da cidade passada a
fúria das
águas. O historiador Emerson Pinto de Araújo narra detalhes
da construção
do pomposo prédio.
O cimento vem da Inglaterra, em barricões de 180
quilos.
Vem de navio, vem de trem até onde chegam os trilhos da
Estrada de Ferro Nazaré. Daí em diante, pesados demais
para lombos de burros, os barricões, por ínvios
caminhos,
são transportados em carros de bois (ARAÚJO, 2007. p.
253).
Além de cartão postal da cidade o Edifício Grilo serviu de
centro
de decisões, abrigou famílias quando jagunços sitiaram
Jequié, sediou o
primeiro estabelecimento de ensino médio, a primeira
agência bancária,
abrigou casas comerciais, uma agência da Coelba,
lanchonetes, a sede
do serviço de alto-falantes de Zuzinha (onde trabalhara
Geraldo Teixeira)
etc.
Eis que no dia seis de junho de 1989 um fato selaria o
destino da
histórica construção. O rompimento de uma peça do
madeiramento do
telhado chamada tesoura, no primeiro andar, fez uma das
paredes do
Grilo ruir. Os destroços caíram em cima de veículos
estacionados na
Rua 2 de Julho e um lavador de carros morreu embaixo dos
escombros.
Era por volta de uma e meia da tarde. O senhor Cid Teixeira
fazia o cruzamento da Avenida Rio Branco com a Rua 2 de
Julho de
onde viu o desabamento, João Mendes estacionava a velha
brasília na
Praça Rui Barbosa quando ouviu o estrondo. Seguiram
imediatamente
para a sede da emissora. Neste dia Edísio Santana
apresentava A Hora
do Fazendeiro, tendo
na sonotécnica Inaldo Sardinha. No momento do
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A Rádio Bahiana de Jequié 57
desabamento a rede elétrica foi danificada, a Rádio Bahiana
saiu do ar.
O barulho foi ensurdecedor e uma nuvem de poeira cobriu o
local. Edísio
e Sardinha correram para a sacada da rádio (a Rádio Bahiana
ficava
no segundo andar do Edifício 2 de Julho, em frente ao
Edifício Grilo)
e viram o cenário da tragédia. Como o transmissor da
emissora ficava
na Granja Pindorama, no bairro São Judas Tadeu, o sinal da
rádio permaneceu
no ar. Foi então que Inaldo Sardinha e Edísio Santana
fizeram
uma ligação direta de uma maleta (equipamento de
transmissão externa)
que funcionava a pilhas com a linha que levava o áudio da
emissora
ao transmissor e passaram a narrar os momentos seguintes à
queda de
parte do Edifício Grilo. Aos poucos outros profissionais da
rádio foram
chegando e se juntaram na busca e transmissão de
informações sobre o
acontecimento.
Numa prova inequívoca de falta de sensibilidade e
compromisso
com a preservação do patrimônio histórico e cultural de
Jequié o Edifício
Grilo foi demolido. O desabamento foi em uma parede do
primeiro
andar, mas todo o prédio foi colocado abaixo sem nenhuma
necessidade.
Derrubaram um capítulo da história de Jequié. O prédio não
era tombado pelo Patrimônio Histórico. A administração
municipal
nada fez para evitar a demolição: “Ali foi um erro da
administração
Luiz Amaral. Era só recompor o prédio, o mais bonito e
antigo de Jequié”
(MENDES, 12/03/2011). “O Sobrado dos Grilos foi um marco na
vida da cidade que ajudou a crescer. Hoje, pela incúria dos
homens, existe
apenas nas fotografias, existe na lembrança dos que o viram
de pé”
(ARAÚJO, 1997 p. 254). O desaparecimento de um dos mais
importantes
patrimônios históricos de Jequié foi transmitido e
acompanhado
pela Rádio Bahiana que, algum tempo depois, teria o mesmo
destino,
como se verá no derradeiro capítulo deste trabalho.
2.4 Músicas e
Informações: um programa de Geraldo
Teixeira
No horário nobre das 10h00 às 12h00 na Bahiana de Jequié,
Geraldo
Teixeira levava ao ar de segunda a sábado o programa Músicas e Informações.
Uma revista no rádio, que mesclava jornalismo,
entretenimento
e utilidade pública. Era uma tradição ouvir a voz grave de
Geraldo
anunciar: “Alô amigos está no ar Músicas e Informações, um
programa
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58 Judson Pereira de Almeida
de Geraldo Teixeira”, tendo como fundo musical Herb Alpert
& the
Tijuana Bra - El Presidente.32
Produzido e apresentado por Geraldo, coordenador de
programação
da emissora, o programa foi líder de audiência nas manhãs
de Jequié,
até mesmo por algum tempo depois da chegada da primeira
emissora
em freqüência modulada da cidade. Eclético, Música e Informações
abria espaços para artistas locais e de outras plagas que
aportavam em
terras jequieenses. Apresentava quadros como: aniversariantes do dia,
queixas e reclamações, não está certo (comentário sobre algum problema
enfrentado pela comunidade), participações do ouvinte por
telefone
etc., as propriedades nutritivas e medicinais dos
alimentos. No
Músicas e Informações, além do Plantão
Informativo de hora em hora,
eram veiculadas notícias locais e nacionais, além de
notícias do esporte.
Os repórteres da Bahiana de Jequié participavam com flashs ao vivo
de qualquer ponto da cidade. O programa abria espaço,
também, para
apelos de pessoas necessitadas. Gente que precisava de
objetos como
muletas, cadeiras de rodas, passagens de ônibus recorriam
ao programa
e muitas vezes conseguiam aquilo de que tanto precisavam.
Conta-nos
Edísio Santana que muitas vezes o próprio Geraldo Teixeira
fazia contato
com instituições para que ouvintes do programa fossem
ajudados:
“Ele tinha uma influência muito grande dentro das lojas
maçônicas, dentro
do Rotary, do Lions Clube. Ele conseguia por meio da
amizade,
fornecia cadeiras de rodas, enxovais para gestantes...”
(SANTANA 2,
26/03/2011).
Geraldo encerrava o programa com Um Minuto de Sabedoria, mensagens
de Torres Pastorino,33 do livro clássico Minutos de Sabedoria,
32Disponível em http://www.4shared.com/audio/lgsCrZ8R/Herb_
Alpert__the_Tijuana_Bra_-.html.
33Carlos
Juliano Torres Pastorino foi
um ex-padre que se dedicou ao estudo
da Doutrina Espírita e da fenomenologia mediúnica.
Senhor de grande inteligência,
publicou extensa bibliografia de mais de 50 obras,
muitas delas ainda inéditas.
Poliglota, traduziu obras de diversos idiomas. Foi
também radialista, sendo a sua
obra magna - "Minutos de Sabedoria- uma coleção de
suas mensagens propaladas no
rádio. Compôs 31 peças musicais para piano, orquestra,
quarteto de cordas e polifonia,
a três e quatro vozes. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/
Carlos_Torres_Pastorino. Acesso 26/04/2011.
www.labcom.ubi.pt
A Rádio Bahiana de Jequié 59
ao som de Exodus, de Ernest Gold34. Depois o fundo musical
El Presidente
era tocado mais uma vez, e Geraldo se despedia de sua
audiência.
Retornava sempre às 18h00, para apresentar a tão querida Ave Maria.
Músicas e Informações era a síntese de tudo que era levado ao ar pela
Bahiana: notícia, esporte, serviço, entretenimento,
utilidade pública.
Uma revista apresentada por um comunicador carismático e
marcante
que, devido sua popularidade, elegeu-se vereador de Jequié.
Entretanto
não obteve sucesso na segunda candidatura ao legislativo
municipal.
O programa Músicas
e Informações saiu do ar no início da década
de 1990. A mudança fez parte de uma reestruturação na grade
de programação
da Rádio Bahiana promovida pelo Sistema Nordeste de
Comunicação.
O jornalista Ari Moura, coordenador de programação na
época, relata:
Acabei com o programa e coloquei outro no horário.
Resultado:
um ano depois a gente ainda recebia cartas para
o Músicas e Informações. Esse foi um grande erro que eu
cometi na época (MOURA,
24/05/2011).
Geraldo Teixeira era um curinga na Rádio Bahiana.
Profissional
versátil, sempre que preciso fazia outros horários e
desempenhava as
mais variadas funções na emissora. Aposentou-se em meados
da década
de 1990, depois de mais de 40 anos de atuação no rádio
jequieense.
“Geraldo Teixeira foi um exemplo de profissional, uma
pessoa íntegra,
correta, maravilhosa” (MOURA, 24/05/2011). Faleceu, aos 82
anos de
idade, no dia 16 de agosto de 2010 em Salvador – Bahia.
2.5 O esporte
O esporte amador e profissional de Jequié teve ampla
cobertura da Rádio
Bahiana. Programas de estúdio e transmissões esportivas
marcaram
a história da emissora. Segundo Virgílio Argolo o primeiro
narrador
esportivo foi um cidadão chamado Ubirajara: “Ele foi
locutor da rádio
aqui durante muito tempo. Ele veio de lá da Rádiointerior,
ele trabalhava
na rádio de Barramansa” (ARGOLO, 25/03/2011). Outros
profissionais
fizeram parte da equipe e as transmissões esportivas das
disputas
34Disponível em http://www.4shared.com/audio/hQ6fpjxl/Hen
ry_Mancini_-_Exodus__Theme_.html.
www.labcom.ubi.pt
60 Judson Pereira de Almeida
do campeonato amador e do intermunicipal ainda estão na
memória de
muitas pessoas. Os narradores Wilson Senhorinho e José
Mariano, os
repórteres de pista Nilton Torres e Péricles Edmundo e os
comentaristas
Eutímio Almeida, Evandro Lopes e Laerson Soares por muito
tempo
fizeram parte do time de esportes da Bahiana. “Posteriormente
veio o
futebol profissional e a essa equipe somaram-se Luiz “Laymon”
Gonzaga,
Innaldo Sardinha, que considero um dos melhores repórteres
de
pista da Bahia, e Edísio Santana” (NOVAES JÚNIOR. 2006. p.
48).
Ari Moura e João Mendes também deram contribuições
importantes em
coberturas esportivas feitas pela Rádio Bahiana.
Evandro Lopes chegou à emissora em 1965, quando Laerson Soares
era o chefe da equipe de esportes. “De repente eu fui
convidado por
Perinho, que também fazia parte da equipe, para fazer
reportagem de
campo, no velho estádio Aníbal Brito” (LOPES, 13/03/2011).
Tempos
depois, com a ida de Laerson Soares para Salvador, Evandro
Lopes
tornou-se o chefe da equipe de esportes e comentarista: “Passou-se
(sic)
as eleições, Laerson era candidato a vereador, não se
elegeu, ficou meio
chateado e foi embora para Salvador” (LOPES, 13/03/2011). O
esporte
em Jequié teve grande impulso com a equipe da Rádio
Bahiana. Com
a divulgação e o incentivo ao campeonato realizado no
bairro Jequiezinho,
no velho estádio Aníbal Brito, foi que surgiu a Associação
Desportiva
Jequié, como narra Evandro Lopes:
No ano de 1966 já para 1967 apareceram alguns craques
na época e nós montamos uma grande seleção de 1967.
Pelo desempenho dessa seleção veio a ser implantada,
criada a Associação Desportiva Jequié (LOPES, 13/03/
2011).
Na construção do Estádio Municipal a equipe da Bahiana de
Jequié
também deixou marcas. O então prefeito Waldomiro Borges35 quis
a
opinião dos integrantes da equipe sobra a construção do
equipamento
esportivo:
35“Dentre os vários trabalhos levados a efeito pela Comuna
merece destaque a edificação
do novo prédio da prefeitura, a construção do Estádio
Municipal, o Belvedere e a
modernização da Praça Rui Barbosa, a melhoria da praça Luiz
Viana (...)” (ARAÚJO,
1997. p. 428.429)
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A Rádio Bahiana de Jequié 61
Em 1966, quando seo Waldomiro foi eleito, ele nos
convidou
no prédio velho da prefeitura e disse uma expressão
interessante:
“olha, eu chamei vocês aqui para falar do futebol,
porque de futebol eu só entendo que a bola é redonda
e eu queria discutir com vocês aonde é melhor construir
o
estádio.
(LOPES, 13/03/2011).
E a equipe transmitiu a partida de inauguração do
estádioWaldomiro
Borges, no dia 25 de outubro de 1970 entre Associação
Desportiva
Jequié – ADJ e São Cristovão de Salvador. O placar foi de 0
X 0.
Segundo relatos de Ari Moura em junho de 1974 a equipe do
Flamengo
disputou um amistoso com a seleção de Jequié no Estádio
Waldomiro
Borges. Além da Rádio Bahiana, também esteve presente no
estádio
a Rádio Globo do Rio de Janeiro, com os locutores Antônio
Porto
e Áurio Amino. “A Rádio Globo teve dificuldades no
equipamento e
não pôde fazer a transmissão como deveria e recorreu à
Rádio Bahiana,
que emprestou um equipamento” (MOURA, 24/05/2011). A equipe
do Flamengo venceu a partida pelo placar de um a zero. Na
semana
seguinte foi realizado um Fla Flu no Rio de Janeiro.
Durante a partida
um torcedor do Fluminense teria invadido o Maracanã,
ocasião em que
Antônio Porto fez o seguinte comentário: “(...) pior foi em
Jequié, que
o prefeito entrou com um cavalo em campo pra dar o ponta pé
inicial”
(MOURA, 24/05/2011). Ari Moura, que na época era
proprietário de
um escritório de contabilidade rural, tentou por dias
seguidos desmentir,
por telefone o fato. Conseguiu às cinco da manhã no
programa de
Luciano Alves.
Eu contestei, o Luciano achou graça e me convidou para
que todos os sábados eu passasse matérias daqui de
Jequié
e da Bahia para o programa dele. E assim foi feito.
Levei
cinco anos como correspondente da Rádio Globo aqui em
Jequié (MOURA,
24/05/2011).
Posteriormente, convidado por Mascarenhas Filho para fazer flashes
no Clube da
Juventude, Ari Moura ingressou na Rádio Bahiana
e se
tornou um dos radialistas mais conhecidos da cidade,
inclusive pela atuação
na equipe de esportes.
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62 Judson Pereira de Almeida
José Mariano Ferreira, uma figura saudosa do esporte e
que foi locutor-narrador, eu e Sardinha fomos para o Rio
de Janeiro transmitir um jogo de futebol de salão do
Jequié
contra o Bradesco. Saímos daqui em uma caravana e a
Rádio Bahiana foi transmitir esse jogo (MOURA, 24/05/
2011).
Outro radialista que fez história da Rádio Bahiana foi
Inaldo Sardinha.
Chegou à emissora no final da década de 1970 e se tornou
uma
das figuras mais conhecidas na região de Jequié. Conhecedor
profundo
do assunto, Sardinha comandou um programa esportivo que ia
ao ar
do meio dia a uma da tarde. Nas transmissões esportivas
atuava como
repórter de campo, fato lembrado por Wilson Novaes Júnior
no livro
Garimpando a Imprensa numa Cidade Só, acima referido. Lembra o
radialista que, no ano de 1984, em uma partida entre a
Seleção de Jequié
e a Seleção de Ubatã deu-se uma tremenda confusão e ele,
que foi
à cidade junto com Edísio Santana para transmitir a
partida, acabou envolvido.
O mando de campo era de Ubatã, mas o jogo foi realizado na
vizinha cidade de Gongogi.
Na hora do jogo o árbitro foi mandado pelo prefeito de
Ubatã para Salvador, porque o árbitro reserva era irmão
do prefeito, que por sua vez era presidente da liga de
Ubatã.
Ele imaginou que o irmão indo para o apito a seleção
dele ganharia fácil (SARDINHA, 11/03/2011).
Só que houve um pênalti a favor da seleção de Ubatã e o
árbitro deu
um deslance dentro da pequena área do Jequié. Quando o
prefeito viu
que a cobrança feita não resultou em gol começou a
confusão:
Saiu dando porrada em todo mundo, quebrou a prancheta
que tava em minha mão, quebrou gravador (...) pra
sairmos
da cidade tivemos que ter o apoio de duas ou três
viaturas
da polícia militar (SARDINHA, 11/03/2011).
Narra Edísio Santana: “(...) nós saímos e tivemos que mudar
o percurso.
Chegamos em Jequié quase a uma hora da manhã, porque o
pessoal de Ubatã queria pegar toda a delegação de Jequié e
quebrar no
pau” (SANTANA 2, 26/03/2011).
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A Rádio Bahiana de Jequié 63
Outro acontecimento histórico para Jequié e que teve a
contribuição
da equipe de esportes da Rádio Bahiana foi a transformação
do velho
campo do Aníbal Brito em um moderno Ginásio de Esportes. O
assunto
foi exaustivamente debatido na emissora e cobrado das
autoridades a
construção do ginásio, inaugurado no início da década de
1980 com
grande festa, e com transmissão ao vivo da ZYH 472.
Tinha no programa esportivo a participação do público,
as
ligas dos bairros participavam. Era um trabalho
essencial
para a existência do esporte na cidade, que culminou
com
a inauguração do Ginásio de Esportes Aníbal Brito. Foi
uma luta que saiu praticamente de dentro da Rádio
Bahiana
(MOURA, 24/05/2011).
Merece registro a chegada do locutor Tony Silva à Rádio
Bahiana
de Jequié para narrar futebol. No início da década de 1990
o veterano
José Mariano já não narrava os jogos com a mesma
freqüência. Foi
então que Tony, locutor de grande sucesso na Estação 93 FM,
passou
a narrar futebol aos domingos, sem, contudo, se desligar da
93 FM.
Posteriormente, em meados de 1991 Tony Silva montou a
equipe de
esportes da 93 FM, deixando a Rádio Bahiana de Jequié.
2.6 Fatos pitorescos
Neste capítulo serão narrados alguns fatos curiosos que
aconteceram
na Rádio Bahiana de Jequié. Histórias que fazem parte do
anedotário
daqueles que trabalharam na emissora.
Começaremos pelo locutor que se recusava a anunciar nomes
de
certas músicas, como “Tô com o diabo no corpo” com Nara
Leão e
“Meu homem” com Fafá de Belém, conforme lembra Inaldo
Sardinha:
Ele sempre anunciava uma dose tríplice: “nós vamos
ouvir
agora Jessé com Porto Solidão, Vanderlea com Prova de
Fogo, mas essa aí eu não anuncio não, pode rodar, mas
eu não anuncio”. Era a música de Fafá de Belém, Meu
Homem (SARDINHA,
11/03/2011).
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64 Judson Pereira de Almeida
Quando a música “Chão de Estrelas”, composta por Orestes
Barbosa
e Sílvio Caldas e originalmente interpretada por este, foi
gravada
pelos Mutantes, deu-se a revolta dos românticos e fãs de
Sílvio Caldas.
A releitura dos Mutantes foi uma sátira, um deboche mesmo à
canção
que tanto embalou juras de amor.36 Inconformado, Geraldo
Teixeira,
coordenador de programação da Rádio Bahiana proibiu a
veiculação
da música na emissora, por entender ser a regravação uma
blasfêmia à
Música Popular Brasileira. Conta Aroldo Vieira que, para ter certeza de
que a música não seria tocada em nenhum horário na
emissora, Geraldo
“(...) riscou com um prego o disco, e riscou mesmo a faixa,
para que
ninguém tocasse a música” (VIEIRA, 13/03/2011). Da mesma
forma a
música “Cálice” de Chico Buarque e Gilberto Gil, composta
no período
da repressão militar, foi riscada. A composição é um
exemplo de jogo
lingüístico feito para driblar a censura e transmitir
mensagens contra o
regime de exceção. Em um primeiro momento Geraldo não
compreendeu
a mensagem e baniu a música da programação da Rádio
Bahiana:
“(...) ele falou para mim, pessoalmente: ‘isso é uma falta
de respeito
com a Igreja’” (MENDES, 12/03/2011).
Quando Daniel Andrade assumiu a prefeitura de Jequié nomeou
como seu assessor um cidadão chamado Roque Sampaio,
apelidado
de Roque Preto, alcunha detestada pelo dono. Certa feita,
quando o
Tenente Lima era o responsável pelo departamento de
notícias da Rádio
Bahiana, o assessor foi até a emissora para falar com o
tenente: “Seo
tenente, eu perdi meus documentos e gostaria que o senhor
anunciasse
na rádio” (SANTANA 2, 26/03/2011). O anúncio foi feito no Grande
Jornal Falado das
22h00. No dia seguinte o dito Roque Preto foi à
rádio dizer uns desaforos ao tenente, por conta do anúncio
da noite anterior:
“Eu quero que você me respeite, meu nome não é Roque Preto”
(SANTANA 2, 26/03/2011). Ficou prometido ao assessor que
seria divulgada
uma nota retificando o equívoco, redigida e lida ao microfone
da seguinte maneira: “Senhoras e senhores, ontem nós
anunciamos que
Roque Preto perdeu os documentos. Não é Roque Preto é Roque
Sampaio.
É que o senhor Roque Sampaio é conhecido como Roque Preto”
(SANTANA 2, 26/03/2011). Mais uma vez Roque Preto foi à
rádio e
deu-se uma grande confusão.
36Chão de Estrelas, com Os Mutantes, disponível em http://www.youtube.
com/watch?v=bIPEj_ZMAyo.
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A Rádio Bahiana de Jequié 65
Em meados da década de 1980, no início do movimento musical
denominado Axé
Music, a música “Chupa Toda” estava no topo
das
paradas de grande parte das rádios da Bahia. Era carnaval
em Jequié
e a música mais executada pelas bandas nos clubes e na
festa de rua
era “Chupa Toda”, com letra de duplo sentido, de causar
arrepios nos
mais conservadores e moralistas. Na cobertura da festa de
Momo, João
Mendes avistou o capitão Ranulfo, comandante do
policiamento na
cidade e resolveu entrevistá-lo ao vivo. Primeiro o
repórter pediu ao
militar que fizesse um balanço das ocorrências até o
momento. Feliz
com a pergunta o capitão respondeu com desenvoltura.
Terminado o
balanço foi surpreendido com o seguinte questionamento: “Capitão,
e
essa música aí, ‘Chupa Toda’?” (MENDES, 12/03/2011)
Desnorteado,
olhou furioso para João Mendes e limitou-se a dizer: “Prefiro
não falar.
Sem comentários” (MENDES, 12/03/2011).
Um fato triste, mas que não deixa de ser curioso, aconteceu
na
sacada do prédio da Rádio Bahiana. De vez em quando um
radiooperador,
em estado etílico, cismava em jogar discos velhos de vinil
em
cima do telhado do Edifício Grilo, em frente à emissora.
Gostava de ver
o brilho do vinil pairando no ar até cair no prédio
vizinho. Certa feita,
a bebida foi ingerida mais que o de costume, o radioperador
resolveu
“lançar” mais um disco. Foi quando perdeu o equilíbrio e
despencou da
sacada da rádio, do segundo andar: “Foi jogar e desceu,
bateu a nuca
no meio fio e morreu” (TEIXEIRA, 12/03/2011). Quando o
Edifício
Grilo foi demolido foram encontrados alguns discos “lançados”
pelo
rádiooperador.
No programa A
Hora do Fazendeiro, como já dito, dezenas de recados
eram lidos todos os dias. Todas as notas que chegavam
manuscritas
eram passadas a limpo para que fossem lidas no ar, sem
erros. Ler
os recados sem passar a limpo era um perigo, significava
erro certo.
Certa feita o locutor (não foi Ari Santana, neste dia o
titular do programa
não estava em serviço) assumiu o risco de decifrar a letra
de
quem escreveu a nota, e assim o recado foi para o ar: “Atenção
fulana
de tal na fazenda de seo Altamirando. Sua mãe avisa que já
está
morando na rua com o Nego Jacinto”. Achando o recado um
tanto
estranho, leu mais uma vez a nota, só então conseguindo
compreender
o que estava escrito: “Perdão ouvintes, na Rua Cônego
Jacinto”.
Este mesmo locutor, quando do lançamento do primeiro LP da
banda
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66 Judson Pereira de Almeida
Os Paralamas do Sucesso no final da década de 1970 anunciou efusivamente
na Rádio Bahiana: “Nós acabamos de ouvir Os Palerrrrmas
do Sucesso” (SARDINHA, 11/03/2011). Foi quando Inaldo
Sardinha
chamou a atenção do locutor, e a correção veio de imediato:
“O garoto
Sardinha está aqui me informando que o cantor é Os
Paralamas do
Sucesso” (SARDINHA, 11/03/2011). Errou da mesma forma.
Tratase
de uma banda...
Na lembrança dos que trabalharam na Rádio Bahiana de Jequié
está
viva a figura de “Antena”, pseudônimo usado por alguém que
escrevia
semanalmente no Jornal de Jequié sobre os bastidores da
rádio, erros
e gafes porventura cometidos pelos locutores no ar. “Você
errava e
ele mandava brasa no jornal”. (SANTANA 1, 26/03/2011) “Antena”
opinava sobre quase tudo, quase sempre em tom irônico. “Ele
Sabia de
muita coisa” (ARGOLO, 25/03/2011). Lembra Virgílio Argolo:
Geraldo Teixeira, por exemplo, comprou um livro pelo
reembolso
postal de inglês, para aprender inglês. Então “Antena”
publicou isso, e ninguém sabia na rádio. Geraldo ficou
intrigado com aquilo: “como é que esse cara soube, eu
fui receber no Correio e não disse a ninguém (ARGOLO,
25/03/2011).
Outra polêmica protagonizada por “Antena” deu-se após uma
crítica
virulenta feita por ele no Jornal de Jequié a um narrador
de futebol
da Rádio Bahiana. Depois de uma transmissão de futebol em
Ilhéus,
“Antena” não mediu palavras e criticou veementemente o que
havia sido
dito pelo narrador e pelo comentarista da equipe de
esportes. No dia
seguinte à publicação o narrador esportivo achou por bem
responder
a “Antena” no ar, no programa de esportes, conforme narra
Virgílio
Argolo:
(...) ele disse: “Olha
Antena, eu sou homem viu? Aqui eu
falo com meu nome, a responsabilidade é minha, e você
a gente não sabe quem é porque se esconde atrás de um
pseudônimo, de Antena. Eu sou homem! (ARGOLO, 25/
03/2011).
A resposta de “Antena” não tardou. Na publicação seguinte,
para desespero
do locutor esportivo “Antena” sentenciou: “Fulano de tal,
repita
sempre que é homem, senão ninguém sabe” (ARGOLO,
25/03/2011).
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A Rádio Bahiana de Jequié 67
“Antena” nunca foi descoberto. Até os mais antigos da Rádio
Bahiana
não sabem de quem se tratava. Pairam dúvidas e
especulações, mas
não se sabe ao certo quem conseguiu mexer tanto com os
bastidores do
mundo radiofônico de Jequié.
Desconfiavam que era Virgílio Argolo, mas ninguém
descobriu.
Wilson Novaes não era porque era menino, o pai
dele não frequentava a rádio e quase não ligava para
essas
coisas. Adauto Cideira também não foi (SANTANA 1,
26/03/2011).
“Até hoje ninguém sabe quem é “Antena”, circulam boatos,
mas
ninguém sabe ao certo” (ARGOLO, 25/03/2011). Wilson Novaes
Júnior,
filho do jornalista e poeta Wilson Novaes, que desde menino
conviveu
na redação do Jornal de Jequié afirma que nunca descobriu
quem
era “Antena”: “Eu já li, mas não sei quem era, era alguém
que estava
lá dentro, mas nunca descobri” (NOVAES JÚNIOR, 26/03/2011).
Certamente
o segredo da identidade de “Antena” partiu com o jornalista
Wilson Novaes, editor do Jornal de Jequié.
2.7 Os programas religiosos
Desde os primeiros anos a Rádio Bahiana de Jequié abriu
espaço para
programas religiosos. Transmissões de missas e de
festividades ligadas
à Igreja Católica eram comuns. As missas de Santo Antônio,
padroeiro
da cidade, eram levadas ao ar durante o trezenário no mês
de junho,
conforme nos informa Cid Teixeira: “A gente transmitia todo
trezenário,
hoje você não vê nem o dia da missa transmitir. Transmitia
a missa e a
quermesse. Também eram feitos flashes da
festa em frente à catedral”
(TEIXEIRA, 12/03/2011). Ainda segundo Cid Teixeira, os
donos da
emissora, Lomanto Júnior e seu filho Leur Lomanto, muito
religiosos e
devotos de Santo Antônio, participavam ativamente da festa
em louvor
ao santo e, ao final da missa, faziam questão de levar a
sua mensagem
aos jequieenses, aproveitando o ensejo religioso:
A gente transmitia a missa, logo em seguida ele dava
entrevista
lá na sacristia mesmo. Leur também a mesma coisa.
Terminava a missa eles mandavam as mensagens deles
(TEIXEIRA, 12/03/2011).
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68 Judson Pereira de Almeida
Na sexta-feira da paixão a Rádio Bahiana apresentava uma
programação
religiosa especial. Conta o jornalista Wilson Novaes
Júnior:
Sexta-feira santa tinha o cineminha que passava a
Paixão
de Cristo. Em seguida a gente sentava à mesa para
almoçar
e ali a Rádio Bahiana só ficava com música
instrumental,
religiosa. Não passava nada na programação, era
só música instrumental (NOVAES JÚNIOR, 26/03/2011).
Durante um período, nas tardes de sábado, a Bahiana de
Jequié
levou ao ar o programa A Voz da Diocese,
dirigido por integrantes da
Igreja Católica.
As igrejas protestantes também tiveram espaços na Rádio
Bahiana.
Aos domingos, às 07h00 da manhã ia ao ar o Voz Batista de Jequié, programa
da Primeira Igreja Batista. Destaque para os pastores
Natanael
Quadros, Flordenísio Sampaio e Jess Carlos Monteiro na
apresentação
do programa. Em seguida, às 07h30 era a vez de A Voz da Profecia,
da
Igreja Adventista do Sétimo Dia, apresentado pelos membros
da igreja
local, a exemplo de Sílvio Cardoso e Amastorzinho Cidreira
(sobrinho
de Adauto Cidreira) tendo como pregador o pastor Roberto
Rabelo, em
mensagens gravadas, enviadas do Rio de Janeiro. Às 08h00 o
último
programa evangélico da manhã era o Marchando com Cristo, da Igreja
Batista de Jequiezinho (Segunda Igreja Batista de Jequié).
A partir da
segunda metade da década de 1980, a Igreja Batista Sião
passou a dirigir
um programa, também com duração de trinta minutos, que ia
ao ar
nos finais das tardes de domingo.
O programa Marchando
com Cristo estreou na ZYN – 27 no dia 03
de junho de 1963. Era apresentado geralmente por membros da
igreja.
O pastor pregava a mensagem do Evangelho por cerca de oito
minutos.
O programa quase sempre tocava três músicas e, além da
mensagem
Bíblica, trazia os aniversariantes da semana e o calendário
de atividades
da igreja. Na abertura do programa ouvia-se a voz do
locutor Edísio
Santana anunciar ao som da Aleluia de
Händel:
A Igreja Batista de Jequiezinho patrocina e a Rádio
Bahiana
de Jequié apresenta agora, Marchando com Cristo.
Marchando com Cristo é um programa de fé e oração que
glorifica ao Senhor. E para a apresentação de Marchando
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A Rádio Bahiana de Jequié 69
com Cristo aqui estão o pastor Júlio de Santana e a
jovem
Gersonete Fernandes (SANTANA 2,26/03/2011).
Muitas pessoas passaram pela direção e apresentação do Marchando
com Cristo, a
exemplo dos irmãos Heleno e Helena Pereira, de Raimundo
Matos e Jalon Leal, Gersonete Fernandes e Irineu Oliveira.
Os pastores
que por mais tempo falaram do Evangelho no Marchando com
Cristo foram
Antônio Abílio de Carvalho e Júlio de Santana. Pregadores
leigos como Jaime Antônio, Jalon Leal e Aristóteles Matos
também tiveram passagem pelo programa. O pastor Antônio
Abílio
de Carvalho, em suas mensagens no rádio, não poupava
criticas às outras
religiões, inclusive a Católica, mesmo sendo os donos da
emissora
devotos fervorosos do padroeiro da cidade, como narra
Helena Pereira:
Não contava história. Ele falava e repercutia muito na
cidade, o povo católico não gostava. Ele mostrava na
Bíblia
que não podia conduzir imagem de escultura em
procissão.
O povo comentava que o pastor falava, até muitos
crentes achavam que ele não deveria falar, mas ele
falava,
não tinha medo não (PEREIRA1, 26/03/2011).
Não há relatos de que a direção da Rádio Bahiana tenha
notificado
ou repreendido o pastor Antônio Abílio por tais
declarações.
Segundo Cid Teixeira todos os programas religiosos da Rádio
Bahiana
de Jequié eram pagos. A emissora abria espaço para as
igrejas que
ele denomina como oficiais, não acolhendo programas
daquelas de linha
neopentencostal: “A gente só não aceitava programa da
igreja de Edir
Macedo, da Universal, só da Batista que é oficial e a
Católica” (TEIXEIRA,
12/03/2011).
Narra Cid Teixeira que pessoas ligadas a igrejas
evangélicas que não
tinham programas na rádio recorriam ao proprietário Lomanto
Júnior no
intuito de obter espaço na emissora na confiança de que a
recomendação
do político e dono da rádio seria suficiente para
conseguirem um espaço
em horário nobre: “Tinha uns dessas religiões que eu chamo
da sacolinha,
chegava para arranjar um horário, aí Lomanto dizia: Cid,
arranja
um horário aí para fulano de tal” (TEIXEIRA, 12/03/2011).
Mas o diretor Cid Teixeira não baixava a guarda, e oferecia
espaços
pouco atrativos, como de 5h00 às 6h00 da manhã, o que não
era aceito:
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70 Judson Pereira de Almeida
“Aí ele saia, ia lá para Lomanto. Lomanto dizia: se ele
disse que não
tem... Lomanto era um cara que não dava opinião nenhuma”
(TEIXEIRA,
12/03/2011).
Mas outras igrejas, além da Batista e da Católica, também
tiveram
espaços na Rádio Bahiana de Jequié, como a Igreja do
Evangelho Quadrangular.
Desde que foi implantada na cidade a igreja comprou um
pequeno horário diário nas manhãs da emissora.
Nos anos 80 estreou na Bahiana de Jequié do meio dia às
duas da
tarde de domingo o programa “gospel” As Mais e Mais Evangélicas,
dirigido e apresentado por Luciano Gonçalves. Era um
programa com
uma linguagem jovem, com maior variedade musical que os
demais e
que abria espaço para toda comunidade evangélica. Com o fim
do programa
surgiu o Paz
Pra Cidade que ocupou o mesmo horário de As Mais
e Mais Evangélicas,
e pertencia a ASSEJ, Associação dos Evangélicos
de Jequié. O
Paz Pra Cidade marcou época na Rádio Bahiana. Contou
com a apresentação de Edgar Júnior, Juscelino Guimarães e
Paulo
César Valverde (radioperador da Bahiana recém convertido).
No Paz
Pra Cidade foi
feita a campanha para a compra do sítio onde foi instalado
o centro de recuperação de dependentes de álcool e drogas,
o
SERLIVRE, mantido pelos evangélicos e em funcionamento até
os dias
atuais. Em 1991 saiu da Bahiana de Jequié e estreou na 93
FM, passando
depois pela 95 FM até ser extinto nos idos de 1998.
Os programas religiosos da Rádio Bahiana foram extintos no
início
da década de 1990, quando a emissora passou por uma
reformulação,
promovida pelo Sistema Nordeste de Comunicação, pertencente
ao grupo de Pedro Irújo. A emissora elevou o preço dos
contratos de
maneira tal que as igrejas não manifestassem interesse em
renová-los.
2.7.1 A
Hora do Angelus
O programa apontado como o de maior audiência entre os de
cunho
religioso e um dos de maior audiência na grade de
programação da Rádio
Bahiana era a Ave
Maria, ou a Hora do Ângelus,
apresentado por
Geraldo Teixeira. De segunda a sábado às 18h00 era tradição
ouvir
Geraldo ler pedidos de oração e mensagens sacras, culminava
com a
leitura da oração Ave
Maria, de forma solene e dolente. Em
seguida era
veiculada a Ave
Maria, na voz de vários cantores, com
destaque para
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A Rádio Bahiana de Jequié 71
a Ave Maria de Franz Schubert interpretada por Stevie Wonder. A voz
grave e marcante de Geraldo era “a cara“ da Hora do Angelus da
Rádio
Bahiana. Segundo Cid Teixeira “(...) na hora da Ave Maria
se Geraldo
não fizesse aquele horário ele ficava doente” (TEIXEIRA,
12/03/2011).
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72 Judson Pereira de Almeida
3 O fim da Rádio Bahiana de Jequié
Neste capítulo cabe um retorno ao ano de 1960, quando a
Rádio Bahiana
foi vendida pelo grupo Rádiointerior para Antônio Lomanto
Júnior,
então prefeito de Jequié, eleito pela segunda vez. A
emissora passava
por dificuldades financeiras e Alceu N. Fonseca tentava
convencer Lomanto
a investir no negócio: “O Alceu, eu soube que foi a
Lomanto,
na época, que era para Lomanto ajudar. Lomanto não queria”
(TEIXEIRA,
12/03/2011). O grupo Rádiointerior chegou a enviar para
Jequié
uma gravação informando o fechamento da Bahiana: “um disco
da Rádio
Sul Fluminense gravado no Rio de Janeiro, de Alceu Fonseca,
despedindo
e agradecendo, quando a família Lomanto comprou a rádio”
(SANTANA 1, 26/03/2011).
Cid Teixeira e Adauto Cidreira, a convite de Lelivaldo
Brito, cunhado
de Antônio Lomanto Júnior, assumiram a direção da Rádio
Bahiana.
Encontraram a emissora com sérios problemas financeiros. A
receita
advinda dos anúncios publicitários era pequena, a emissora
tinha
dívidas e estava sem crédito para fazer compras no comércio
local.
A primeira coisa que encontrei lá foi para trocar um
fio
elétrico. Eu mandei ver na casa comercial de Deusdete
Amaral. Deusdete disse que para a rádio não vendia, mas
para mim vendia. A rádio estava sem crédito (TEIXEIRA,
12/03/2011).
Além de recuperar o crédito na praça outra medida foi a
regularização
de todos os funcionários da emissora junto ao Ministério do
Trabalho, já que, até então nenhum tinha a Carteira de
Trabalho e Previdência
Social assinada. “Convoquei todos eles juntamente com
Adauto
Cidreira e procuramos legalizar. Em março nós legalizamos
todos
eles, março de 1960” (TEIXEIRA, 12/03/2011).
Contrariando a previsão extremamente otimista de Adilson
Almeida,
a resposta do comércio local/regional não foi satisfatória
para a
manutenção da Rádio Bahiana. Segundo Cid Teixeira “A rádio
não
dava lucro. Não é como hoje, o comércio hoje contribui
bastante” (TEIXEIRA,
12/03/2011). A receita maior vinha de programas oficias
como
os da Prefeitura Municipal e Câmara de Vereadores, dos
programas das
igrejas evangélicas e de programas de grande audiência produzidos
pela
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A Rádio Bahiana de Jequié 73
própria emissora, como A Hora do Fazendeiro e Músicas e
Informações.
Dos demais a receita era ínfima. “Tinha os comerciais de
fora também,
por exemplo: Kolynos37, Malzebier... de fora eram vários, mas
da
cidade mesmo, poucos” (TEIXEIRA, 12/03/2011). A empresa
vivia no
limite da receita, suficiente para pagar as despesas.
Com a chegada da primeira emissora em freqüência modulada
de
Jequié, no dia 13 de junho de 198638, as dificuldades
financeiras da
Rádio Bahiana se agravaram. Tanto é que os funcionários
chegaram a
tirar a emissora do ar em protesto pelo atraso do pagamento
do décimo
terceiro salário. Lembra Inaldo Sardinha:
Quando deu 18h00 Geraldo Teixeira estava se preparando
para fazer a Ave Maria e nós tiramos a rádio do ar. Seo
Cid
perguntou o que foi e todos assumiram o ato. Foi a
primeira
vez que eu vi um ato de coragem do grupo de
funcionários
da rádio (SARDINHA,
11/03/2011).
A Cidade Sol FM era uma novidade, o FM trouxe uma qualidade
de som muito superior ao do AM; audiência e anunciantes,
principalmente
estes, aos poucos, começaram a migrar para a nova emissora.
“O
impacto foi na parte comercial. Se já era ruim, aí agora
piorou” (TEIXEIRA,
12/03/2011). Aroldo Vieira, então gerente comercial da
Cidade
Sol FM, lembra-se da facilidade em comercializar espaços
publicitários
na emissora. “Era muito fácil porque era novidade, tudo era
novidade,
tudo que tentasse vender vendia” (VIEIRA, 13/03/2011),
apesar de,
naquela época, ainda segundo Aroldo Vieira, a venda de
publicidade
37Música e Alegria Kolynos. Programa gravado em um LP que,
depois de veiculado,
era sorteado entre os ouvintes. “Foi na época o lançamento
dos Beatles, tinha
muita coisa”. (VIEIRA,13/03/2011)
38No dia 13
de junho de 1987, acabava de assistir à missa festiva de encerramento
dos festejos em louvor a Santo Antônio, padroeiro da
cidade de Jequié, quando tomei
conhecimento de que na Rua Padre Altino Freire, a
poucos metros da Catedral, estava
sendo inaugurada a Rádio Cidade Sol LTDA – 94,9, a
primeira emissora em Frequência
Modulada da região. Aguçada a curiosidade, dirigi-me ao
local em companhia
de outras pessoas. Lá chegando, estúdio lotado, muitos
convidados, observei Manoel
Almeida Sampaio “Maneca”, primeiro gerente da nova
emissora, de microfone em
punho, apoiado na bancada dos pick-ups, no papel de
mestre de cerimônias, conduzindo
a inauguração, apresentando a equipe de comunicadores e
abrindo espaço
para depoimento dos presentes (NOVAES JÚNIOR, 2006, P. 50).
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74 Judson Pereira de Almeida
em Jequié ser feita “(...) amadoristicamente, porque não se
tinha aquela
coisa de profissionalismo que o momento pedia” (VIEIRA,
Aroldo).
E assim, em um processo lento, a Bahiana de Jequié
enfrentava cada
vez mais dificuldades para cobrir suas despesas. “Acredito
que a Rádio
Bahiana deve ter sentido muito” (VIEIRA, 13/03/2011).
No final da década de 1980 a família Lomanto decidiu vender
a
Rádio Bahiana, coincidindo com a implantação, pelo então
deputado
federal Leur Lomanto (filho de Lomanto Júnior), da Estação
93 FM,
segunda emissora em freqüência modulada da cidade,
inaugurada em
setembro de 1989. O veterano radialista Gilmar Azevedo,
trazido para
Jequié por Leur com a missão de implantar a nova emissora
relata a
impressão que teve da Rádio Bahiana:
Que ela já fazia parte do passado, completamente
abandonada
pelos seus proprietários, não tinha agressividade,
não procurava inovar, me parecia viver do passado. O
próprio prédio onde a rádio estava instalada dava essa
impressão
(AZEVEDO, 02/06/2011).
Segundo Ari Moura a falta de investimentos que culminou com
a
venda da BahianaAMpela família Lomanto pode ter sido
desencadeada
porque a emissora não rendia dividendos políticos para o
grupo:
Eu não acredito que ela tenha influenciado tanto, por
exemplo,
na eleição de Lomanto Júnior para governador do
Estado, ela deu uma contribuição muito local, mas em
nível
estadual não dava porque ela não era ouvida em todos os
municípios da Bahia. A própria eleição do Leur Lomanto
por um, dois ou três mandatos no início da carreira
dele
também não deve ter tido muita influência. Então eles
resolveram
vender a rádio (MOURA,
24/05/2011).
Primeiro a emissora foi adquirida pelo grupo do então
deputado
Marcos Medrado, um empresário da capital baiana.
Pouquíssimo tempo
depois foi vendida para Pedro Irújo, proprietário do
Sistema Nordeste
de Comunicação (detentor de emissoras de rádio em Salvador
e cidades
do interior e da TV Itapoan, na época afiliada do Sistema
Brasileiro de
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A Rádio Bahiana de Jequié 75
Televisão), e também deputado. O grupo chegou com a
proposta de reformular
a Rádio Bahiana, implantar equipamentos modernos, adequála
aos novos tempos. Foram instalados alguns equipamentos mais
modernos,
inclusive um computador para a veiculação de vinhetas e
comerciais.
A grade de programação da emissora sofreu alterações. Com
o fim do programa Músicas
e Informações, Geraldo Teixeira assumiu
o posto de noticiarista. Mascarenhas Filho, que comandava
das 14h00
às 17h00 o Clube
da Juventude, passou a apresentar o Show da Manhã.
Por algum tempo, no horário da tarde foi veiculado A Tarde
é Nossa,
um programa produzido pelo Sistema Nordeste, gravado em
fitas K7
e apresentado por Beto Moreno. Edísio Santana também
apresentou A
Tarde é Nossa. A
Rádio Bahiana fez transmissões em cadeia com outras
emissoras do grupo, como partidas de futebol da Copa do
Mundo
de 1990 e o programa Balanço
Geral, da Rádio Sociedade da Bahia,
apresentado,
na época, por Raimundo Varela e Djalma Costa Lino. Neste
período a emissora já amargava uma queda sem precedentes em
sua audiência
e credibilidade junto ao público e aos anunciantes. Não
havia
mais o interesse de antes pelos programas musicais e de
serviço. A
cidade vivia o auge da Estação 93 FM (que também superou a
Cidade
Sol FM em audiência), com sua ótima qualidade de áudio e
uma programação
popular, com o locutor Tony Silva e sua grande audiência
nas
manhãs de segunda a sábado. Só o jornalismo conseguiu ter
fôlego em
meio à crise. “Pelo menos no jornalismo a gente conseguia
uma boa
audiência de manhã, ao meio-dia, e ainda tinha um programa
no final
da tarde que trazia informações também” (MOURA,
24/05/2011).
As mudanças que prometiam resgatar os tempos áureos da
Rádio
Bahiana de Jequié acabaram por dar início a um longo
processo de
decadência. “Aí a rádio foi entrando em descrédito (...).
Trouxeram de
Ipiaú uma coordenadora, essa coordenadora se perdeu”
(SARDINHA,
11/03/2011). Uma providência foi enxugar o quadro de
funcionários.
Vários locutores/operadores que por muito tempo fizeram
parte da equipe
foram desligados da empresa. Um dos primeiros foi Inaldo
Sardinha,
que passou a apresentar um programa de esportes na 95 FM.
Depois
mais demissões:
João Mendes, Mascarenhas Filho, Tadeu Antônio, Edísio
Santana e tantos outros profissionais que trabalhavam
na
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76 Judson Pereira de Almeida
rádio, eles quiseram enxugar, achavam que tinha um
número
grande de profissionais e foram tirando gradativamente
o pessoal, que culminou também com a minha saída
(MOURA, 24/05/2011).
O patrimônio físico da rádio também começou a ser desfeito.
Equipamentos
obsoletos, mas ainda importantes foram retirados, levados
para outras emissoras, e substituídos por outros em
condições ruins.
“Eles começaram a sucatear, tirar parte dos equipamentos da
emissora
daqui, equipamentos bons e deixar aqui praticamente a
pelanca” (SANTANA
2, 26/03/2011). “Pedro Irújo mandou colocar um transmissor
novinho aqui, com potência de 10 KW, mas um gerente de
Feira de
Santana, Moacir Mansur, disse que não valia à pena, que não
tinha retorno”
(SANTANA 1, 26/03/2011).
Uma verdadeira tragédia não só para o patrimônio da Rádio
Bahiana,
mas para o patrimônio histórico e cultural de Jequié foi o
desfazimento
de documentos importantes acumulados por mais de quatro
décadas, como as Crônicas de Luiz Cotrim, Fernando Barreto,
Adauto
Cidreira. “Na rádio tinha tudo isso aí arquivado, a mulher
jogou tudo
fora” (TEIXEIRA, 12/03/2011). A discoteca com milhares de
discos
foi desmantelada. Também por ordem da coordenadora enviada
pelo
Sistema Nordeste de Comunicação milhares de discos foram
jogados
fora. “Foi o maior crime da história! A Rádio Bahiana tinha
um acervo
fora de série. Discos de 78 rotações, LPs, compactos”
(SANTANA 1,
26/03/2011).
Todas as estratégias empregadas pelo Sistema Nordeste de
Comunicação
não deram certo. A rádio estava ainda mais decadente e o
grupo
perdeu o interesse pela emissora. Segundo relata Ari Moura
esta perda
de interesse também se deu por fatores de ordem política:
Eles adquiriram rádio aqui em Jequié, em Ipiaú, Feira
de
Santana e outras cidades da Bahia e formaram uma rede,
porque tinham uma finalidade política. Pedro Irújo
queria
ser governador da Bahia e não conseguiu (MOURA,
24/05/2011).
Na segunda metade da década de 1990 a Rádio Bahiana foi
vendida
mais uma vez. Passou ao controle do Sistema Jequié de
Comunicação,
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A Rádio Bahiana de Jequié 77
do então vereador Euclides Nunes Fernandes. Nenhum
investimento
significativo foi feito. Foi desfeita a sonotécnica e toda
a aparelhagem
colocada dentro da cabine de locução, funcionando o
operador também
como locutor. A emissora continuava com uma péssima
qualidade de
som, o estúdio completamente sucateado, o prédio sede da
emissora
degradado. Tudo tinha um aspecto lúgubre, de abandono,
conforme
relata Nancy Dias, locutora da 93 FM deslocada para cumprir
horário
na Rádio Bahiana:
O prédio estava muito desgastado, o banheiro já não
existia
mais, muito morcego, muitas cadeiras jogadas.
Equipamento
velho, tudo muito antigo, tudo muito desgastado pelo
tempo. (...) Era tudo escuro, parecia uma casa do
terror.
As salas foram ficando vazias. A sala de redação, a
sala
do diretor foram ficando abandonadas, uma máquina de
escrever ficou muito tempo lá jogada (DIAS, 13/03/2011).
O horário de funcionamento da rádio foi reduzido. Antes a
programação
era levada ao ar das 05h00 às 00h00. Passou a ser
transmitida
das 05h00 às 20h00. Ligação de ouvintes ou cartas se
tornaram raras.
As pessoas não ligavam, tocavam música direto, a tarde
inteira. Era só um CD, terminava um CD botava outro,
ninguém falava mais nada, já não tinha hora, já não
tinha
mais nada (DIAS,
13/03/2011).
Em uma emissora em que no passado cartas chegavam a
centenas,
as poucas recebidas eram motivo de alegria: “Eu tinha uma
audiência
razoável de receber, por semana, até quatro cartas. Era o
ápice conseguir
receber quatro cartas naquele finalzinho. Era muito bom”
(DIAS,
13/03/2011).
Também não havia mais publicidade na rádio. Só músicas e
algumas
vinhetas.
Teve um tempo que já não se veiculava mais nada.
Algumas
coisas que tinha eram em um cartucho, mas com o tempo
o cartucho já não foi mais dando certo, já não foi mais
servindo. Como a 93 FM tinha um estúdio de gravação
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78 Judson Pereira de Almeida
então pegavam algumas coisas deles. Trouxeram um
aparelho
de MD (mini disc), aí a gente tocava muita coisa no
MD (DIAS,
13/03/2011).
A Hora do Fazendeiro foi o único programa que na fase aguda de
decadência da Rádio Bahiana ainda era apresentado, por João
Vasconcelos.
Os poucos patrocinadores do programa (espaços publicitários
vendidos por valores muito baixos) eram lidos pelo próprio
locutor, ao
vivo.
Jornalismo local não tinha mais. Algumas informações,
às
vezes. Lia notícia de jornal, sempre do Jornal A Tarde
e de
outros jornais que a gente pegava. Jornais da cidade,
mas
a maioria era se Salvador (DIAS, 13/03/2011).
No ano 2000 Euclides Fernandes vendeu a Rádio Bahiana de
Jequié
para a Igreja do Evangelho Quadrangular. Assumiu a direção
geral
o pastor Josué Augusto. Uma das primeiras providências foi
mudar a
sede da emissora. Depois de quarenta e seis anos a Bahiana
saiu da
Rua 2 de Julho, no centro da cidade e passou a funcionar na
Avenida
Franz Gedeon no 882, ao lado do templo da Igreja
Quadrangular. Alguns
equipamentos foram trocados. Dois técnicos foram
contratados
para melhorar a qualidade de áudio da Rádio Bahiana.
Algumas peças
do transmissor foram substituídas, e o ruído no sinal
diminuído. Irineu
Oliveira, que assumiu a coordenação da rádio, foi até
Governador Valadares
– MG buscar uma mesa de áudio usada, adquirida da Rádio
Novo Tempo (emissora ligada aos Adventistas do Sétimo Dia)
daquela
cidade. A mesa antiga da Bahiana já não tinha mais
condições de uso.
A Rádio Bahiana de Jequié passou a ser chamada de Nova
Bahiana
AM, um marco para a nova fase. Alguns locutores foram
trazidos de
volta, como Jota Narciso, Edísio Santana e Inaldo Sardinha
(que passou
a trabalhar na Bahiana concomitante com a 95 FM). “Ary
Santana foi
recontratado nesta fase, e reassumiu A Hora do Fazendeiro”
(DIAS,
13/03/2011). Outros profissionais mais jovens também foram
trazidos,
como Danúbio Alves. Também assumiu um programa matutino
Tony
Silva, que, nesta época, estava na 95 FM e trabalhou
concomitantemente
na Bahiana. Foi montada uma nova grade de programação e
mantido o
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A Rádio Bahiana de Jequié 79
sucesso A
Hora do Fazendeiro. “Resgataram algumas vinhetas,
criaram
novas vinhetas” (DIAS, 13/03/2011).
Houve uma melhora na audiência da emissora. Mas com o
passar do
tempo uma nova crise se abateu. Em 2004Wando Pereira foi
convidado
para assumir a coordenação. Foi feita uma tentativa de
transformar a
programação em Gospel.
Nós passamos um período fazendo a programação secular.
Depois pensamos juntamente com a direção em tentar
o segmento Gospel. Passamos um período com o segmento
Gospel, também não foi aceito, tendo em vista as rádios
piratas evangélicas e católicas, então o comércio não
abraçava esse segmento (PEREIRA 2, 28/05/2011).
A direção da Igreja do Evangelho Quadrangular não teve
interesse
em bancar a emissora financeiramente.
Nós tivemos muita dificuldade porque não entrava
comerciais,
eram poucas agências do governo que anunciavam
com a gente, fomos conseguindo algumas. Depois o tempo
melhorou quando nós conseguimos fechar uma programação
com a Igreja Universal. A entrada de dinheiro aumentou
um pouquinho, mas as dificuldades continuavam
(PEREIRA 2, 28/05/2011).
O dinheiro que entrava por meio de comerciais e do horário
arrendado
à IURD não era suficiente para cobrir as despesas,
inclusive pagar
a folha de salários.
Às vezes, chegava o final do mês e nós tínhamos que
juntar:
tem quanto? Tem X. Então vamos dar um pouquinho para
fulano, um pouquinho para sicrano pra ninguém ficar sem
nada. Não era nem um salário. Vamos dar 300 reais para
um, 200 reais pra outro e assim a gente ia dividindo o
pão
(PEREIRA 2, 28/05/2011).
Na tentativa de conseguir algum dinheiro que pudesse ajudar
a sanar
dívidas o pastor Josué Augusto desfez por completo do que
restara da
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80 Judson Pereira de Almeida
discoteca. LPs foram vendidos por 2, 1 real. Alguns foram
doados.
Outros jogados fora.
Depois de seis anos de tentativas o pastor Josué Augusto
também
desistiu da Rádio Bahiana de Jequié. O objetivo era, pelo
menos, vender
a concessão. “Por muitas vezes o pastor Josué falou: ‘vamos
fechar
isso, vamos fechar, eu vou tentar vender a concessão’. E
nada. E a
gente segurando” (PEREIRA 2, 28/05/2011).
Em um dia do ano de 2006, um empresário de Feira de Santana
chegou à Rádio Bahiana disposto a comprar a emissora. Foi
feita uma
reunião entre Roberto Pazzi e o pastor José Augusto, e a
venda foi selada.
A Rádio Bahiana de Jequié foi transferida para um prédio
construído
especialmente para ela no semi-anel rodoviário de Jequié.
Todo
o equipamento foi substituído, inclusive o transmissor,
transferido da
Granja Pindorama para o anexo do novo prédio. Durante um
curto
período a rádio foi chamada de Bahiana AM Rádio Povo,
depois apenas
Rádio Povo, como permanece até os dias atuais. Foi o fim de
uma das
mais antigas marcas na comunicação da Bahia. A Rádio
Bahiana de Jequié
deixou de existir. Ficou a referência do meio de
comunicação mais
importante para Jequié na segunda metade do século XX. Nas
palavras
de Gilmar Azevedo:
Foi sem dúvida alguma a referência do rádio em Jequié
nas últimas décadas do século XX, isso não se pode
negar.
Até a chegada das FMs a Bahiana comandava. Tanto que
conseguiu fazer Geraldo Teixeira vereador, fato que as
FMs
não conseguiram (AZEVEDO,
02/06/2011).
É de se lamentar a falta de zelo e o desfazimento de todo
um acervo
histórico de uma empresa que, na verdade, já se constituía
um
patrimônio histórico/cultural de Jequié. Segundo Ary
Santana o doutor
Milton de Almeida Rabelo39 dizia: “(...) olha, sou vereador,
vou propor
à Câmara votar, para a rádio ser reconhecida como
patrimônio de Jequié
para não ser vendida, mas os vereadores não votaram”
(SANTANA 1,
26/03/2011).
39Cirurgião dentista, pessoa de grande influência na
sociedade jequeense, professorfundador
da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, ex-vereador,
cunhado do
ex-prefeito e empresário Waldomiro Borges de Souza.
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A Rádio Bahiana de Jequié 81
Eu fui a um encontro de radiodifusão em Minas Gerais e
vi a história da Rádio Itatiaia desde que começou. Eles
guardam a primeira maleta de transmissão, o primeiro
transmissor, e têm o maior orgulho de expor isso (NOVAES
JÚNIOR, 26/03/2011).
Por derradeiro o fim da marca Bahiana de Jequié também se
constitui
a perda de uma referência histórica para a Cidade Sol.
Eu senti muito a perda da Rádio Bahiana. Em Ilhéus, por
exemplo, a Rádio Bahiana ficou anos e anos fora do ar,
mas
quando reestruturaram ela mais recentemente ela
continuou
com o nome de Rádio Bahiana de Ilhéus. Eu gostaria
que em Jequié tivesse acontecido a mesma coisa.
Infelizmente
não foi possível (MOURA,
24/05/2011).
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82 Judson Pereira de Almeida
Considerações finais
Nessas considerações finais é pertinente ressaltar que
todos os entrevistados
foram unânimes em afirmar que a Rádio Bahiana de Jequié
teve
importância indelével para a região na segunda metade do
século XX.
A Rádio Bahiana de Jequié foi implantada em um momento de
esperança
de crescimento para Jequié. Na visão de Adilson Almeida
a emissora poderia contribuir para o desenvolvimento
econômico da
região, ao tempo em que poderia ser mantida por meio dos
anúncios
publicitários do comércio local. Ficou constatado,
entretanto, que ao
longo de sua trajetória foram muitas dificuldades
financeiras enfrentadas.
A emissora reinou absoluta na comunicação radiofônica
jequieense
durante 32 anos. A concorrência era travada com as rádios
do eixo
sul/sudeste do país, o que não chegava a comprometer a
audiência da
Rádio Bahiana, porque as pessoas se interessavam pelos
assuntos locais
e regionais, ademais, as emissoras do sul e do sudeste só
tinham boa
recepção no período da noite.
Nos primeiros anos a tecnologia era incipiente,
equipamentos com
pouquíssimos recursos. Aos poucos a rádio foi se
modernizando, conseguiu
um aumento de potência no início da década de 1970, e se
tornou
uma emissora regional, passou a abranger vários municípios
vizinhos a
Jequié.
Enfrentou o período da Ditadura Militar e sofreu com a
censura imposta
pelo Golpe. Fez radioteatro, radiojornalismo, veiculou
radionovelas,
revelou talentos, transmitiu fatos marcantes.
Teve o seu acervo de documentos desfeito, informações
importantes
sobre Jequié e região foram perdidas. Mesmo assim emissora
se tornou
parte da própria história de Jequié. Por meio daqueles que
trabalharam
e viveram a Rádio Bahiana, foi possível arregimentar uma
memória coletiva,
sistematizá-la e resgatar parte desta história.
O assunto não se esgota. A Rádio Bahiana de Jequié pode ser
estudada
em aspectos mais particulares tendo em vista a amplitude de
sua
importância para a região. Que este trabalho de memória
seja um encorajamento
para outras pessoas que possam ter interesse sobre o tema e
um registro para as gerações vindouras.
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A Rádio Bahiana de Jequié 83
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84 Judson Pereira de Almeida
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Jequié/BA. IMES/FTC – Faculdade de Tecnologia
e Ciências, 2009. Trabalho inédito.
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A Rádio Bahiana de Jequié 85
Entrevistas
ARGOLO, Virgílio. Entrevista cedida a Judson Almeida no dia
25/03/
2011 em Jequié – Bahia.
AZEVEDO, Gilmar – Entrevista cedida a Judson Almeida via
Internet
no dia 02/06/2011.
DIAS, Nanci. Entrevista cedida a Judson Almeida no dia
13/03/2011
em Jequié – Bahia.
LOPES, Evandro – Entrevista cedida a Judson Almeida no dia
13/03/
2011 em Jequié – Bahia.
MENDES, João. Entrevista cedida a Judson Almeida no dia
12/03/
2011 em Jequié – Bahia.
MEIRA, Raimundo. Entrevista cedida a Judson Almeida no dia
25/03/
2011 em Jequié – Bahia.
MOURA, Ari. Entrevista cedida a Judson Almeida via telefone
no dia
24/05/2011.
NOVAES JÚNIOR, Wilson. Entrevista cedida a Judson Almeida
no
dia 26/03/2011 em Jequié – Bahia.
PEREIRA (1), Wando. Entrevista cedida a Judson Almeida via
telefone
no dia 28/05/2011.
PEREIRA (2) Helena. Entrevista cedida a Judson Almeida no
dia
26/03/2011 em Jequié – Bahia.
SANTANA (1) Ari. Entrevista cedida a Judson Almeida no dia
26/03/
2011 em Jequié – Bahia.
SANTANA (2), Edísio. Entrevista cedida a Judson Almeida no
dia
26/03/2011 em Jequié – Bahia.
SARDINHA, Inaldo. Entrevista cedida a Judson Almeida no dia
11/
03/2011 em Jequié – Bahia.
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86 Judson Pereira de Almeida
SILVA, Tony. Entrevista cedida a Judson Almeida via
internet no dia
14/04/2011.
TEIXEIRA, Cid. Entrevista cedida a Judson Almeida no dia
12/03/
2011 em Jequié – Bahia.
VIEIRA, Aroldo. Entrevista cedida a Judson Almeida no dia
13/03/
2011 em Jequié – Bahia.
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A Rádio Bahiana de Jequié 87
Transcrições
TEIXEIRA, Geraldo. Transcrição de gravação feita por
Geraldo Teixeira
no dia 21 de setembro de 1969. Gravação recuperada e cedida
por Ary Santana.
PINTO, Roquete. Transcrição de gravação de 1923, disponível
no site
http://www.microfone.jor.br/historia.htm
Acesso
16/02/2011.
COTRIM, Luiz. Transcrição da crônica lida por Ary Santana e
levada
ao ar na primavera de 1976. Gravação recuperada e cedida
por
Ary Santana.
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88 Judson Pereira de Almeida
Anexos
Cid Teixeira – Assumiu a direção da Rádio Bahiana de Jequié
em 1960.
Ocupou o cargo até meados da década de 1990. Foto: Judson
Almeida em
12/03/2011
Escadaria que dava acesso à sede da Rádio Bahiana de Jequié
no segundo
andar do Edifício 2 de Julho. Foto: Judson Almeida em
12/03/2011
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A Rádio Bahiana de Jequié 89
Flâmuda comemorativa dos 8 anos do Programa Marchando Com
Cristo da
Igreja Batista de Jequiezinho na Rádio Bahiana de Jequié.
Cedida por Helena
Pereira.
Antigo gravador com fita de rôlo da Rádio Bahiana de
Jequié. Peça em
Exposição no Museu Cel. João Carlos Borges. Foto: Judson
Almeida em
25/03/2011
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90 Judson Pereira de Almeida
Solenidade de posse do prefeito Waldomiro Borges de Souza,
em 1966. Em
destaque o então governador Antônio Lomanto Júnior. Ao
lado, com o
Microfone em punho o radialista Geraldo Teixeira
transmitindo a solenidade
Pela Rádio Bahiana de Jequié.Fotografia disponível em
painel do Museu
Coronel João Borges. Foto: Judson Almeida em 25/03/2011.
Evento comemorativo aos 12 anos da Rádio Bahiana de Jequié
em 1966. Ao
microfone o jornalista e também diretor da emissora, Adauto
Cidreira. Ao
lado os radialistas Geraldo Teixeira e Ari Santana.
Fotografia disponível em
painel do Museu Coronel João Borges. Foto: Judson Almeida
em 25/03/2011.
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A Rádio Bahiana de Jequié 91
Adilson Almeida considerado o responsável pela implantação
da Rádio
Bahiana de Jequié. Fotografia disponível em painel do Museu
Coronel João
Borges. Foto: Judson Almeida em 25/03/2011.
Auditório do Cine Teatro Jequié, durante a realzação do
Festival dos
Brotos.Fotografia disponível em painel do Museu Coronel
João Borges. Foto:
Judson Almeida em 25/03/2011.
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92 Judson Pereira de Almeida
Palco do Cine Teatro Jequié, durante a realização do
Festival dos Brotos.
Fotografia disponível em painel do Museu Coronel João
Borges. Foto: Judson
Almeida em 25/03/2011.
O repórter esportivo da Rádio Bahiana de Jequié, Nilton
Torres, entrevistando
o jogador Mané Garrincha em 1970. Fotografia disponível em
painel do
Museu Coronel João Borges. Foto: Judson Almeida em 25/03/2011.
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A Rádio Bahiana de Jequié 93
Um dos primeiros aparelhos de rádio que chegaram a Jequié,
ainda na
primeira metade do século XX. Peça em exposição no Museu
Cel. João
Carlos Borges. Foto: Judson Almeida em 25/03/2011.
Abrigo do transmissor da Rádio Bahiana de Jequié na Granja
Pindorama.
Fotografia disponível em painel do Museu Coronel João
Borges. Foto: Judson
Almeida em 25/03/2011.
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94 Judson Pereira de Almeida
Vista parcial da discoteca da Rádio Bahiana de Jequié. Fotografia
disponível
em painel do Museu Coronel João Borges. Foto: Judson
Almeida em
25/03/2011.
O locutor João Mendes e Abelardo Barbosa, o Chacrinha em
Jequié no início
da década de 1980. Fotografia disponível em painel do
Museu.Coronel João
Borges. Foto: Judson Almeida em 25/03/2011.
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A Rádio Bahiana de Jequié 95
O técnico Virgílio Argolo participou da montagem dos
primeiros
quipamentos da Rádio Bahiana de Jequié e da inauguração da
emissora na
noite de 21 de setembro de 1954. Foto: Judson Almeida em:
25/03/2011.
Inaldo Sardinha na transmissão do carnaval de 1989. No
Palco do Jequié
Tênis Clube a Banda Sinal dos tempos do Rio de Janeiro.
Foto: acervo
particular de Inaldo Sardinha.
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96 Judson Pereira de Almeida
Propaganda da Sociedade Técnica Paulista, a STP.
Equipamento semelhante
foi utilizado na Rádio Bahiana de Jequié por muitos anos.
Disponível em
http://sites.audiolist.org/edu/
historia-do-audio-no-brasil/
anuncios-antigos-nacionais/
Acesso 22/04/2011.
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A Rádio Bahiana de Jequié 97
Show de Prêmios, realizado no Cine Auditorium pela Estação
93 FM, reviveu
o lendário Festival dos Brotos.Foto: acervo particular de
Tony Silva.
Prédio da Rádio Bahiana de Jequié na Rua 2 de Julho. Foto
tirada durante o
carnaval de 1988. Foto: acervo particular de Inaldo
Sardinha.
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98 Judson Pereira de Almeida
Atual aspecto do prédio onde funcionou a Rádio Bahiana de
Jequié,
transformado em apartamento residencial. Foto : Judson
Almeida em
12/03/2011.
Geraldo Teixeira, um dos mais populares locutores da Rádio
Bahiana de
Jequié. Participou da inauguração da emissora. Foto: acervo
particular de
Judson Almeida.
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A Rádio Bahiana de Jequié 99
Recorte do Jornal Sudoeste dava conta dos rumores da venda
da Rádio
Bahiana de Jequié. Acervo particular de Inaldo Sardinha.
Recorte do Jornal do Sudoeste do final da década de 1980.
Documento do
acervo particular de Inaldo Sardinha.
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100 Judson Pereira de Almeida
O Correio da Bahia noticiou a confusão em Gongogi. O jornal
errou o nome
do repórter Inaldo Sardinha (Inaldo de Jesus). Documento do
acervo
particular de Inaldo Sardinha.
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A Rádio Bahiana de Jequié 101
Edifício Grilo. Foto: Museu Coronel João Borges.
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A Rádio Bahiana de Jequié 87
Transcrições
TEIXEIRA, Geraldo. Transcrição de gravação feita por Geraldo Teixeira
no dia 21 de setembro de 1969. Gravação recuperada e cedida
por Ary Santana.
PINTO, Roquete. Transcrição de gravação de 1923, disponível no site
http://www.microfone.jor.br/historia.htm Acesso
16/02/2011.
COTRIM, Luiz. Transcrição da crônica lida por Ary Santana e levada
ao ar na primavera de 1976. Gravação recuperada e cedida por
Ary Santana.
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88 Judson Pereira de Almeida
Anexos
Cid Teixeira – Assumiu a direção da Rádio Bahiana de Jequié em 1960.
Ocupou o cargo até meados da década de 1990. Foto: Judson Almeida em
12/03/2011
Escadaria que dava acesso à sede da Rádio Bahiana de Jequié no segundo
andar do Edifício 2 de Julho. Foto: Judson Almeida em 12/03/2011
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A Rádio Bahiana de Jequié 89
Flâmuda comemorativa dos 8 anos do Programa Marchando Com Cristo da
Igreja Batista de Jequiezinho na Rádio Bahiana de Jequié. Cedida por Helena
Pereira.
Antigo gravador com fita de rôlo da Rádio Bahiana de Jequié. Peça em
Exposição no Museu Cel. João Carlos Borges. Foto: Judson Almeida em
25/03/2011
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90 Judson Pereira de Almeida
Solenidade de posse do prefeito Waldomiro Borges de Souza, em 1966. Em
destaque o então governador Antônio Lomanto Júnior. Ao lado, com o
Microfone em punho o radialista Geraldo Teixeira transmitindo a solenidade
Pela Rádio Bahiana de Jequié.Fotografia disponível em painel do Museu
Coronel João Borges. Foto: Judson Almeida em 25/03/2011.
Evento comemorativo aos 12 anos da Rádio Bahiana de Jequié em 1966. Ao
microfone o jornalista e também diretor da emissora, Adauto Cidreira. Ao
lado os radialistas Geraldo Teixeira e Ari Santana. Fotografia disponível em
painel do Museu Coronel João Borges. Foto: Judson Almeida em 25/03/2011.
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A Rádio Bahiana de Jequié 91
Adilson Almeida considerado o responsável pela implantação da Rádio
Bahiana de Jequié. Fotografia disponível em painel do Museu Coronel João
Borges. Foto: Judson Almeida em 25/03/2011.
Auditório do Cine Teatro Jequié, durante a realzação do Festival dos
Brotos.Fotografia disponível em painel do Museu Coronel João Borges. Foto:
Judson Almeida em 25/03/2011.
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92 Judson Pereira de Almeida
Palco do Cine Teatro Jequié, durante a realização do Festival dos Brotos.
Fotografia disponível em painel do Museu Coronel João Borges. Foto: Judson
Almeida em 25/03/2011.
O repórter esportivo da Rádio Bahiana de Jequié, Nilton Torres, entrevistando
o jogador Mané Garrincha em 1970. Fotografia disponível em painel do
Museu Coronel João Borges. Foto: Judson Almeida em 25/03/2011.
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A Rádio Bahiana de Jequié 93
Um dos primeiros aparelhos de rádio que chegaram a Jequié, ainda na
primeira metade do século XX. Peça em exposição no Museu Cel. João
Carlos Borges. Foto: Judson Almeida em 25/03/2011.
Abrigo do transmissor da Rádio Bahiana de Jequié na Granja Pindorama.
Fotografia disponível em painel do Museu Coronel João Borges. Foto: Judson
Almeida em 25/03/2011.
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94 Judson Pereira de Almeida
Vista parcial da discoteca da Rádio Bahiana de Jequié. Fotografia disponível
em painel do Museu Coronel João Borges. Foto: Judson Almeida em
25/03/2011.
O locutor João Mendes e Abelardo Barbosa, o Chacrinha em Jequié no início
da década de 1980. Fotografia disponível em painel do Museu.Coronel João
Borges. Foto: Judson Almeida em 25/03/2011.
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A Rádio Bahiana de Jequié 95
O técnico Virgílio Argolo participou da montagem dos primeiros
quipamentos da Rádio Bahiana de Jequié e da inauguração da emissora na
noite de 21 de setembro de 1954. Foto: Judson Almeida em: 25/03/2011.
Inaldo Sardinha na transmissão do carnaval de 1989. No Palco do Jequié
Tênis Clube a Banda Sinal dos tempos do Rio de Janeiro. Foto: acervo
particular de Inaldo Sardinha.
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96 Judson Pereira de Almeida
Propaganda da Sociedade Técnica Paulista, a STP. Equipamento semelhante
foi utilizado na Rádio Bahiana de Jequié por muitos anos. Disponível em
http://sites.audiolist.org/edu/
historia-do-audio-no-brasil/
anuncios-antigos-nacionais/ Acesso 22/04/2011.
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A Rádio Bahiana de Jequié 97
Show de Prêmios, realizado no Cine Auditorium pela Estação 93 FM, reviveu
o lendário Festival dos Brotos.Foto: acervo particular de Tony Silva.
Prédio da Rádio Bahiana de Jequié na Rua 2 de Julho. Foto tirada durante o
carnaval de 1988. Foto: acervo particular de Inaldo Sardinha.
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98 Judson Pereira de Almeida
Atual aspecto do prédio onde funcionou a Rádio Bahiana de Jequié,
transformado em apartamento residencial. Foto : Judson Almeida em
12/03/2011.
Geraldo Teixeira, um dos mais populares locutores da Rádio Bahiana de
Jequié. Participou da inauguração da emissora. Foto: acervo particular de
Judson Almeida.
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A Rádio Bahiana de Jequié 99
Recorte do Jornal Sudoeste dava conta dos rumores da venda da Rádio
Bahiana de Jequié. Acervo particular de Inaldo Sardinha.
Recorte do Jornal do Sudoeste do final da década de 1980. Documento do
acervo particular de Inaldo Sardinha.
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100 Judson Pereira de Almeida
O Correio da Bahia noticiou a confusão em Gongogi. O jornal errou o nome
do repórter Inaldo Sardinha (Inaldo de Jesus). Documento do acervo
particular de Inaldo Sardinha.
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A Rádio Bahiana de Jequié 101
Edifício Grilo. Foto: Museu Coronel João Borges.
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