Por Carlos Eden Meira
Era uma pessoa que
mentia tanto, que nem percebia as contradições que cometia ao contar suas
"aventuras". Morava aqui em Jequié, mas dizia ser repórter de um
jornal da capital, cujas credenciais ele exibia com retrato, foto, digital do
polegar direito e assinatura do presidente do sindicato de jornalistas. Se eram
verdadeiros ou não, nunca saberíamos. Seu sobrenome, não me lembro. Era
conhecido no meio da turma como Waldir Mentirinha.
No início dos anos
sessenta, quando a rainha Elizabeth II visitou Salvador, Waldir nos contou que
durante uma entrevista coletiva à imprensa bahiana, houve um atraso para o
início da citada entrevista, porque a rainha "fazia questão" da
presença de Waldir Mentirinha entre os repórteres. Isso, é claro, contado por
ele! Disse que enquanto sua majestade
britânica não o visse, ela não daria nenhuma entrevista. E ele contava isso,
com a maior cara de pau, sério e tranquilo.
Mitomania. É o que
ocorria com Waldir. Contar histórias contando vantagens, nas quais ele viaja,
num mundo imaginário em que ele é sempre o herói, o bonitão corajoso, desejado
pelas garotas mais lindas, e por aí vai.
Certa vez, em época de
Carnaval, quando ainda havia bailes nos clubes da cidade, estando eu e João
Batista conversando ali na ponte do viaduto, eis que surge Waldir Mentirinha. -
E aí, vão passar o Carnaval, onde? - perguntou ele. - Nós vamos ficar por aqui.
Vamos fazer a ornamentação da ACJ. -
disse eu.- Vamos começar amanhã de manhã - disse João. E você, vai pra onde? -
Ah, eu vou com minha namorada para o JTC, o aristocrático da cidade. Pra isso
já tenho mesa reservada, um litro de whisky escocês e cinco tabletes de LSD.
Pois bem. Na manhã
seguinte, exatamente às oito horas, a campainha da porta tocou. Quando atendi,
dei de cara com Waldir de pincéis em punho, perguntando: - E aí, quando
começamos?
Fiquei sem entender
nada. Perguntei a ele pra que eram aqueles pincéis. Ele disse: - Ora, não vamos
fazer a ornamentação da ACJ? Eu falei: sim, Waldir. Mas você não vai pro JTC
com sua linda e rica namorada! A "rica namorada", dizia ele, que era
filha de um grande empresário de Salvador, e que ela era loucamente apaixonada
por ele. Iriam ficar noivos e a paixão era de tal forma que ela foi ao
apartamento dele desesperada de desejo. Já chegou tirando a roupa e pulando nos
braços de Waldir. Aqui, preciso descrever como eram os atributos físicos do
Mentirinha. Baixinho, magro, sorriso maroto cheio de dentes alvos na boca
risonha. Mas era feio de doer. Mesmo assim, a namorada se entregou
desesperadamente.
Vista-se!! - gritou
Waldir, para a namorada nua, já deitada num sofá-cama, ali na sala.
-Quero você como minha
noiva, não como uma amante vulgar. Volte para sua casa agora mesmo. Depois
conversamos. Ele contava essas coisas, com o olhar de quem estava inventando na
hora, a história. A turma sabia que era mentira, obviamente, mas todos se
divertiam com as lorotas de Waldir. E o incentivavam contar mais.
-Levei-a até o ponto de
táxi, paguei adiantado ao taxista, dando-lhe o endereço da mansão dela. Quando
estava voltando pro meu apartamento, eis que surge um bando de oito
assaltantes. Eu que sou sempre prevenido, lancei mão do meu canivete e
enfrentei os oito facínoras que me cercaram. Quando notei que seria massacrado,
puxei a arma e disparei quatro tiros para cima. Os caras quando notaram que ali
tinha um homem de coragem, caíram fora, apavorados!
-Perai, Waldir!!
Paciência!! Não era um canivete?? Interferiu alguém.
-Eu falei canivete?? Eu
falei revólver, com toda certeza!
-Tá bom Waldir. Então vamos
abreviar isso. Nem canivete, nem revólver. Era um "canivólver".
Gargalhada geral dos ouvintes. Waldir Mentirinha entrou para a história do
folclore no meio da nossa turma. Nunca mais ouvimos falar dele.
Nenhum comentário:
Postar um comentário