sábado, 11 de julho de 2026

WALDIR MENTIRINHA.

 Por Carlos Eden Meira

Era uma pessoa que mentia tanto, que nem percebia as contradições que cometia ao contar suas "aventuras". Morava aqui em Jequié, mas dizia ser repórter de um jornal da capital, cujas credenciais ele exibia com retrato, foto, digital do polegar direito e assinatura do presidente do sindicato de jornalistas. Se eram verdadeiros ou não, nunca saberíamos. Seu sobrenome, não me lembro. Era conhecido no meio da turma como Waldir Mentirinha.

No início dos anos sessenta, quando a rainha Elizabeth II visitou Salvador, Waldir nos contou que durante uma entrevista coletiva à imprensa bahiana, houve um atraso para o início da citada entrevista, porque a rainha "fazia questão" da presença de Waldir Mentirinha entre os repórteres. Isso, é claro, contado por ele!  Disse que enquanto sua majestade britânica não o visse, ela não daria nenhuma entrevista. E ele contava isso, com a maior cara de pau, sério e tranquilo.

Mitomania. É o que ocorria com Waldir. Contar histórias contando vantagens, nas quais ele viaja, num mundo imaginário em que ele é sempre o herói, o bonitão corajoso, desejado pelas garotas mais lindas, e por aí vai.

Certa vez, em época de Carnaval, quando ainda havia bailes nos clubes da cidade, estando eu e João Batista conversando ali na ponte do viaduto, eis que surge Waldir Mentirinha. - E aí, vão passar o Carnaval, onde? - perguntou ele. - Nós vamos ficar por aqui. Vamos fazer a ornamentação da ACJ.  - disse eu.- Vamos começar amanhã de manhã - disse João. E você, vai pra onde? - Ah, eu vou com minha namorada para o JTC, o aristocrático da cidade. Pra isso já tenho mesa reservada, um litro de whisky escocês e cinco tabletes de LSD.

Pois bem. Na manhã seguinte, exatamente às oito horas, a campainha da porta tocou. Quando atendi, dei de cara com Waldir de pincéis em punho, perguntando: - E aí, quando começamos?

Fiquei sem entender nada. Perguntei a ele pra que eram aqueles pincéis. Ele disse: - Ora, não vamos fazer a ornamentação da ACJ? Eu falei: sim, Waldir. Mas você não vai pro JTC com sua linda e rica namorada! A "rica namorada", dizia ele, que era filha de um grande empresário de Salvador, e que ela era loucamente apaixonada por ele. Iriam ficar noivos e a paixão era de tal forma que ela foi ao apartamento dele desesperada de desejo. Já chegou tirando a roupa e pulando nos braços de Waldir. Aqui, preciso descrever como eram os atributos físicos do Mentirinha. Baixinho, magro, sorriso maroto cheio de dentes alvos na boca risonha. Mas era feio de doer. Mesmo assim, a namorada se entregou desesperadamente.

Vista-se!! - gritou Waldir, para a namorada nua, já deitada num sofá-cama, ali na sala.

-Quero você como minha noiva, não como uma amante vulgar. Volte para sua casa agora mesmo. Depois conversamos. Ele contava essas coisas, com o olhar de quem estava inventando na hora, a história. A turma sabia que era mentira, obviamente, mas todos se divertiam com as lorotas de Waldir. E o incentivavam contar mais.

-Levei-a até o ponto de táxi, paguei adiantado ao taxista, dando-lhe o endereço da mansão dela. Quando estava voltando pro meu apartamento, eis que surge um bando de oito assaltantes. Eu que sou sempre prevenido, lancei mão do meu canivete e enfrentei os oito facínoras que me cercaram. Quando notei que seria massacrado, puxei a arma e disparei quatro tiros para cima. Os caras quando notaram que ali tinha um homem de coragem, caíram fora, apavorados!

-Perai, Waldir!! Paciência!! Não era um canivete?? Interferiu alguém.

-Eu falei canivete?? Eu falei revólver, com toda certeza!

-Tá bom Waldir. Então vamos abreviar isso. Nem canivete, nem revólver. Era um "canivólver". Gargalhada geral dos ouvintes. Waldir Mentirinha entrou para a história do folclore no meio da nossa turma. Nunca mais ouvimos falar dele.

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