quarta-feira, 29 de julho de 2026

NA CASA VELHA.

Por Carlos Eden Meira

É uma velha casa centenária. Por aqui vi passar muita tristeza e muita alegria. Aqui, vi morrer pessoas muito amadas e nascer pessoas também muito queridas, e em cada canto existe a doce lembrança daqueles que aqui viveram, sonharam, dançaram, cantaram e cumpriram sua missão de existir. Ainda hoje, aqui sorriem e brincam crianças, jovens se encontram e se enamoram. O futuro ainda lhes é cheio de esperanças e a vida lhes passa plena de alegrias juvenis. Nesta velha e amada casa viveram pessoas que acreditaram, e as que vivem e acreditam no amor e na vida como ela é: cheia de tristezas e alegrias. Muitos de nossos amigos aqui se encontraram para tocar e ouvir músicas, além daquele alegre bate-papo, regado a uma boa cachacinha!

Aqui sempre há música nos momentos tristes e nos momentos alegres, porque a música é a voz de Deus. É a expressão pura e sublime de nossas pobres almas, em busca de uma verdade que está dentro de nós. Aqui, nesta velha centenária casa, dançamos, tocamos e cantamos a canção angelical da vida, que nos encaminha para a almejada serenidade de jamais perder a esperança, porque esta é imortal.

Parece que essas antigas casas centenárias têm o poder de reter em suas paredes, além das marcas do tempo, a beleza de representar a História. Ainda que sejam simples construções sem requinte arquitetônico ou artístico nenhum, ainda que sejam simples pobres moradias, retratam a vida em seus aspectos individuais. Por isso, é triste quando vemos alguma delas desaparecerem em nome do progresso e do desenvolvimento, ainda que algumas, abandonadas e mal localizadas, representem perigo de desabamento, e que nunca foram algum dia, o lar de uma família.

No entanto, por uma ironia do destino, nessa mesma velha casa em que moro, ocorreu em março deste ano, um fato desesperador. Numa noite chuvosa, minhas duas netas mais novas, Helena e Isadora, estavam como de costume, na sala do meio, brincando com seus celulares. Eram umas sete e meia da noite, mais ou menos, quando Helena ouviu um ruído de telhas caindo num cantinho do forro. Eu falei com as duas que saíssem dali e fossem para uma outra sala na parte da frente da casa. Chamei meu filho Elias e avisei que alguma coisa havia caído no forro. Graças a Deus, temos em casa uma escada de alumínio que dá para verificar o que estava havendo. Elias subiu, e iluminou com a lanterna do celular o local onde as meninas ouviram o ruído. Uma enorme e pesada peça de madeira, que sustentava toda aquela parte do telhado, estava começando a ruir.

Elias chamou meu sobrinho Ricardo, filho de Raymundo Meira, e que trabalha como projetista. Ele subiu na escada e ficou apavorado, com o que viu. Mandou que todos da velha casa saíssem imediatamente do local, pois, com a chuva, a madeira podre começou a ceder. Uns cinco minutos depois o teto veio abaixo!!! Poderia acontecer uma tragédia ali, mas como todos estavam avisados, nada de grave aconteceu, GRAÇAS A DEUS!!! Essa velha casa tem mais de cem anos, passou por várias reformas, mas, dessa vez, ficamos dois meses em casas de parentes, até modificar a estrutura do teto. Agora, nada de madeira para sustentar o telhado, pois enormes peças foram devoradas por cupins. Tudo agora é metal e telhas de fibra parafusadas. Inclusive a rede elétrica é agora, embutida nas paredes. Perdemos uns dois armários, e foi só. Preservar casas antigas é importante, mas é preciso cuidar da segurança de seus moradores.

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