
O primeiro dia deste mês de junho em Ipiaú foi marcado por um importante evento cultural. O lançamento do livro “Bahia Urgências do Presente”, da autoria de Waldeck Ornellas, reuniu parentes, amigos e admiradores deste ipiauense que teve grande projeção no cenário nacional como técnico do planejamento e desenvolvimento urbano e politico de importante atuação parlamentar, chegando aos cargos de senador e ministro da Previdência Social. A tarde/noite de autógrafos no Complexo Poliesportivo e Cultural Dr. Salvador da Matta, foi promovida pela embrionária Academia de letras de Ipiaú, da qual o autor da obra lançada já foi convidado a associar-se e contou com o apoio da prefeitura Municipal. Na oportunidade Waldeck Ornéllas foi saudado pelo jornalista, escritor, diretor da ABI-Associação Bahiana de Imprensa; membro da ALJ- Academia de Letras de Jequié e atual presidente do Instituto Pensar Jequié, Wilson Midlej provocaram calorosos aplausos por parte do público presente e serão aqui transcritas na íntegra. O livro “Bahia Urgências do Presente” reúne mais de uma centena de artigos escritos ao longo dos últimos anos e publicados em jornais e blogs sobre o que trava o desenvolvimento da Bahia. A tese central é direta e incômoda: o estado não tem como crescer enquanto não resolver sua desconexão física com o restante do país. Não é questão de conjuntura. São obras que não foram feitas, decisões adiadas, projetos paralisados antes de sair do papel. Os textos estão organizados em ordem cronológica invertida, e o efeito é perturbador: as perguntas de 2015 são as mesmas de 2025. A obra recupera também um debate mais antigo: o que aconteceu com a aposta na industrialização do Nordeste como saída para a desigualdade regional. O polo petroquímico, a Sudene, os planos de desenvolvimento regionais. Ornélas viveu tudo isso de dentro. A sensação que fica é a de uma região que teve janelas abertas e as viu fechar, uma a uma. Bahia Urgências do Presente foi publicado pelo Instituto Desenvolve Bahia e está disponível na Amazon. A SAUDAÇÃO Confira na integra o texto da saudação de Wilson Midlej ao autor da obra recém-lançada em Ipiaú: “ Quando o jornalista Zé Américo da Matta Castro me convidou para falar sobre Waldeck Ornelas, imaginei fazer o que faço há décadas: sentar diante do computador, organizar lembranças, pesquisar datas, conferir informações e produzir um texto para publicação. Aliás, foi exatamente o que fiz. Mas o idealizador e baluarte da embrionária Academia de Letras de Ipiaú, mesmo sem conhecer o conteúdo do texto, me fez uma observação pertinente: “Não publique. Fale. A gente repercute depois. E confesso que gostei da ideia. Porque algumas histórias não cabem inteiramente no papel. Precisam da voz, do olhar da vibração das palavras e, principalmente, da memória afetiva de quem as viveu, Por isso, não pretendo apresentar aqui uma biografia formal de Waldeck Ornelas. Não vou seguir rigorosamente a cronologia dos cargos que ocupou, nem enumerar todos os títulos que conquistou. Seria impossível resumir, em poucos minutos, uma trajetória construída ao longo de mais de meio século de intensa produção intelectual e de relevante vida pública. Embora vá me referir a um dos ipiauenses mais ilustres de nossa geração, a geração que sucedeu a de Euclides Neto, Salvador da Matta, D. Zezé Lessa, Tatai, Protógenes, Celestina Bittencourt, entre tantos outros. Prefiro falar do meu jeito: relator fiel de fatos, mas, como contador de histórias. Prefiro compartilhar lembranças, não de intimidade, mas de contemporaneidade de alguém que conheceu Waldeck antes do ministro, antes do senador, antes do constituinte, antes do especialista em planejamento. Quero falar do menino de Rio Novo, até porque, muitas vezes, é na infância que encontramos as pistas mais reveladoras dos grandes destinos. A notícia de que Ornelas retornaria a Ipiaú para lançar mais um livro me fez voltar algumas décadas no tempo. Antes das lidas profissionais houve um menino de Rio Novo que já chamava a atenção pela seriedade com que encarava os estudos. Tínhamos praticamente a mesma idade. Enquanto muitos de nós dividíamos o tempo entre porradas nos babas do areão e na porta do cine Éden, as atrações do circo e as aventuras próprias da infância, Waldeck parecia seguir outro roteiro: era daqueles garotos que os pais apontavam como exemplo para os filhos. Discreto, educado, responsável e sempre com os olhos voltados para os livros. Naquele tempo não existia a palavra nerd. Se existisse, provavelmente esta seria aplicada a ele. Não por isolamento ou excentricidade, mas por uma curiosidade intelectual que parecia maior do que a sua própria idade. Havia nele uma disciplina precoce, uma espécie de compromisso silencioso com o conhecimento, como se já soubesse que o estudo seria o seu passaporte para horizontes mais amplos. Passadas tantas décadas, olhando para a trajetória que construiu, tenho a impressão de que Waldeck não pertence à categoria daqueles que surpreendem pelo destino. Pertence àquela mais rara, formada por pessoas cuja vida adulta apenas confirma os sinais que já estavam presentes na juventude. Os anos passaram… Como acontece com tantos jovens do interior, Waldeck precisou partir para que os sonhos encontrassem espaços para crescer. Salvador tornou-se o destino natural de quem buscava formação superior e novos desafios. Assim, veio a Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, os cursos de especialização, as bolsas de estudo, as oportunidades de aperfeiçoamento e os primeiros passos no serviço público. Lembro, em 1971, alguns comentários elogiosos sobre ele quando participava da equipe do então nascente Órgão Central de Planejamento: era o governo do prefeito de Salvador, Dr. Clériston Andrade, também ipiauense. Eu estava no cargo de diretor do SGA da Secretaria Municipal de Finanças de Salvador. Waldeck, aos 26 anos, já despontava, com destaque, numa novidade daquela administração: orçamento planejado. Mas, olhando em retrospectiva, parece difícil separar o homem que ocupou cargos importantes daquele rapaz que conheci em Rio Novo, primo dos meus primos. A mesma dedicação aos estudos transformou-se em competência técnica. A mesma disciplina converteu-se em método de trabalho. A mesma curiosidade intelectual tornou-se capacidade de compreender problemas complexos e buscar soluções para eles, características que tanto encantaram o então governador ACM. Talvez por isso, pelos méritos que coleciona, tenha transitado com desenvoltura pelos diversos níveis da administração pública. Participou da estruturação do planejamento urbano de Salvador, exerceu funções estratégicas como Secretário de Estado no Governo da Bahia, chegou à Câmara dos Deputados, ao Senado da República e ao Ministério da Previdência Social. Em cada etapa acumulou experiências, responsabilidades e reconhecimento. Entretanto, ao contrário do que muitas vezes acontece com figuras públicas, a ascensão não lhe roubou a discrição. Nunca foi homem de gestos espalhafatosos nem de protagonismos artificiais. Preferiu sempre a solidez dos argumentos ao brilho das manchetes. Era mais afeito à reflexão do que ao espetáculo, mais próximo do planejamento do que da improvisação. Naturalmente, nenhuma trajetória dessa dimensão é construída em absoluta solidão. Depois da sólida formação adquirida dos seus pais, Odília Vieira Nery e Valdemiro Ornelas, passou a construir sua própria história. Dois anos depois de formado, casou-se com Antonina de Jesus. Ao longo de cinquenta e cinco anos de casamento, Antonina compartilhou desafios, mudanças, responsabilidades e conquistas, acompanhando de perto uma vida marcada por compromissos públicos e frequentes exigências profissionais. Dessa união nasceram Vladimir e Fábio, testemunhas e participantes de uma caminhada em que os valores familiares sempre estiveram ao lado das responsabilidades institucionais. Hoje, aos oitenta anos, quando muitos já se limitam a revisitar memórias,

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