sexta-feira, 15 de abril de 2022

A "SEMANA SANTA" DO MEU TEMPO

                                                          Carlos Eden Meira

Quando eu tinha mais ou menos uns seis anos de idade, por aí, na Semana Santa, minha tia bisavó Teté, quase centenária e muito católica, me contava a história da Paixão de Cristo, que eu interpretava à minha maneira. Por exemplo: os soldados que prenderam Jesus, eu os via como os guardas da prefeitura com suas fardas cáqui, aqueles bonés típicos da época, assim como as botas compridas, ainda influenciados pelo fardamento dos soldados da revolução de trinta. O templo onde Jesus expulsou os vendilhões, na minha visão infantil era a Igreja Matriz, onde eu assistia missas com minha mãe. As nossas "penitências" de menino eram interessantes. Nada de xingar, dizer palavrões, brigar, essas coisas. Às vezes, durante o almoço ou jantar (nada de carne, é claro), a família toda à mesa, muita frigideira de bacalhau, vatapá com angú de arroz e algum outro peixe, ali tínhamos que ser "santos". Aí de quem não se comportasse, mas por algum motivo qualquer, por baixo da mesa dávamos pontapés ou beliscões uns nos outros e nada de gritar, para que minha mãe não ouvisse. A careta de dor disfarçada, e pronto. Desde a quarta-feira, as aulas eram suspensas e aí era difícil não encontrar a turma na rua para as brincadeiras de sempre, que não raro acabavam em "porrada". Mas, para isso era preciso ir para um terreno baldio qualquer, longe das vistas de nossas mães, tias, ou avós, senão o castigo no Sábado de Aleluia era garantido. Os mais valentões da turma que chegavam em casa cheios de marcas das brigas no corpo ouviam esta frase: "No sábado vocês já sabem, né? Se preparem"! Os "quadros de santos" na casa de minha avó, (que não eram poucos), principalmente no quarto de Teté, nesses dias ficavam cobertos de véus negros que só eram removidos no sábado. Sábado este em que se ouvia na vizinhança, o barulho da molecada pagando seus "pecados", cometidos durante a Semana Santa. Ali o "couro comia" solto! Outro detalhe curioso é que o pessoal da roça nos alertava para assistir a "briga do Sol com Lua" , no Sábado de Aleluia. Para ver este "fenômeno" era preciso encher uma pequena bacia de água, levar para o quintal e sacudir a água. O simples movimento provocado, duplicava o reflexo do Sol, dando a ilusão de que havia dois corpos celestes refletidos na bacia e "brigando". E nós meninos acreditávamos nisso, até que nossos pais e professores explicavam a coisa toda, o que nos deixava decepcionados. A Lua brigando com o Sol era muito mais interessante, do que um simples efeito do reflexo na água. Ser criança é muito bom! Na Sexta-feira Santa, antes da procissão do Senhor Morto, o Cine Bonfim apresentava todo ano, um filme mudo, produção dos anos vinte: NASCIMENTO, VIDA, PAIXÃO E MORTE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO. Era numa matinê em que a plateia era formada por pessoas de todas as idades. Principalmente idosos que moravam nas fazendas e distritos. Gente dos bairros pobres, e que só ia ao cinema uma vez por ano, justamente na Semana Santa. Para muitos deles, aquele Jesus ali na tela era real. Ajoelhavam-se de cabeça baixa e rezavam contritos. O filme que já pertencia ao dono do cinema, seu Benjamin, estava todo quebrado e remendado, surgindo às vezes, cenas de filmes diversos, devido às emendas feitas às pressas, pelo operador de projeção. Mas ninguém ligava pra isso. A magia do cinema em plena Semana Santa superava tudo. Um tempo "mágico e santo" que não volta nunca mais! 

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