| Por Carlos Éden Meira |
Até meados dos anos 50, ainda não havia por aqui, nenhum movimento cultural que representasse especificamente os anseios de jovens interessados em absorver as mudanças de costumes, que começavam a acontecer no resto do mundo. Consequentemente não havia moda jovem, o que obrigava as garotas e os rapazes da época, a se vestir e se comportar como seus pais, em todos os sentidos. Aqui em Jequié as festas eram animadas por orquestras de baile, sendo a Orquestra Copacabana a mais conhecida, e, os artistas nacionais famosos, quando se apresentavam nos palcos dos cinemas, eram acompanhados pelos chamados “regionais” formados por violonistas locais como Satu, Jonatas Pithon, Gemi Saback, Fernando “Perninha”, dentre outros. Ouviam-se muito no rádio ou nos serviços de alto-falantes, boleros, sambas-canções e a alegre música de Luiz Gonzaga, que era um verdadeiro ídolo da garotada nordestina da época, principalmente durante o período das festas juninas.
Entretanto, através do rádio e do cinema, começava-se a acompanhar as novas tendências musicais influenciadas pelo rhythm and blues e a country music, dando origem a um novo som que representava o que a imprensa chamava de juventude transviada. Era a inevitável explosão do rock and roll que assolava o mundo. Paralelamente a essa invasão do rock forçada comercialmente pela mídia americana, jovens da elite intelectual carioca, amantes inveterados de jazz, mas que por serem de famílias da classe média alta, estudavam música e tinham estreito relacionamento com grandes músicos e poetas nacionais, mostraram que para ser moderno não era preciso necessariamente, gostar de rock nem ser da juventude transviada. Assim, surgiu o movimento musical que se convencionou chamar de bossa nova, onde se mesclava de forma “antropofágica” elementos do jazz, letras bem elaboradas, destacando-se aí a grande parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e uma batida revolucionária do violão, criada por João Gilberto. A bossa nova foi, inegavelmente, o melhor momento da música popular brasileira dos últimos tempos. Em fins dos anos 50, surgiam os primeiros ídolos do rock brasileiro representados por Cely Campello, Sergio Murillo, Demétrius e outros. Já em meados dos anos sessenta, liderada por Roberto e Erasmo Carlos, veio a explosão da jovem guarda, com suas letras simples e músicas de acordes básicos.
Aqui em Jequié, o maior representante desses movimentos culturais na música, foi o conjunto BOSSA SEIS, formado por Jaime Luna (acordeon e piano), Benedito Sena (bateria), Nilton Muniz (contrabaixo), Judimar Ribeiro (guitarra líder), Mario Alves (guitarra base) Edson (guitarra havaiana) e mais tarde, Heron (saxofone). Surgido no começo dos anos sessenta com alguns outros componentes e o nome de ATALAIA, o Bossa Seis começou, evidentemente, tocando bossa nova, mas, teve que seguir as tendências impostas pela mídia através da beatlemania e da jovem guarda, e passou a tocar rock. Naquele tempo, nenhuma banda seria contratada para tocar em bailes se não tocasse músicas de Roberto Carlos, ou as versões de músicas dos Beatles de Renato e seus Blue Caps, legítimos representantes da nova onda. Alguns jovens “rockeiros radicais” de hoje podem achar estranho, mas, aquilo que Roberto e Renato tocavam era rock. Um rockzinho romântico e colegial, mas, era rock. Não podemos esquecer que a Radio Bahiana de Jequié, nos anos sessenta, levava ao ar das 17 às 18 horas, um programa dedicado aos jovens, e era apresentado pelo locutor Humberto Roosevelt. Tratava-se do programa “Ritmos da Juventude”, divulgando os sucessos da nova onda musical. Roosevelt apresentava também, um programa de auditório no “Cine Jequié”, intitulado “Os Brotos Comandam”.
O Bossa Seis foi considerado o melhor conjunto da Bahia em sua melhor fase, e, por sua influência, surgiram em Jequié os grupos THE BIRDS, formado por César Almeida (contrabaixo), Getulio Jucá (bateria), Carlos Éden (guitarra solo), Paulo Krupa (guitarra base), Ivan (saxofone), com a participação de Katia Morbeck, que na época tinha apenas dez anos de idade. O conjunto LA BAMBA de João Faustino, depois viria a ser o EXTRA SOM do qual, inclusive, participou mais tarde o famoso artista baiano Luiz Caldas, ainda desconhecido, em princípio de carreira. Com a explosão do movimento tropicalista liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, alguns componentes do Bossa Seis e dos Birds se fundiram dando origem ao AMERICAN HIPPIES, embalados pelas novas vertentes das artes, influenciadas pelo psicodelismo tropicalista, tendo mais tarde, se transformado no grupo ALFA.
Daí em diante, formaram-se diversos conjuntos como OS CISNES que mais tarde viria a ser EMBALO QUATRO, cuja formação mais conhecida foi com Aroldo Vieira, Roque Lui e Valfredo Dórea (vocal), Tõe Gatinha (Guitarra base), Jorge Lima, depois Zé Rodrigues (guitarra solo), Roberto “Caveira” (contrabaixo) Antônio Néri (órgão) e Daniel “Boca” (bateria). O grupo OS ÍMPARES, anteriormente conhecido como OS MORCEGOS, teve na sua formação original Binho Vieira (guitarra solo), José Pinheiro (contrabaixo), Corbulon Rocha (guitarra base) e Reinaldo Falcão (bateria). No final dos anos 60 surgiram O KINTA DIMENSÃO, com Reginaldo (teclados) Damião (bateria) Tõe Gatinha (contrabaixo), Gilberto Gaso (guitarra solo), Reinaldo Pinheiro (guitarra base) e Betulino (guitarra base), além do CÁPITULO 5º com Aroldo Vieira (bateria e voca) Gilberto Gaso, depois Tiso (guitarra solo), Cleber Ferreira (guitarra base), Jocéli, depois Paulo Krupa (contrabaixo) e Melchiades (Escaleta). Surgiram então, muitos outros como OS FONDAS, que tiveram curta duração. Um bom grupo foi o CLARPT que mais tarde viria ser o ARPÃO, tocando músicas de autoria própria, formado por Rafael Vieira, Luiz Meira, Charles Meira e Thomaz Meira, com a participação dos compositores Pedro Nogueira e Val Rodrigues. O GRUPO CÉU com a participação do cantor e compositor Carlinhos, e de Rita Rodrigues, foi um destaque no meio musical jequieense, assim como A BANDA DO LESTE, grupo musical organizado por César (Zama) Almeida. Vale aqui ressaltar a participação de outros artistas que atuaram no meio musical de Jequié, tais como Marcos Sanches, Pithon, Marcos Morbeck, Jocélio, Carmélio, Caramelo e muitos outros.
Até o momento em que esta matéria foi escrita (já há algum tempo), surgiram alguns músicos que fazem “carreira solo”. Artistas como Rei de Jesus, Binha Morbeck, Kátia Morbeck e Jairo, Marcos Belchote, Suely Morbeck, Zezinho Magalhães, Iracema Miller, Ailton dos Anjos, dentre outros, que passaram a ser bastante requisitados pelos barzinhos e com grande número de admiradores na cidade, assim como os artistas João Mendes, Lynno Santos. Também se destacaram dentre outras, as bandas ROSY E BANDA, as bandas de reggae como MANDACAROOTS e SEMENTE NATIVA, e as de forró como LÉ-KUM-CRÉ além da CANGAIA DE JEGUE, (mais tarde, sediada em Salvador). No que se refere ao rock, surgiu o ótimo trabalho apresentado pela banda SHAW E OS ANÉIS DE SATURNO, o grupo JOÃO BRASILEIRO de Venceslau “Bilaw”, o compositor e artista plástico Musaé, além de outros.
O artista Nuno Menezes tem sido muito elogiado pelos fans de MPB, assim como a cantora Lane Quinto. Temos ainda, um trabalho musical de alto nível que vem sendo apresentado pelo trio “ARGUIDÁ”, formado pelo baterista Bené Sena, seu filho pianista Maurílio e o baixista Allan Borges, (que foi depois substituído por Ronaldo). O grupo tem um repertório recheado do que há de melhor em clássicos da bossa nova e chorinhos, tendo se apresentado em diversos eventos culturais da cidade.
Nota: Esta matéria foi feita há alguns anos, muitos dos artistas aqui citados já não atuam em Jequié, outros faleceram. Novos artistas surgiram, entretanto, será necessário fazer uma nova pesquisa para selecioná-los num outro texto atualizado, o que obviamente será feito por novos jornalista e colunistas de nossa imprensa. (Carlos Éden Meira)
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