domingo, 15 de outubro de 2017

Meu Filho, Teu Filho.

                                                              Charles Meira


Na década de 70, Carlos conheceu, na cidade de Jequié, uma garota por nome Lúcia. Era muito atraente, principalmente por causa do seu belo corpo. Na época, Carlos era muito namorador e não demorou em aproximar-se da bela mulata. Eles estudavam no Instituto de Educação Régis Pacheco, na mesma sala, fato que contribuiu para, em pouco tempo, ele conquistar a colega, mesmo com a rivalidade de outros rapazes. Além de namorar no colégio, saíam para festas nos clubes e barzinhos, sempre acompanhados das amigas de Lúcia e a sua turma, formada por Moisés, seu irmão, Paulo e Roque, primos, Antônio, Alfredo e Cosme, amigos de infância.
Com o passar do tempo, Lúcia demonstrava, pelas suas atitudes, que estava gostando de Carlos, mas ele não correspondia aos seus sentimentos, pois não conseguia ter somente uma namorada. Pela insistência dela, de vez em quando iam curtir a noite de Jequié. Em uma dessas noites, depois de uma festa no clube, foi levá-la à sua casa, que ficava na Avenida Santa Luzia, no bairro do Joaquim Romão. Como era madrugada e não tinha ninguém na sua residência, resolveu ficar para dormir. Passaram o restante da noite fazendo amor. Acordaram com um barulho: a perna da cama tinha-se quebrado! Daí por diante foi que ela grudou no seu pé. Mas, ele considerava seu relacionamento com Lúcia uma aventura como outras tantas. Passou a receber presentes, que eram enviados por ela para a empresa em que trabalhava. No dia do seu aniversário um bolo, de outra vez um cachorrinho, que morreu na casa de sua tia Lindaura depois de 15 dias. Cada presente que chegava era motivo de gozação dos colegas. Como gostava muito dele, queria engravidar, mas, devido a problemas uterinos, não conseguia realizar o seu sonho.
No ano de 1974, Lucia, foi morar em Salvador. Em 1975, Carlos também se mudou com sua família para a capital. Quando Carlos chegou a Salvador, Lúcia já tinha encontrado seu irmão Moisés, seu primo Roque e os amigos Cosme e Alfredo. O relacionamento entre eles continuava o mesmo vivido em Jequié. As praias e as festas de largo eram os lugares mais frequentados pela turma. A relação de Carlos com eles não era mais a mesma, pois os seus pensamentos e atividades mudaram. Estava namorando e gostando de Marina, procurava emprego e pretendia estudar novamente. Assim aconteceu. Logo estava trabalhando, estudando na Escola de Engenharia e Eletromecânica da Bahia e pensando em casamento.
Durante esse período, teve alguns contatos com Lúcia, mas, em companhia dos seus amigos. Lúcia estava residindo em um pensionato na Rua do Gravatá. Sempre passava naquele local quando ia fazer teste para trabalhar. Numa tarde, quando retornava da parte baixa de Salvador, encontrou Lúcia à porta do pensionato. Entraram para conversar, pois já fazia algum tempo que não via sua amiga. Lúcia continuava com esperanças de reatar o namoro. Neste dia conversaram bastante. Aproveitou a ocasião e falou com Lúcia que gostava de Marina e pretendia ficar noivo em pouco tempo, inclusive mostrou as alianças que tinha comprado. Ficaram por muito tempo  sozinhos e acabaram tendo uma relação amorosa. Depois do ocorrido, ela ficou parada no canto da cama, como se estivesse escondendo algo, talvez a lembrança do relacionamento entre eles, que naquele momento estava terminando. A partir daquele dia, suas vidas se separaram. Lúcia, logo mudou de endereço e Carlos perdeu contato com ela.
Em abril de 1976, casou-se com Marina e continuou morando em Salvador, na casa de sua mãe. Passados alguns meses, Moisés e Roque estiveram com Lúcia na Rua do Gravatá, porém em outra casa. Estava morando com uma amiga e havia-se engravidado. Novamente Lúcia desapareceu e nem seus amigos davam notícias. Como o envolvimento que teve com Lúcia era considerado para ele uma aventura, não se lembrava mais dela, passou a dedicar-se à sua esposa, ao trabalho e estudar.
Passados uns quatro anos, Carlos continuava morando em Salvador com sua mãe, e tinha um filho, um belo menino de cor branca, cabelos vermelhos, parecido com seus tios e os parentes de Catingal, distrito da cidade de Manoel Vitorino. Estava terminando o curso técnico de eletricidade e havia mudado de setor na empresa, trabalhava agora na área técnica, que funcionava na Praça da Sé, fazendo o estágio exigido pela escola. Certo dia, quando fazia um projeto na sala em que trabalhava, foi avisado por um colega que alguém queria falar com ele. Ficou um pouco apreensivo, julgando que seu filho tivesse adoecido ou outra notícia ruim. Nessa hora, só pensava em algo desagradável. Dirigiu-se rapidamente à sala de espera. Para sua surpresa, a visita era uma pessoa que há muito tempo tinha deixado o convívio com eles. Sentada no sofá, quando Lúcia o viu, levantou-se e friamente cumprimentaram-se. Inicialmente, comentaram sobre o longo tempo sem contato. Depois, sobre assuntos relacionados com saúde, moradia, família e seus amigos. Como não podiam conversar muito, porque ele estava no horário de trabalho, Lúcia falou que era melhor acertar um encontro em outro local, a fim de que tivessem mais tempo para dialogar. Marcaram-no o final da tarde, na saída principal do edifício onde ele trabalhava. No local e horário combinado, encontraram-se e saíram conversando. Na ladeira da praça, próximo a um centro comercial, perguntou a Lúcia o que queria falar que necessitava de tanto tempo. Ela sorriu, mas não respondeu. Sentou-se na murada de proteção das lojas, e ela começou a contar o que desejava. Fez primeiro um relato do que tinha acontecido durante o período em que passou desaparecida.   Disse ter sido muito difícil os meses de gravidez, pois não estava trabalhando. Para suprir suas necessidades, teve que morar com uma amiga, e depois que o filho nasceu, sujeitou-se a fazer tudo para dar-lhe o sustento. Num clima ainda de suspense, Carlos esperava ansioso o desenrolar do que Lúcia tinha mais a falar. Prosseguiu o relato, passando a recordar o último encontro deles naquele pensionato na Rua do Gravatá. Contou-lhe ter-se engravidado no período em que tiveram aquela relação amorosa. E, quanto a Marivaldo, não era ele o pai, tinha falado aquilo apenas por brincadeira. E, em seguida, declarou que de acordo com suas contas o pai do menino com certeza era ele, Carlos. Antes de terminar, contou que o nome do filho deles era Roberto, e tinha sido registrado como de pai ignorado. Naquele momento, Carlos ficou um pouco tenso, mas ao mesmo tempo pensava em tudo que tinha ouvido. Depois perguntou a Lúcia por que havia demorado tanto tempo para tomar aquela decisão. Respondeu-lhe que, devido aos problemas que aconteceram durante esse período, ficou com vergonha de comunicar-se com todos seus amigos, principalmente ele, de quem escondia esse segredo. Num clima ainda tenso, terminaram a conversa, pois ele teria de ir à escola. Despediu-se em poucas palavras. Lúcia pegou o ônibus para Brotas e Carlos foi andando para o Tororó, com a mente cheia de dúvidas.
Na empresa em que Carlos trabalhava, tinha um coral formado por alguns de seus empregados, do qual também ele fazia parte, porque gostava de cantar dede os seis anos de idade. Certa ocasião, o coral foi convidado para fazer uma apresentação no Teatro Castro Alves, deixando todos muito alegres, pela possibilidade de cantar naquele importante local, considerado o melhor de Salvador. Como o evento era organizado pela Secretaria de Cultura e Lazer do Estado, foram distribuídos convites entre os participantes dos corais. Os seus, ele deu para alguns colegas de trabalho, familiares, e o último guardou para dar a Lúcia. Na semana da apresentação, encontrou-se com ela e deu-lhe o convite. Prometeu-lhe que iria ao evento. No dia da apresentação do coral, foi ao teatro acompanhado de sua esposa, seu filho e sua mãe. O público que compareceu foi basicamente composto de colegas de trabalho, familiares e alguns amantes daquela arte. Mesmo sendo um encontro de corais amadores, que pela primeira vez cantavam no Teatro Castro Alves, tiveram um desempenho razoável que agradou ao público presente. Como ele estava envolvido numa apresentação do coral, não teve nenhum contato com as pessoas da plateia. Quando foram liberados pela maestrina, somente sua família estava esperando-o.
Em casa, quando comentava sobre a apresentação dos corais, Marina, sua esposa, falou ter visto Lúcia no teatro e estava acompanhada de um menino que corria de um lado para o outro brincando com Tácio e que foi necessário segurá-lo, pois estava dando muito trabalho. Em outro momento do comentário, Marina perguntou-lhe como poderia Lúcia ter ficado sabendo do evento. Respondeu que o motivo teria sido por causa da boa divulgação feita pelos organizadores. Acreditou não ter dado uma resposta convincente para sua esposa, mas foi a que veio à sua mente de imediato. Para evitar mais perguntas, chamou Marina para dormir, insinuando cansaço e sono devido a uma noite bastante agitada.
No ano de 1981, quando  concluiu o curso de eletrotécnica, Carlos foi transferido para  Jequié. Com o passar do tempo, o seu entrosamento com os colegas foi aumentando, principalmente com Adélio, que se tornou seu parceiro de música. Como seu amigo era cristão, participaram de alguns festivais evangélicos. Na mesma época, passou a frequentar a igreja batista, convidado pelo pastor Juvêncio e Evanildes, que era irmã de sua esposa. Em 1985, aceitou Jesus Cristo como seu salvador e uma grande mudança aconteceu na sua vida. Motivado por esses acontecimentos, meses depois passou a sentir a necessidade e vontade de contar à sua esposa um segredo de algo que aconteceu antes do seu casamento. Um dia passaram na casa de Evanildes, como era de costume. Ali chegando, encontraram a família dela reunida. Logo veio ao seu pensamento a lembrança da revelação que ele tinha para fazer e não teria momento melhor. Falou para os familiares dela que tinha uma história para contar e queria atenção de todos. Iniciou contando sobre o namoro que teve com Lúcia na época do colégio, e todo o desenrolar dos acontecimentos em Jequié e Salvador, os momentos no pensionato no Gravatá, até o dia em que Lúcia falou que Roberto era seu filho. Marina não deixou ninguém falar, começou a chorar e ao mesmo tempo condenava Carlos, achando que a relação que ele teve com Lúcia havia acontecido depois do casamento deles. O pastor Juvêncio e as irmãs de Marina deram suas opiniões, orientando sua esposa para agir com calma e analisar o que ele tinha dito, para não tomar atitudes precipitadas. Depois de várias horas reunidas, os ânimos de Marina foram diminuindo devido aos muitos apelos feitos pelos seus familiares. Por algum tempo, teve que ouvir de Marina a mesma conversa acusando-o daquele ato praticado no passado. Feliz ideia que teve de fazer aquela declaração na casa do pastor. Mesmo com a desconfiança de Marina das declarações feitas por Carlos, referente à data em que teve uma relação com Lúcia, nada mudou no ambiente familiar. Apenas evitava contactar com Lúcia e Roberto.
Numa segunda-feira, enquanto trabalhava, foi informado pelo seu chefe imediato que teria que ir a Salvador para tomar um curso de aperfeiçoamento na área comercial. O hotel escolhido foi o Palace, situado na Rua Chile. Na mesma noite que chegou a Salvador, telefonou para Lúcia, mas ela não estava. Pela manhã, conseguiu falar com ela e saber notícias de seu filho. A única novidade era que queria conhecê-lo. Achou mais que justo e então marcaram o encontro para sábado no Shopping Iguatemi, local onde ela trabalhava. Durante a semana, ficou pensando como deveria agir no momento em que estivesse frente a frente com seu filho. No dia combinado, foi grande a sua expectativa. Às 9 horas, pegou o coletivo na Praça da Sé que ia para a rodoviária. Saltou no ponto em frente ao Iguatemi e andou até o local sugerido por Lúcia, que ficava próximo a uma agência do Bradesco. Esperou em pé, encostado numa pilastra junto do banco. Não demorou muito, avistou Lúcia, toda de vermelho e os sapatos de saltos bem altos. Ao seu lado um adolescente mais alto que ela, cabelos compridos, magro e com um sorriso bonito nos lábios. Cumprimentou Lúcia e depois apertou a mão de Roberto, que falou com ele deixando transparecer o nervosismo que estava sentindo. Da sua boca saiu algumas palavras que com certeza há muito tempo tinha desejado falar. Perguntou-lhe se estava bem, chamando-o de pai. Conversaram ali o suficiente para uma apresentação e foram à parte internas do shopping onde passaram todo o dia conhecendo-se melhor. Em cada gesto, um sorriso, um olhar, percebia a alegria de Roberto. Procurou agir de maneira que ele pudesse ficar bastante à vontade, mesmo sendo para Carlos uma experiência nova e difícil de ser enfrentada. No final da tarde, ao despedir-se de seu filho, percebeu o quanto aquele encontro tinha sido importante.
Desde o início, o relacionamento de Carlos com Roberto era muito formal. O sentimento que ele nutria foi sempre de amizade, nunca do amor que um pai sente pelo filho. Outra dificuldade encontrada foi à reação dos seus filhos Tácio, Franco e Isaura, quando souberam que tinham outro irmão. Tácio, o mais velho, foi radical. Fez ameaças, prometendo fugir se Roberto entrasse em sua casa. Franco, o mais novo dos homens, levava na esportiva, mas não era simpático à ideia de ter uma amizade maior com seu outro irmão. Isaura foi quem aceitou Roberto como seu irmão. Falava que gostava dele porque não brigava com ela. Carlos e sua esposa sempre procuravam mostrar aos seus filhos que Roberto não tinha nenhuma culpa no que aconteceu, sendo assim, deveriam aceitar a realidade do fato.
Algumas vezes, Carlos foi questionado por que nunca tinha sido pressionado por Lúcia para assumir a paternidade ou oferecer qualquer tipo de ajuda financeira a Roberto. Respondia que devia ser para não ferir o sentimento das pessoas que realmente assumiram na época todas as necessidades suas e do seu filho. Mas, aproveitando que o relacionamento afetivo entre a família de Carlos e Roberto estava cada vez melhor, Lúcia, começou a falar sobre o registro do nosso filho. Contou-lhe que ele ultimamente tinha estado muito revoltado porque no seu registro de nascimento constava que o seu pai era ignorado e que por causa disso tinha passado alguns constrangimentos quando precisava utilizar o referido documento. Carlos, depois de ouvir o relato dela, ficou bastante comovido. Depois de refletir no que escutara, falou para Lúcia que era justa a revolta de Roberto, mas mesmo assim não iria registrá-lo porque sua esposa não aceitava e temia que este ato causasse conflitos no seu lar. Terminou a conversa sugerindo a Lúcia que desse um pouco mais de tempo.
Como Carlos esperava, o tempo foi determinante nas decisões tomadas pela sua família. Aos poucos, seus filhos Tácio e Franco foram aceitando a possibilidade de terem outro irmão. Confirmando as suas previsões, eles comungaram com a ideia de Roberto poder visitá-los no período de férias do colégio. Tudo aconteceu com a aprovação de sua esposa, que demonstrava ter concordado com a atitude por eles tomada. No dia da visita de Roberto, a mais alegre era Isaura. Franco brincava com Tácio, dizendo que Robertinho logo chegaria para jogar bola com ele na garagem. Tácio, muito sério, não gostou das gaiatices de seu irmão. Quando Lúcia e Roberto chegaram, foram recebidos por Carlos e discretamente cumprimentados pela família. Depois das apresentações, conversaram um pouco sentados no sofá da sala. Isaura ficou quieta, olhando desconfiada para Roberto, que por sua vez contemplava com sorrisos a beleza de sua irmã. O silêncio foi quebrado quando os vizinhos Durval e Marcelo chamaram os meninos para jogar vôlei. Logo ficaram sabendo da presença de Roberto, que foi também convidado. Ainda muito envergonhado, aceitou participar das brincadeiras. Enquanto Carlos mostrava a casa a Lúcia, sua esposa foi para a cozinha fazer uma merenda. Isaura, que tinha ido ajudar sua mãe, foi quem anunciou que o lanche estava pronto. Com muitos elogios ao pão de forno feito por sua esposa, retornaram para a sala onde dialogaram por mais alguns minutos. Pouco antes de se despedir, Roberto pediu-lhe permissão para seus irmãos passarem as férias de junho com ele em Salvador. Respondeu-lhe que somente dependia de eles aceitarem. Num clima diferente do ocorrido na chegada, eles despediram-se de Tácio, Franco, Isaura e sua esposa. Em seguida Carlos foi levá-los no seu carro à casa do pai de Lúcia. Quando manobrava o carro para retornar, contemplou a alegria deles estampada nos seus rostos, manifestando os momentos de felicidade vividos naquele dia.
Em virtude do fortalecimento das relações entre a família de Carlos e Roberto, foram quebradas as barreiras existentes que impediam o registro do seu filho. Consequentemente, passou a pensar com mais frequência nesta real possibilidade. Uma campanha realizada pelo governo com o mesmo intuito foi outro fato que contribuiu para aumentar a sua motivação de concretizar aquele ato de reconhecimento e amor.
Mas, através de um telefonema que deu para Lúcia pedindo informações sobre o pagamento das contas de água e luz do seu apartamento, que gentilmente algumas vezes ela efetuava, teve uma notícia surpreendente. Contou-lhe que seu companheiro, com quem há pouco tempo estava namorando, tinha tomado a decisão de registrar Roberto como seu filho. Ficou por alguns segundos somente pensando o que iria falar. Ainda confuso, perguntou como Roberto havia reagido. Falou que estava muito alegre e satisfeito, pois era um sonho que há muito tempo desejava realizar. Falou com Lúcia que esperava ter sido uma atitude tomada por amor. Ela não deu resposta. Terminaram o diálogo, tratando sobre o assunto do apartamento.
Depois de acertar a venda do seu apartamento pelo telefone, teve de ir a Salvador para assinar a escritura. Ali chegando, ligou para Lúcia, cobrando o documento do I.P.T.U que tinha deixado para ela pagar. Acertou para encontrá-la no shopping Piedade, na parte da tarde, depois que assinasse a escritura num cartório em frente ao relógio São Pedro. Às 16h, chegou ao local combinado. No início da conversa, Carlos falou com Lúcia que sua aparência estava bastante mudada. Sorriu e disse ter sido o corte diferente do seu cabelo. Procurou saber como estava Roberto e o seu companheiro. Enquanto dava notícias de Roberto, pegaram na sua bolsa alguns retratos para que ele conhecesse o seu companheiro. Olhou todas as fotos e achou ele muito parecido com Roberto, mas não comentou nada com Lúcia. Colocou o álbum no balcão e ficou aguardando ela atender um telefonema. Depois que ela guardou as fotografias, saíram procurando um local para sentar, pois ela queria falar com ele. Como não encontraram, ficaram conversando em pé junto de uma lanchonete. Aproveitou e pediu dois cafezinhos. No momento em que a moça da lanchonete colocava as xícaras no balcão, Lúcia começou a falar. Contou que tudo se tinha iniciado no pensionato na rua do Gravatá. Na mesma época do relacionamento amoroso deles, ela havia conhecido o seu atual companheiro, com quem teve um longo caso de amor, e que perdera contato com ele depois que viajou para São Paulo. Com pouco tempo, percebeu que estava grávida e também em dúvida de quem era a criança. Assim mesmo, quando o menino tinha quase quatro anos, resolveu dizer que o filho era seu, preferindo acreditar no instinto de mãe. No seu relato, declarou ter ficado sabendo de amigos que o seu atual companheiro esteve em Salvador noutra ocasião à sua procura, mas não conseguiu encontrá-la. Depois de terminar de tomar o cafezinho, continuou a conversa contando que há dois meses, quando estava no seu trabalho atendendo um cliente, alguém pronunciou o seu nome de uma forma diferente, levantou a cabeça e quando viu quem era ficou parada por alguns segundos não acreditando que era verdade. Conta Lúcia que o silêncio foi quebrado por Marivaldo, aquele com quem teve um caso de amor no pensionato na Rua do Gravatá, que depois de cumprimentá-la disse ter encontrado muita dificuldade para encontrá-la, mas que dessa vez estava preparado para enfrentar todas as barreiras. Disse ter vindo à Bahia com duas finalidades: uma era encontrá-la e a outra era conhecer o seu filho, pois teria de provar para amigos paulistas ter feito um menino em Salvador. Logicamente, ela teve de contar para Marivaldo toda a história relatada até aqui. Marivaldo ouviu atentamente e depois disse a Lúcia que o filho era dele e queria conhecê-lo imediatamente. Ela prometeu que iria conversar com Roberto quando chegasse a casa. Naquele dia voltou para sua residência muito nervosa e aflita, pensando como iria contar para Roberto. Tentou esconder dele o máximo que pôde, mas foi pressionada, colocada na parede devido a seu comportamento ter despertado a curiosidade de Roberto. Foi vencida pela insistência dele e acabou contando. Roberto confessou para sua mãe ter percebido desde o início que Carlos não era seu pai por causa das suas diferenças físicas e a falta de amor no relacionamento deles. No outro dia, quando Lúcia chegou ao trabalho, encontrou Marivaldo que estava esperando-a. Falou com ele que tinha marcado o encontro para o final da tarde. Na continuação do relato, Lúcia disse a Carlos que foi um momento marcado de muita emoção, e os dois se abraçaram e comentaram o quanto era parecido. Depois que concluiu aquela história de definição, declarou que estava novamente apaixonada. Quando ela terminou de falar, Carlos levantou, pagou a despesa e foram até o local do trabalho dela. Despediu-se de Lúcia e foi procurar uma loja de material esportivo para comprar uma camisa oficial do Vitória.

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