quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Dete Leão, o “Dadá Maravilha” Jequieense.


                                                                Charles Meira

Francisco Ribeiro Filho (Dete Leão), na Praça Rui Barbosa – Jequié – BA.

Da Seleção de Jequié que ganhou o Campeonato Intermunicipal de Futebol da Bahia do ano de 1969, vários jogadores fizeram parte de um dos melhores times da Associação Desportiva Jequié (ADJ), que na época foi convidado pela Federação Baiana de Futebol para disputar o Campeonato profissional de futebol da Bahia do ano de 1970. Em dados momentos dos meus 62 anos de idade, tenho lembranças de um jogo com muita confusão e com as arquibancadas de madeira completamente lotadas no extinto estádio Aníbal Brito, que pode ter sido o primeiro jogo da Seleção de Jequié contra a Seleção de Cachoeira de São Félix. Mesmo sem a participação da Seleção de Jequié no Campeonato Intermunicipal de Futebol Amador da Bahia e do time profissional da ADJ, licenciado do Campeonato da 2ª Divisão da Bahia de 2016, vivenciamos o futebol local, quando encontramos e dialogamos sempre com os amigos e jogadores conhecidos, que brilharam nos campos do nosso município. Neste mês de outubro, o prazeroso encontro foi com Dete Leão, um dos maiores jogadores de ataque do futebol da nossa terra, quando na oportunidade, marquei uma data com o artilheiro para entrevistá-lo.
Domingo ensolarado, uma casa simples e no passeio um menino sentado. Uma pergunta e uma resposta afirmando que Dete Leão reside naquele local. O menino que era um dos seus sete netos chamou carinhosamente seu avô, que gentilmente me convidou para entrar e sentar no sofá da sala, onde estava também a sua esposa Maria Auxiliadora Silva Ribeiro e uma dos sete filhos do casal. O meu conterrâneo Francisco Ribeiro Filho, nascido em 02/07/1942, homem de poucas palavras e de raras lembranças do principal tema da nossa entrevista, foi entrevistado utilizando a mesma simplicidade expressada no seu modo de pensar e falar. O apelido de Dete foi dado pelo seu pai, que costumava chamá-lo de Deusdete, nome do seu irmão, enquanto Leão foi colocado pelos amigos jogadores, por considerá-lo uma “fera” dentro de campo. Começou a jogar bola com 5 anos de idade na Rua Félix Gaspar, próximo do antigo prédio da Telebahia com amigos como: Luiz Amaral, Nô e Paulinho que trabalhou na extinta Loja Predileta. Com 14 anos, como aconteceu com outros craques do nosso futebol, jogou no areão do Rio das Contas, nos conhecidos babas de Zilo e do Jacaré com amigos como: Paulo Soldado, Osmar Zagalo, Agamenon, Cheiro, Lissão, Eduardo Corró, Elia da Embasa, Roque Bicudo e vários outros. Na mesma época, Jogou no campo do Cururu, no time do CSA, onde também foi técnico, Cruzeiro e Canto do Rio. Com 17 anos, fazendo sucesso nos campos da cidade, foi convidado para jogar no time do Flamengo de Ananias, de Izidoro, onde jogou com: Pino, Lissão, Gogó, Pascoal, Tanajura, Bara e muitos outros excelentes jogadores do futebol amador de Jequié. Dete Leão atuou por quase 10 anos como jogador do Flamengo, seu time do coração, onde sempre foi artilheiro, quatro vezes campeão e como prêmio foi convocado para a Seleção de Jequié. No Vasco da Gama, time do proprietário da extinta Casa Amaral, Dete jogou durante um pequeno período. No ano de 1969, jogando na Seleção de Jequié foi campeão do Campeonato Intermunicipal de Futebol Amador da Bahia, competição realizada contra a Seleção de Cachoeira de São Félix em três jogos. A primeira em Jequié foi 0X0. Na segunda partida, Dete Leão sentiu-se mal, vomitou verde, não atuou e o jogo foi novamente 0X0. Na terceira que aconteceu no Campo da Graça em Salvador, Dete já recuperado, jogou e o time venceu por 3x2.
É interessante lembrar, que na ocasião quando jogava no futebol amador de Jequié, Dete Leão exerceu outras profissões. Como o jogador amador na sua maioria não tinha salários fixos, Dete trabalhava como borracheiro e mecânico, atuando como profissional liberal no bairro da Cidade Nova. Segundo o radialista Edísio Santana, Dete Leão em certa época também fazia e vendia vasilhas para colocar lixo, reciclando pneus descartados no local onde trabalhava.
O nosso “Dadá Maravilha” jequieense não atuou no time profissional da ADJ, preferindo na ocasião aceitar um convite para jogar em outra cidade da Bahia e posteriormente em alguns estados brasileiros.  Dete Leão foi jogar inicialmente em Vitória da Conquista – BA no time amador do União. Em seguida, jogou no time amador do Atlético de Joaíma - MG, onde teve a oportunidade de enfrentar o Atlético de Minas Gerais em jogo amistoso. De Minas foi para a capital paulista, jogar em um time amador formado por jogadores de Jequié. Depois desembarcou no Rio de Janeiro na “Cidade Maravilhosa” e foi jogador do time amador do América, local onde o goleador foi convidado para jogar na equipe profissional do Bangu, porém a transação não foi concretizada.
Sem precisar datas, Leão falou que retornou para Jequié e foi jogar novamente no time amador do Flamengo e que no final da década de sessenta, época que se casou, deixou de jogar no time do coração e continuou apenas jogando nos babas realizados no campo do cururu.
O amante do futebol da nossa terra que desejar rever o grande artilheiro Dete Leão, homem simples, calado, aposentado e amante também dos filmes antigos de faroeste e jogar uma partida de dominó, vai à Praça Rui Barbosa, próximo da fonte luminosa no período da manhã.
Pelo motivo do nosso entrevistado falar muito pouco e mostrar-se muito esquecido, não foi possível resgatar a sua história na totalidade, entretanto por meio de conversas com pessoas amigas que conviveram com Dete Leão naquela época, conseguimos mais detalhes importantes da sua carreira de jogador de futebol através destes depoimentos:
Com Waldemir Vidal o melhor comentarista de futebol do Brasil, visitamos o Alfaiate Antônio Assis “Bria”, ex-presidente do Estudante, time de futebol amador de Jequié. Muito alegre e solicito, Bria falou que Dete Leão era um jogador que atuava mais parado na área adversária. Com uma pausa para atender os clientes que não paravam de chegar ao seu ateliê, o grande desportista continuou contando também, que o nosso goleador gostava de partir com a bola dominada em direção ao gol e de receber as bolas cruzas da linha de fundo, pois jogava de frente para o goleiro. Outras qualidades citadas foram de que Dete era um jogador trombador, forte e muito bem preparado fisicamente.
Marivaldo Costa Azevedo “Maíca”, jogador do time do Flamengo, da Seleção de Jequié e da ADJ, deixou este depoimento em uma lanchonete próximo ao Jequié Tênis Clube. No relato escrito num pedaço de papel pautado, o colega de time e seleção, diz lembrar muito “O Darío Maravilha”, em referencia ao artilheiro Darío, jogador do Atlético Mineiro e da Seleção Brasileira. Com uma letra bonita, entendível, Maíca conta que Dete Leão tinha chute fraco, subia e driblava pouco, contudo tinha uma presença de área fortíssima. Descreve que Barachisio (Bara), era o parceiro predileto de Leão no time do Flamengo e na Seleção de Jequié, onde tinham um entendimento perfeito, entretanto com o também atacante Tanajura não se entendia dentro de campo. Segundo o escrito de Maíca, a escalação predileta de Leão era: Edmilson, Tufú, Carlinhos, Zé Augusto e Pascoal. Maíca e Bajara. Zé do Bife, Bara, Dete Leão e Marcos, presidente do clube o melhor foi Maneca Sampaio.
Outro que fez questão de dar seu depoimento foi Antônio Alberto Gomes Costa “Pascoal”, Jogador do Flamengo e da Seleção de Jequié. Escreveu que falar sobre Dete Leão é muito bom, pois foi adversário e seu parceiro, quando jogaram no Flamengo e na Seleção de Jequié. Nas devidas proporções, achava Leão parecido com “Dadá Maravilha”, devido sua humildade e na maneira como fazia gols feios, bonito, de qualquer jeito, o importante era a bola entrar. Pascoal um dia assistiu uma entrevista com Darío, onde o jogador falou que só aprendeu a fazer duas coisas na vida: filhos e gols. Pascoal só conhece um filho de Dete, porém gol viu fazer muitos. Contou também que no último Jogo que fizeram juntos no estádio Aníbal Pires (Cururu), jogo entre veteranos, jogou no meio de campo e Dete centroavante, ganharam de 7X1, fez 3 gols e Dete 2. Contou com alegria, que hoje sempre encontra com o esta pessoa humana na Catedral de Santo Antônio, onde acontece no período da manhã o momento de orações. Encerra dizendo que foi seu admirador como jogador goleador, um “matador”. 
Com seu palavreado simples, Barachisio Ferreira “Bara”, jogador do Flamengo, Seleção de Jequié e da ADJ, falou do divertido amigo, do jogador que não era craque, jogava normalmente mordendo a língua, porém piorava o gesto quando estava zangado, do atacante que recebia a bola de Bara e o procurava para devolvê-la, entendimento que era sempre citado por Dete. Contou que Leão nunca se zangou em campo com ele, entretanto ficava furioso quando recebia uma bola errada dos outros jogadores. Depois de uma risada, relatou que na concentração aqui em Jequié para o primeiro jogo contra a Seleção de Cachoeira na final de 1969, quando estavam todos na sala jogando baralho, dominó, Dete Leão entrou gritando: “furei o tipo, furei o tipo, coloquei um palito no ouvido e furei o tipo”. Começaram a sorrir, entretanto chamaram o médico do clube para atendê-lo. Com referencia a este fato, sua esposa acrescentou na entrevista, que Dete hoje usa aparelho no ouvido para surdes, que na opinião da junta médica pode ter sido causada, devido à perfuração do tímpano naquela época.
O último e muito aguardado depoimento foi o de Dilermando Martins Neves “Dilermando”, Jogador do Flamengo, Seleção de Jequié e ADJ, enviado através de um bate-papo no facebook. Nesta mensagem o centroavante considera Dete Leão uma figura importante no futebol amador de Jequié e um atacante de muita força física, que enfrentava as defesas fazendo seus gols. Conta que Dete reclamava dizendo que tínhamos medo de enfrentar os beques adversários. Respondia pedindo que ele trombasse na área, para a bola sobrar e fazermos os gols. Ficava louco de raiva! Fala também que Dete Leão era como Darío, chutava de bico, de canela e a bola entrava. Relata que o goleador não era de muita conversa com ele, Tanajura, Edmilson, Maica, Zé Augusto, Tufú. Um fato que Dilermando não esquece, aconteceu em um almoço na concentração, quando Dete Leão após almoçar bem, pegou vários bifes enrolou num jornal, colocou debaixo da cama, dizendo que era para comer mais tarde. Dilermando encerra o seu depoimento dizendo que Dete Leão foi realmente uma figura pitoresca.

* Matéria editada na Revista Cotoxó de dezembro de 2016.

Errata. Segundo Dilermando, os resultados de dois dos jogos contra a Seleção de Cachoeira estão incorretos na matéria. Os resultados corretos foram: primeiro jogo 1X0 para a Seleção de  Jequié e no segundo 2X0 para a Seleção de Cachoeira.

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