quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Pergunta 6 - Blog Certeza da Vitória, entrevista o professor Émerson Pinto de Araújo.

Charles Meira e Émerson Pinto de Araújo

Pergunta 6 - Blog Certeza da Vitória: Qual a importância da leitura na sua vida e para toda a humanidade?  


Émerson Pinto: Bem, a leitura é importante. Os evangélicos, os católicos têm justamente a bíblia como praticamente um livro de cabeceira, consultado a todo o momento, porém existe a leitura profana e gosto muito de romance, das crônicas, algumas peças de teatro e, tive uma influência muito grande com as obras de Dostoievski, que iniciou o romance psicológico. Ele está para o romance psicológico, assim como Shakespeare está para o teatro, você pega, por exemplo, Shakespeare, cada peça dele pode botar o nome de uma virtude ou de um defeito, pega Romeu e Julieta é o amor, Otelo é o ciúme e no romance social Balzac. Balzac abriu o caminho para os escritores mais modernos. O único livro que me deu um trabalho muito grande para ler, que revolucionou a literatura, foi justamente “Ulysses” de James Joyce, são mais de oitocentas páginas e a tradução foi de Houaiss. Houaiss é lexicólogo e na tradução ele complica. O livro era difícil e mais difícil ficou, levei quase um mês para ler. Agora no Brasil, não posso deixar de citar Machado de Assis. Dos escritores modernos, estou muito ligado a Guimarães Rosa, que inovou a língua portuguesa. Estou também ligado é claro, que gosto de Jorge Amado, porque sou baiano e de Graciliano Ramos. Graciliano Ramos tem um português corretíssimo, até parecido com o de Machado de Assis, porque de um modo geral existem aqueles que escrevem certo e os que escrevem bem, tem uns que escrevem certo, mas são chatos que não é brinquedo, não tem espontaneidade e, outros que escrevem bem, porém muitas vezes não escrevem certo, mas a gente gosta da leitura e, Graciliano Ramos escrevia certo e escrevia bem. Então, acho que na literatura o que devemos observar é o seguinte: não deve ser como a âncora que segura o barco e o barco não pode seguir adiante, tem que ser como a vela que vai levando o barco até a enseada bendita.
            Admiro também na poesia, por exemplo, gosto da crônica e estou pensando em reunir algumas das minhas crônicas num livro, porque sempre falam, Émerson Pinto é história, então aquela outra face ficou escondida. São crônicas que tocam da realidade e tocam também esperanças futuras, tanto que se chegar a publicar este livro, vou dar justamente como título “O Barro e o Sonho”, quer dizer: a realidade e o que se pretende melhorar. Na crônica, admiro muito Rubem Braga, que soube juntar o humor, ironia com a parte poética. Tem crônica de Rubem Braga, que são verdadeiras poesias em prosa, tenho uma grande admiração, inclusive a maneira como ele usa o verbo, porque às vezes você pode fugir do comum, mudando o verbo, por exemplo, tem uma crônica dele, que fala de um piquenique e dizia que “Teodora é quem mais fazia”, fazia olhos azuis, em vez de tinha olhos azuis. Carlos Drumonnd de Andrade por sua vez no seu poema, diz que “no meio do caminho tinha uma pedra”, dizendo com isso, que poderia fazer muitas coisas boas no caminho, porém se dissesse uma topada, esqueceria a lembrança da dor. O instinto prevalece sobre a imaginação e, diziam que isto não é poesia.
            Antigamente os poetas viviam naquela fase de boêmia, viviam pouco tempo. Castro Alves não chegou aos vinte e quatro anos de idade, Álvaro de Azevedo, Bilac que chegou aos trinta e seis anos de idade, mas hoje os poetas com o recurso da medicina já chegam à idade mais avançada, são mais amadurecidos, a poesia moderna não é jogada apenas para o sentimento, é também jogada para a razão, você vê pelo exemplo que Manoel Bandeira na época em que disse: “uns tomam álcool, outros tomam cocaína, eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria”, usou o verbo fugindo do lugar comum, quando falou esta frase, Bandeira já estava curado. Teve outro poeta, não recordo agora se foi Carlos Drumonnd de Andrade, que em vez de dizer que Minas era um estado central ele disse: “Minas tem muitas Janelas, nem uma se abre para o mar”, o contexto da poesia moderna é bem diferente.
            Depois de passar um pouco da minha experiência sobre a leitura, aconselho que as pessoas comecem cedo, desde o tempo de criança, lendo histórias para as idades próprias. Não devem faltar os incentivos dos pais e das escolas, se não os mesmos vão procurar outros atrativos. Tem a televisão, o esporte, que devem observar, porém sempre deixar um tempo reservado para a leitura.


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