Por Charles Meira, Artiludo e Rafael Junior.
Após a efervescência
da Bossa Nova, do Rock e em meio ao movimento da Jovem Guarda, dos festivais e
do tropicalismo foram pintando vários jovens pensadores, estudantes do I.E.R.P
(Instituto de Educação Régis Pacheco), um dos maiores e melhores colégios do interior
da Bahia, na época, local adequado para o nascimento de grandes amizades,
proporcionada pelo poder agregador da arte musical.
Depois do entrosamento na escola, o
bate-papo foi estendido para a casa de Dona Maria Letícia, mãe de Charles e
Tomaz e do Sr. Rafael Vieira pai de Rafael, lugares onde surgiram muitas ideias
durante as reuniões ocasionais do grupo. Em frente à casa de Charles e Tomaz,
na Avenida Rio Branco, esquina com a Rua Dr. Ademário Eloy Silveira, rua que
vai dar no Hospital Prado Valadares, ficávamos até altas horas da noite tocando
violão e jogando conversa fora. Os papos eram sempre sobre música, teatro,
artes em geral e filosofia. Sempre apareciam visitantes como Jackson Santos,
Clóvis (Cói); Mário Alves Filho (Marinho) também parava sempre que passava por
ali; e Jocélio que tocava no conjunto Quinta Dimensão. As meninas da redondeza
frequentavam sempre nossas reuniões e todos ficávamos na paquera. Quem mais
descolava namorada era Charles, Tomaz e Luiz. Artiludo (sempre bem humorado)
fazia piadas com as nossas reuniões e chamava aquele lugar de o “cambaré”.
O grupo de jovens
existia, entretanto não tinha nome para unir e identifica-lo. Inicialmente foi
escolhido CLAPT, formado pela inicial dos nomes dos componentes. Charles,
cantor e compositor, Luiz, cantor compositor e violonista, Artiludo,
compositor, Agenor, desenhista, Pedro, compositor e Tomaz, cantor e compositor.
Posteriormente com a chegada de Rafael, cantor, compositor e violonista, passou
a chamar-se CLARPT.
Além de cantar, o
grupo também agitava com outras atividades culturais no IERP (chamado pelos
jovens de Ginásio Estadual). O grêmio do IERP na época editava um jornal
chamado “Antena”. Para concorrer com eles lançamos um jornalzinho chamado “O CLARPT”.
Rafael e Tomaz escreviam a maior parte das matérias, Pedro e Artiludo escreviam
poesias, Agenor (Zinho), Val Rodrigues e Charles cuidavam dos desenhos e
ilustrações e Luiz assessorava em tudo. O jornal era impresso em
mimeógrafo, contudo ousamos ao fazer a impressão com várias cores, o que era um
avanço para a época, enquanto o jornal do grêmio era feito em preto e branco.
Publicávamos matérias sobre diversos assuntos, porém o que mais se destacou
foram às entrevistas. No primeiro número entrevistamos Mário Alves Filho
(Marinho), falando sobre o conjunto Bossa 6. No segundo conseguimos entrevistar
Garrincha (que estava de passagem em Jequié para um jogo beneficente). E no
último jornal entrevistamos o cantor Sergio Reis (quando ele ainda não era
sertanejo). Naquela época ele era do movimento Jovem Guarda e seu grande
sucesso era a música “Coração de Papel”. Entrevistamos também o músico Judimar
Ribeiro “Buneco” que participou do Bossa 6, porém não sabemos em qual edição
foi publicada. A grande frustração do grupo foi com o cantor Ronie Vom, que
marcou vários horários para conceder entrevista no hotel, entretanto não fomos
recebidos. A circulação do tabloide foi interrompida no terceiro número, devido
à publicação de uma charge feita por Agenor, mostrando uma pessoa descendo de
um avião carregando várias malas. José Peixoto (Falecido) um amigo do grupo que
morava próximo da casa de Charles apelidado de Goiabão, ficou sabendo de que a
historia da charge estava relacionada com as constantes "malas" que
ele tomava das meninas nas festas do Jequié Tênis Clube. Enfurecido ele foi à
casa de Dona Maria, mãe de Charles xingado os componentes do jornal e jogando
para cima tudo que encontrava na sua frente e os ameaçando, caso o tabloide
continuasse circulando. Depois de uma reunião do grupo, resolvemos acabar com o
jornal e manter um bom relacionamento com o nosso amigo.
O teatro era outro
sonho do grupo. Rafael e Tomaz até começaram a escrever um texto baseado na
música “Pedro Vicente” composição de Rafael e Luiz, para montar uma peça
teatral. A letra era mais ou menos assim: Traz no peito a coragem, no punho a verdade. Nos olhos o
horror, porém na
intimidade existe um
detalhe, um lugar reservado onde guarda um amor. Carolina é a menina e Pedro um pobre
sofredor. Por amar
sem ser amado, mata e
morre por amor. Ele
nasceu no nordeste, é cabra valente, é cabra da peste. É Pedro Vicente temido por todos, até pela morte. Infelizmente este
projeto não foi concluído.
Diferentemente
continuava acontecendo na música, o elo principal e fundamental da formação do
grupo. Participávamos juntos ou separadamente de todos os festivais de Jequié e
região. Charles iniciou nos festivais cantando uma música de Reinaldo Pinheiro
“Taninha”, ganhando como melhor interprete evento realizado no Cine
Auditórium.
Na Inauguração do
Auditório do I.E.R.P. em 28 de agosto de 1971, foi realizado o terceiro
festival de música do colégio. Nomes conhecidos da comunidade artística
participaram do evento. O auditório estava superlotado, torcidas organizadas
agitavam com bandeiras cartazes e faixas. Artiludo ficou em primeiro lugar com
a música de sua autoria “Paz e Amor”, interpretada por Charles. Em segundo
lugar a música “Canto de um Hippie”, letra de Artiludo e a melodia de Charles e
Artiludo, interpretada por Charles e Luiz. Neste mesmo ano, Charles, Tomaz e
Artiludo foram participar de um programa de televisão em Salvador, que marcava
a comemoração do aniversário de Jequié. Em outro festival da cidade, Rafael participou com a
música Incerteza (a primeira música dele), cantada por Tomaz. Rafael fez músicas em
parceria com quase todos do grupo, mas o parceiro que com quem produziu em
maior quantidade foi Pedro, participando de vários festivais e sempre entre os
primeiros colocados. Em 02 de setembro de 1972, Rafael participou do IV
festival do I.E.R.P com a música “Gozação” cantada por Rafael e “Ai de Mim”
interpretada por Mano. Artiludo participou com a canção intitulada “O Que
Vale”, cantada por Charles. No V festival de do I.E.R.P, realizado em 16 de
setembro de 1973, Artiludo participou com a música Semi-Revelação da Humanidade,
Rafael com Bate-Papo e Pedro Vicente em parceria com Luiz e Charles com a
música O Tempo sem Você. Nessa época, a maior parte das músicas eram compostas
pelos componentes do grupo.
Durante e depois dos
festivais o grupo tinha intensas atividades no IERP, principalmente com o
jornal e nas noites cantando nos bares e boates de Jequié. No posto Cidade Sol,
na Av. Franz Gedeon, o grupo também cantava muito. Uma noite que estávamos com Edinísio
(Falecido) e a galera, cantamos aquela música "se tu soubesses o que é
amor, avaliava o que é paixão, se tu soubesses amor quanto é belo, anjo formoso
do meu coração..." uma garçonete do posto chorava e servia uma rodada de
cerveja grátis. Edinísio chamou a música de "Colírio de Garçonete". O
grupo cantou também no programa Trekus e Transas, apresentado na Rádio Baiana
por Rocha Figueiredo uma música que tinha um refrão assim: “Mas eu não sou
marinheiro, estou sem dinheiro e não sei nadar...”. A gente fazia um vocal
muito bonito. Nesta época Luiz e Tomaz viajavam muito para Salvador, onde
assistiam aos principais shows de Caetano, Gil, Gal, Bethânia e muitos outros.
Eles sempre voltavam com novidades, que acabavam influenciando nosso trabalho. Numa
dessas viagens, Luiz depois de levar um ano juntando moedinhas num
cofrinho, conseguiu o suficiente para comprar um violão Di Giorgio em Salvador.
Quase todo mundo tocava com Gianini ou Tonante e o violão de Luiz era o maior
sucesso. Entusiasmados pelas novidades que Luiz e Tomaz traziam de
Salvador, nós começamos a incluir músicas de outros compositores em nosso
repertório. No começo houve algumas resistências, mas no final todos acabaram
concordando que a mudança enriqueceria o trabalho do grupo.
Foi então que no ano
de 1974 surgiu a ideia de fazer o Show Clarpt Número Último. Numa dessas
reuniões cada um de nós ia citando as coisas que precisavam ser feitas: “Tem
que fazer os cartazes” dizia alguém. “Nego faz”, todos respondiam. “Precisa
arranjar patrocínio” falava outro. “Nego arranja”, todos repetiam. “Tem que
pintar as faixas”, alguém acrescentava. “Nego pinta” repetiam os demais. E
assim a coisa prosseguiu até que Artiludo se levantou revoltado e disse o
seguinte: “Eu estou desconfiado que nego sou eu. Porque tudo nego faz, nego
arranja, nego pinta e sempre quem acaba fazendo sou eu... Assim não dá”. Todos
caíram na gargalhada e no final acabamos entrando num acordo sobre dividir as
tarefas. O show foi algo diferente de tudo que acontecia no momento.
Inicialmente contratamos a Banda Embalo 4, considerada uma das melhores da
região para acompanhar o repertório, que tinha a seguinte a formação: Gazo,
Guitarra; Boca, Bateria; Roque, vocal; Haroldo, vocal; Gatinha, baixo;
Raimundo, vocal; Socó, sax e Tonhe, teclado. Por vários meses ensaiamos numa
casa na Avenida Rio Branca próxima a Praça do Viveiro. Convidamos também o
Cenógrafo e membro do grupo Agenor Oliveira Filho para decorar o palco do
auditório, onde seria realizado o show. Usando bastante criatividade, Agenor
montou e ornamentou o local. No fundo, engradados retangulares bem altos e
forrados com tecidos coloridos. Na parte da frente foram colocadas cinco caixas
de papelão, grandes e decoradas. Ficou muito bonito. A programação começou com
o auditório lotado. Como fundo musical, o início da música “Jesus Superstar”. A
cortina foi aberta, luzes de várias cores e, como surpresa, os componentes do
grupo surgiram sem camisa de dentro das caixas ali colocadas. Durante a
programação, as vestimentas eram trocadas de acordo com o tema de cada música
de um repertório bem diversificado e atual. Foram apresentadas as seguintes
músicas: Filhos de Gandhi (Gilberto Gil); Cachorro Urubu (Raul Seixas/Paulo
Coelho); Terremoto (João Donato/Paulo C. Pinheiro); O Que Falta em Você (Pedro/Luiz);
Pois é seu Zé (Luiz Gonzaga Junior); Iansã (Gilberto Gil/Caetano Veloso); O
relógio Quebrou (Jorge Mautner); Semi-revelação da Humanidade (Artiludo);
Pot-pourri – Al Capone (Raul Seixa/Paulo Coelho) e Pif-paf (Luiz Meira); Tua
Presença Morena (Caetano Veloso); Pot-pourri (Ser ou não Ser (Luiz/Rafael) e
Maracatu Atômico (Jorge Mautner/Jacobina); Tatuagem (Chico Buarque/Rui Guerra);
Pesadelo (M. Tapajós/Paulo C. Pinheiro); Futuroscopia (Artiludo); Pot-pourri - (Não
Existe Pecado, Ao Sul do Equador, Boi Voador, Não Pode e Infermoroso (Tomaz/Luiz);
Ladeira da Preguiça (Gilberto Gil); Lama (P. Marques/A. Chaves); Felicidade Foi
Embora (Lupicínio Rodrigues); Tu Me Acostumbraste; Pot-pourri – Terra (Edinardo)
e Rosa de Hiroshima (Vinícios de Moraes); Pot-pourri – O Sonho Acabou (Gilberto
Gil) e Cantiga do Sapo (Jackson do Pandeiro). No final do show o grupo foi
elogiado e parabenizado pelos críticos musicais da época e a plateia em geral.
Em 1975 o CLARPT
acabou, devido alguns componentes mudarem para Salvador, impossibilitando o
grupo continuar a trajetória musical em Jequié.
Hoje Charles Meira é
cantor evangélico, compositor, escritor e artesão em Jequié - BA, Luiz Meira é
compositor, Policial Rodoviário Federal e membro da Igreja Adventista em Jequié
- BA, Artiludo (Florisvaldo Figuerêdo Fernandes) é artesão, compositor,
escritor e membro da igreja Adventista em Jequié – BA, Agenor Oliveira
(Falecido), Rafael Junior é escritor, músico e pedagogo em São Paulo – SP,
Pedro Nogueira (Falecido) e Tomaz Meira é cantor evangélico, compositor e
pastor da Igreja Adventista em Petrolina – PE.
*Texto editado na Revista Cotoxó
de outubro 2015
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