Em artigo publicado no jornal A Tarde, edição de 27 de novembro de 2014, o poeta e escritor Ruy Espinheira Filho se reporta ao I Encontro de Escritores de Jequié, onde foi um dos participantes. O artigo fala, ainda, de projetos culturais e de livrarias além de fazer protesto contra o fechamento da Biblioteca Newton Pinto de Araújo, em Jequié.
“Um passo para trás? Muitos e imensos passos para trás. Não, uma cidade como Jequié não pode ficar sem biblioteca”, diz trecho do artigo.
“Um passo para trás? Muitos e imensos passos para trás. Não, uma cidade como Jequié não pode ficar sem biblioteca”, diz trecho do artigo.
Em seu perfil no Facebook, o jornalista jequieense Domingos Ailton R. de Carvalho reproduziu a íntegra do texto de Ruy veiculado por A Tarde, o qual também disponibilizamos a seguir:
“Eis que retornei a Jequié, depois de alguns anos, para falar na abertura do 1º. Encontro de Escritores de Jequié e Região, realizado entre 7 e 8 deste mês. Os mais curiosos perguntarão por que me convidaram a participar desse evento – e eu respondo: é que passei a minha adolescência em Jequié. Inicialmente, como aluno do internato do Ginásio de Jequié; depois, concluindo o curso no Colégio Estadual de Jequié. Como se não bastasse esse logo tempo lá vivido, em 2002 a Câmara Municipal de Jequié me outorgou o título de Cidadão Honorário. Enfim, sou um Jequieense de vida e titulação. Modéstia à parte.
A participação no encontro me deixou especialmente orgulhoso por ver que, apesar das imensíssimas dificuldades, a literatura não morreu na região. Claro que não é coisa da maioria, como nunca foi, mas a leitura e a arte da escrita ainda contam com os que as praticam com lucidez intelectual e emocional. Há inquietações, questionamentos, projetos e realizações cujo tema principal é a literatura. O que significa que nem tudo está perdido.
Perguntei por livrarias – e fui levado a um supermercado. Lá estava a livraria, com muitos títulos, mas quase tudo dispensável, como é moda nas livrarias de hoje. No meu tempo, havia duas livrarias, a Sudoeste e a de Dona Lélia. Pobres, sim, mas tinham livros – e o proprietário da primeira, Osvaldo Silva, acompanhava os lançamentos e consultava os intelectuais, lembro-me de meu pai fazendo-lhe encomendas. Hoje, vou a um supermercado, não encontro Vinícius de Moraes, nem Rubem Braga, nem qualquer outro autor que julgara mais adequado para o presente que pretendia dar,e acabo comprando exemplar de Moby Dick; tradução que não conheço, mas espero que algodo grande Herman Melville tenha sobrevivido nela…
Bem, conversei com várias pessoas, perguntando sobre a cidade, que cresceu muito. Eu, que longamente a percorri outrora, hoje poderia me perder em tantos novos bairros, praças, ruas e avenidas. Estão construindo edifícios até mesmo nos morros que circundam a cidade – e logo se dirá que Jequié não é cercada de morros, mas por um paredão habitacional… É o progresso, como dizem, paciência.
E então quis saber como ia a Biblioteca Municipal Newton Pinto de Araújo, que tanto me entusiasmara nas duas visitas que lhe fizera – e me responderam que não sabiam. Ou melhor: que parecia estar em reformas. E os livros? Nenhuma informação. Mas alguém disse que a prefeitura chegara a planejar substituí-la no prédio pela Secretaria Municipal de Saúde, o que causou polêmica. Seja como for, com secretaria ou não, o que apurei é que a biblioteca não está funcionando e não se sabe o que lhe acontecerá.
Um passo para trás? Muitos e imensos passos para trás. Não, uma cidade como Jequié não pode ficar sem biblioteca – e biblioteca como estava instalada até recentemente, com dignidade e funcionários operosos, contentes com o belo serviço que estavam prestando à comunidade. Sim, porque assim era, eu vi, eu testemunhei – e me senti feliz pela cidade e pela cultura. Felicidade que desejo sentir novamente quando – espero que em breve – retornar à Jequié da minha adolescência e da minha saudade.”(Veiculado originalmente por A TARDE -27/11/2014) (Enfoque Cultural)
A participação no encontro me deixou especialmente orgulhoso por ver que, apesar das imensíssimas dificuldades, a literatura não morreu na região. Claro que não é coisa da maioria, como nunca foi, mas a leitura e a arte da escrita ainda contam com os que as praticam com lucidez intelectual e emocional. Há inquietações, questionamentos, projetos e realizações cujo tema principal é a literatura. O que significa que nem tudo está perdido.
Perguntei por livrarias – e fui levado a um supermercado. Lá estava a livraria, com muitos títulos, mas quase tudo dispensável, como é moda nas livrarias de hoje. No meu tempo, havia duas livrarias, a Sudoeste e a de Dona Lélia. Pobres, sim, mas tinham livros – e o proprietário da primeira, Osvaldo Silva, acompanhava os lançamentos e consultava os intelectuais, lembro-me de meu pai fazendo-lhe encomendas. Hoje, vou a um supermercado, não encontro Vinícius de Moraes, nem Rubem Braga, nem qualquer outro autor que julgara mais adequado para o presente que pretendia dar,e acabo comprando exemplar de Moby Dick; tradução que não conheço, mas espero que algodo grande Herman Melville tenha sobrevivido nela…
Bem, conversei com várias pessoas, perguntando sobre a cidade, que cresceu muito. Eu, que longamente a percorri outrora, hoje poderia me perder em tantos novos bairros, praças, ruas e avenidas. Estão construindo edifícios até mesmo nos morros que circundam a cidade – e logo se dirá que Jequié não é cercada de morros, mas por um paredão habitacional… É o progresso, como dizem, paciência.
E então quis saber como ia a Biblioteca Municipal Newton Pinto de Araújo, que tanto me entusiasmara nas duas visitas que lhe fizera – e me responderam que não sabiam. Ou melhor: que parecia estar em reformas. E os livros? Nenhuma informação. Mas alguém disse que a prefeitura chegara a planejar substituí-la no prédio pela Secretaria Municipal de Saúde, o que causou polêmica. Seja como for, com secretaria ou não, o que apurei é que a biblioteca não está funcionando e não se sabe o que lhe acontecerá.
Um passo para trás? Muitos e imensos passos para trás. Não, uma cidade como Jequié não pode ficar sem biblioteca – e biblioteca como estava instalada até recentemente, com dignidade e funcionários operosos, contentes com o belo serviço que estavam prestando à comunidade. Sim, porque assim era, eu vi, eu testemunhei – e me senti feliz pela cidade e pela cultura. Felicidade que desejo sentir novamente quando – espero que em breve – retornar à Jequié da minha adolescência e da minha saudade.”(Veiculado originalmente por A TARDE -27/11/2014) (Enfoque Cultural)
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