Relembrando o saudoso escritor ipiauense, vale a pena conferir a narrativa inserta em “64: Um prefeito, a revolução e os jumentos” (NETO, 1983,p.156):
A Revolução
… Estava no Quartel, já cansado de esperar, o tempo crescendo, quando surgiu Marcelo, meu filho caçula. Podia ter ele quatro anos de idade, ou menos. Tão novinho e já tão amigo. Passava por minha sombra mirim nas obras, inaugurações, nas pedras fundamentais, nas cerimônias, nas visitas de autoridades. Em qualquer tempo e hora lá andava ele no meu faro e rastro: pés no chão, perninhas cambotas, nu, às vezes, fugido do zelo da mãe, Angélia. Nos lugares mais impossíveis aparecia, não sei como, nem levado por quem.
Pois bem. Naquele dia que saí escondido, refugiando-me na delegacia, no fundo do quartel, em lugar onde habitualmente não ia há bastante tempo, pois o cargo de prefeito não deixava advogar, foi ali que Marcelo apareceu com seus olhos tranquilos e amorosos de alma nobre, já na tenra idade, puxou meu paletó e perguntou balbuciando:
– Por que vão te prender, painho?
Agnóstico, irreverente, mas um mundo de misticismo abateu-se sobre mim. Quem teria informado àquela criança, meu filho, com toda a força telúrica de alguém que pronuncia: meu filho! Quem tê-lo-ia informado que o pai esperava prisão? (Revista em Foco)
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