Bené Sena, músico e ex-secretário de cultura em Jequié. Foto: Gicult
Por meio da entrevista abaixo, o GICULT faz uma homenagem ao músico e cidadão jequieense (ainda sem o título) BENEDITO SENA (BENÉ) que começou a gozar sua aposentadoria, mas continua na ativa com suas opiniões e o ritmo de sua bateria, uma de suas paixões. Através das respostas às perguntas, é possível perceber sua importância no cenário cultural e artístico da cidade e os bons exemplos e ideias que apresentam para o município avançar em diversos setores, sobretudo na área cultural, na qual se dedica com muita música, poesia e bom gosto. Sua preferência pela música clássica, bem elaborada, aguçou sua sensibilidade para apreciar as boas produções brasileiras e a cultura popular e libertária. Para Bené, “precisamos de mudanças para uma vida de paz e respeito, livre do preconceito, do fanatismo, do fundamentalismo de toda ordem”.
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GICULT: Você e seus pais são de Jequié?
BENEDITO SENA (BENÉ): Não nasci em Jequié, nem meus pais. Somos de Nazaré das Farinhas, eu e minha mãe. Meu pai é de São Miguel das Matas. Maioria de tios primos irmãos é de Nazaré.
GICULT: Desde quando você mora no município de Jequié?
BENEDITO SENA (BENÉ): Vim para Jequié com seis meses de nascido. Meu pai veio assumir a gerência da Estação Ferroviária da Estrada de Ferro de Nazaré em Jequié. Ali onde hoje funciona o Corpo de Bombeiros 1947.
GICULT: Quando começou a atuação na área artística? Sob influência de alguém?
BENÉ: Comecei na Casa Paroquial, com Leonor fazendo teatro da Cruzada Eucarística. Na adolescência veio a música num grupo chamado Atalaia que depois virou Bossa Seis.
GICULT : Quando começou a funcionar aquele grupo musical de que você participava com Carlos Éden?
BENÉ: Tocamos juntos já na década de 90. Na juventude não tive esta sorte.
GICULT: Qual sua preferência musical e opinião sobre a música que tem espaço nas rádios e fazem sucesso com a juventude?
BENÉ: Tenho preferência por música bem elaborada, séria, com conteúdo e cultura. Infelizmente, muitas obras de grandes compositores tanto popular como erudito não fazem parte da programação das rádios. Não só aqui em Jequié. Mas como moramos aqui temos que conviver com isso.
6) Na rádio, seu programa musical Armarinho de Miudeza começou quando? Por que foi importante esta homenagem a Waly Salomão?
BENÉ: O programa começou em 2004. Numa rádio católica a pedido de Regis, ex-vereador. Ele deixou a direção e as pessoas começaram a boicotar dizendo que a ideia era sofisticada e elitizada. Abandonei e fui convidado pela 105 FM por influência de Julio Lucas. Lá fiquei por quase 9 anos. Agora a politicaria e a inveja conseguiram fechar a rádio. Na verdade, o nome e o formato de uma obra de Waly caiam bem para a proposta do programa que eu pensava em fazer. Juntou a fome com a vontade de comer.
GICULT: O arquidá começou a cantar quando? Por que este nome e repertório musical para o grupo musical que você fundou? Vai retornar às apresentações regulares?
BENÉ: O Arguidá começou em 2000, por ai. Eu, Marcos, Éden, Jorge Lima, com uma proposta para dança e musica cantada. Beatles etc. Depois, mudamos o formato para música instrumental. Eu, Maurilio Sena e Alan Borges com algumas participações principalmente e com mais periodicidade Ronaldo Lima. Mudamos agora novamente com a saída de Maurilio para uma linguagem mais jazzistica. O nome é para manter uma denominação dada desde a década de 60 quando os músicos se reuniam para uma tocada sem muito ensaio e chamavam isso de Arguidá, que é corruptela de alguidá aquele prato grande onde misturam e tornam a farinha de mandioca. No nosso caso, ensaiamos. Muito diferentemente da prática antiga. Quis manter a memória e eu particularmente acho que a palavra soa lindamente.
GICULT: Na política, você teve passagem pelo governo municipal no primeiro mandato do prefeito Luiz Amaral, em 1998, e no segundo, a parir de 2009. Qual sua avaliação sobre estas experiênncias e o que o poder público pode fazer para os cidadãos?
BENÉ: Quem exerce qualquer função no poder público deve executá-la da melhor maneira. O cidadão é que lhe paga o salário. Na iniciativa privada, se você não executa bem as sua tarefa, você é despedido na hora. Fui o primeiro secretário de serviços públicos do município (já posso ir para o museu de Raimundo). Tenho consciência que fiz bem o meu trabalho. Nas duas oportunidades. Ando de cabeça erguida pelas ruas dessa cidade que me adotou já que sou da terra da farinha, do caxixi e das religiões afrobrasileiras.
GICULT: Durante quase duas décadas, você foi assessor parlamentar do vereador Ednael Almeida? Como contribuiu para ação parlamentar nas áreas sociais, como na cultura? O Legislativo pode contribuir para o avanço da cidade? De que forma?
BENÉ: Eu estava morando em Salvador, 1999, quando fui convidado pelo vereador Ednael Almeida para voltar para Jequié e ser o coordenador da campanha para o seu primeiro mandato. A minha militância no MDB, PMDB e a amizade com ele favoreceram este retorno. Por ser mais velho e ter convivido com estas histórias políticas, inserir no seu trabalho algumas ideias antigas dos sonhos da década de 60 tipo mutirão, por exemplo, que ele de pronto aceitou. Na área da cultura, muitos requerimentos importantes ele levou adiante. Estes requerimentos não foram da minha cabeça. Representavam o que o setor buscava na época e minha proximidade com ele e a sua aquiescência favoreceram a materialização dos mesmos. Ele sempre abraçou todos os nossos pedidos. Por último, a solicitação para o envio do projeto relacionado com e tombamento e defesa do patrimônio cultural.
GICULT: No governo de Reinaldo Pinheiro você participou da diretoria de cultural, foi diretor nos dois últimos anos e secretário de Cultura em parte do gestão do prefeito Luiz amaral. Quais os avanços culturais deste período, dificuldades operacionais e os desafios para o segmento artístico nos dias atuais, no governo da prefeita Tânia Britto?
BENÉ: Fui convidado pelo então diretor de cultura, Gidásio Silva, para trabalhar com a linguagem musical. Não ficamos só nisso devido ao clima de liberdade, participação e entusiasmo. Formatar uma política pública de estado em comunhão com o que estava acontecendo no Brasil com o governo Lula e Gil no Ministério foi a tônica. Houve uma radical mudança na forma de se fazer cultura. Criação do Conselho municipal de Cultura e Fundo de Cultura, Núcleo de dança e educação musical, Vila Junina, apoio aos grupos e movimentos afros, enfim a lista é grande. As dificuldades na verdade aparecem mesmo com a boa vontade de gestores como Reinaldo, que foi bom, mas tudo não passa de boa vontade e boa vontade só é pouco. As mudanças que precisamos para uma vida de paz e respeito, livre do preconceito, do fanatismo, do fundamentalismo de toda ordem passa pela aquisição de valores culturais. Infelizmente a Doutora Tânia começou o seu mandato erradamente. Desconsiderou todos os avanços do setor e se colocou como salvadora e única, sustentando a tese equivocada e pretensiosa da pessoa que ela escolheu para comandar o processo.Infelizmente a política ditatorial que foi expulsa em 2005 retornou. O que é péssimo.
GICULT: Agora aposentado, quais seus planos?
BENÉ: Tocar bateria, tocar bateria, ouvir muita música e estar sempre acompanhado de Bach, Brahms, Beethoven, Villa Lobos, Edu Lobo, Jobim, Miles, Moacir Santos, Mozart, Coltrane, e outros espíritos iluminados, encarnados e desencarnados. Também brincar com Nieta, minha neta. Na verdade, brincar com Elis Antonieta, é o que mais me agrada ultimamente. Claro, se for convidado como fui em 2005 para um projeto cheio de vida e motivação, tô dentro. (Gicult).
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