Por Carlos
Eden Meira*
Severino Peroba era do tipo que não pedia
whisky, só para não ter que falar uma palavra de origem estrangeira. “Língua de
gringo”, era como ele se referia ao nome da bebida. Só ouvia música brasileira,
ainda que, sem que ele soubesse, algumas delas não passavam de versões de
músicas estrangeiras, mas, se eram cantadas em Português era o que importava. Ainda
solteiro, durante a copa do mundo de 1982 quando o Brasil perdeu para a Itália,
Severino quis dar uma surra de porrete no italiano dono da vendinha, seu
Giuseppe que festejava, e só não o fez porque os amigos impediram. - Gringo fidumaégua! - gritava ele, alucinado,
para o italiano. Anos mais tarde, já
casado, implicava com a filha quando ela ao computador, falava os termos de
informática: enter, e-mail, delete, site, blog e outras palavras estrangeiras. Severino
Peroba levava horas a fio numa loja para comprar roupas ou sapatos, verificando
minuciosamente as etiquetas, para não levar nada que estivesse escrito em
“língua de gringo”. Não era fácil.
O tempo
passou, a filha de Severino formou-se na faculdade, e ganhou bolsa de estudos
para fazer pós-graduação no exterior. Houve então, o dia em que Severino foi
com a esposa ao aeroporto internacional, na capital do Estado, buscar a filha
que voltava após concluir os estudos na Europa. Orgulhoso pelo sucesso da filha,
dizia: - Ela foi ensinar aos gringos a falar língua de gente! Menina retada de inteligente, essa minha filha!
- Aguardando no saguão do aeroporto o avião chegar, Severino deixou dona
Eufrásia sua esposa, sentada, enquanto ele sentindo lá suas necessidades, saiu
a procurar o WC masculino. Foi então que
dona Eufrásia ouviu uma gritaria, um barulho infernal de muitas vozes, dentre
as quais ela reconheceu a voz exaltada de Severino. Assustada, levantou-se para
ver o que estava acontecendo, quando viu o marido sendo agarrado por dois
seguranças, esperneando e berrando possesso: -Me solta, cambada de jagunço
engravatado! Vou meter um processo em cima de todo mundo aqui! Eu sou
brasileiro, meu sangue é verde e amarelo, eu falo língua de gente! - Dona
Eufrásia notou que uma porta de vidro que dava acesso à área dos sanitários estava
quebrada, e sentiu que seu marido tinha alguma coisa a ver com aquilo.
Quando as
coisas se acalmaram, dona Eufrásia quis saber: - Mas o que foi que aconteceu,
homem de Deus?
- Ora, -
disse Severino – fui passar pela danada dessa porta, tava escrito: PUSH. Se era
pra puxar, então eu puxei, puxei e a porcaria arrebentou! Agora, vieram me
dizer que esse tal de PUSH é EMPURRE, na peste da língua de gringo! Isso é lá
língua de gente?
A placa
com o aviso em Português estava lá, mas estava meio apagada, quase invisível.
*Carlos
Eden Meira – jornalista e cartunista
Os
fatos e nomes dos personagens deste texto são fictícios. Qualquer semelhança
com pessoas e fatos reais é mera coincidência.

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