sábado, 29 de junho de 2013

O nacionalista


                                                        Por Carlos Eden Meira*

Severino Peroba era do tipo que não pedia whisky, só para não ter que falar uma palavra de origem estrangeira. “Língua de gringo”, era como ele se referia ao nome da bebida. Só ouvia música brasileira, ainda que, sem que ele soubesse, algumas delas não passavam de versões de músicas estrangeiras, mas, se eram cantadas em Português era o que importava. Ainda solteiro, durante a copa do mundo de 1982 quando o Brasil perdeu para a Itália, Severino quis dar uma surra de porrete no italiano dono da vendinha, seu Giuseppe que festejava, e só não o fez porque os amigos impediram. - Gringo fidumaégua! - gritava ele, alucinado, para o italiano.  Anos mais tarde, já casado, implicava com a filha quando ela ao computador, falava os termos de informática: enter, e-mail, delete, site, blog e outras palavras estrangeiras. Severino Peroba levava horas a fio numa loja para comprar roupas ou sapatos, verificando minuciosamente as etiquetas, para não levar nada que estivesse escrito em “língua de gringo”. Não era fácil.
O tempo passou, a filha de Severino formou-se na faculdade, e ganhou bolsa de estudos para fazer pós-graduação no exterior. Houve então, o dia em que Severino foi com a esposa ao aeroporto internacional, na capital do Estado, buscar a filha que voltava após concluir os estudos na Europa. Orgulhoso pelo sucesso da filha, dizia: - Ela foi ensinar aos gringos a falar língua de gente! Menina retada de inteligente, essa minha filha! - Aguardando no saguão do aeroporto o avião chegar, Severino deixou dona Eufrásia sua esposa, sentada, enquanto ele sentindo lá suas necessidades, saiu a procurar o WC masculino.  Foi então que dona Eufrásia ouviu uma gritaria, um barulho infernal de muitas vozes, dentre as quais ela reconheceu a voz exaltada de Severino. Assustada, levantou-se para ver o que estava acontecendo, quando viu o marido sendo agarrado por dois seguranças, esperneando e berrando possesso: -Me solta, cambada de jagunço engravatado! Vou meter um processo em cima de todo mundo aqui! Eu sou brasileiro, meu sangue é verde e amarelo, eu falo língua de gente! - Dona Eufrásia notou que uma porta de vidro que dava acesso à área dos sanitários estava quebrada, e sentiu que seu marido tinha alguma coisa a ver com aquilo.
Quando as coisas se acalmaram, dona Eufrásia quis saber: - Mas o que foi que aconteceu, homem de Deus?
- Ora, - disse Severino – fui passar pela danada dessa porta, tava escrito: PUSH. Se era pra puxar, então eu puxei, puxei e a porcaria arrebentou! Agora, vieram me dizer que esse tal de PUSH é EMPURRE, na peste da língua de gringo! Isso é lá língua de gente?
A placa com o aviso em Português estava lá, mas estava meio apagada, quase invisível.
*Carlos Eden Meira – jornalista e cartunista

Os fatos e nomes dos personagens deste texto são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas e fatos reais é mera coincidência.  

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