quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O Pássaro Voou

Émerson Pinto de Araújo


Luiz Cotrim


      O pássaro voou. O pássaro voou, deixando saudades, muitas saudades. Durante anos a fio, seus gorjeios e trinados de amor a terra e a sua gente enterneceram almas e corações. Gorjeios e trinados transmitidos em forma de crônica nos primeiros albores de cada manhã. Famílias se acotovelam junto ao rádio, encantando-se com a sonoridade do pássaro. Mas o passar dos anos é inclemente. Mina o organismo, deixa mossas e cicatrizes. E o pássaro teve que pegar por isso. Seu canto em forma de crônica foi rareando cada vez mais, até converter-se em silêncio. A memória foi se apagando, deixando sequelas. Os dedos trêmulos não tinham mais forças para martelar os tipos da velha máquina de escrever, companheira fiel de longa existência. E o pássaro voou, deixando saudades, muitas saudades.
         Luiz Cotrim era um passarinho. Escritores existem, às pencas, que escrevem por dinheiro, por vaidade ou autopromoção. Cotrim escrevia por devoção. Um homem sem fel, conforme o defini anos atrás, ao fixar-lhe o perfil. Durante anos, e anos quando residia em Jequié, privei da sua companhia no exercício do magistério, nos labores da imprensa, nas reuniões do Rotary e, com menos vagar, nas sessões da Academia de Letras. Nunca notei da sua parte um gesto ou atitude de desapreço para com qualquer ser humano. Daí cunhá-lo como um homem sem fel. Parafraseando um poema de Byron, não hesito em acrescentar que seu anjo de guarda o abandonou porque não tinha nada para fazer.
          O pássaro voou, deixando empobrecida a crônica na acepção moderna da palavra, que abre espaço para o imaginário, a fim de diferenciá-la dos vários gêneros de jornalismo. No jornal, a redação se restringe a apresentar a notícia qual ocorreu, deixando os comentários e conclusões á cargo do comentarista ou colunista, com preocupação única de esclarecer o leitor, desde que não implique em divergência com a linha adotada pelo jornal. Já na crônica, por se tratar de ficção, o cronista se liberta do rigorismo e, nas asas da imaginação fantasia a ocorrência, segundo os sentimentos guardados no recôndito da alma. No Brasil, a crônica moderna, depois de Rubem Braga, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Morais, dentre outros, deixou de ser uma forma de jornalismo, não obstante a teimosia de alguns críticos conservadores, para se converter definitivamente em gênero literário.
         Luiz Cotrim, o pássaro-cronista, o cronista-pássaro de muitos, amanheceres, bateu asas e voou, deixando atrás de si um rastro de luz. Um pássaro enluarado que cantou a beleza e espargiu amor nos corações dos que se deleitavam com suas crônicas nas primeiras horas da manhã. Passarinhou pela cidade-sol, amealhando amigos e admiradores.
          O pássaro voou. O cronista alado, depois de acender estrelas na terra, partiu para acender estrelas no firmamento.

Texto originalmente publicado na revista Cotoxó.

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