sexta-feira, 13 de novembro de 2020

INVASÃO E SAQUE DE MARACÁS

                                                   
                                               Charles Meira visitando Maracás.


Por causa do fascínio que tenho por tudo relacionado com a História de Jequié e região, constantemente estou pesquisando na internet sobre o assunto. Recentemente, por curiosidade, digitei no Google o nome de Marcionílio Antônio de Souza e pra minha surpresa encontrei uma preciosidade: “De tropeiro a coronel: ascensão e declínio de Marcionílio Antonio de Souza (1915-1930)”, dissertação apresentada por João Reis Novaes ao Programa de Pós-Graduação curso de Mestrado em História-UFBA. Nas 155 páginas do trabalho, ele descreve com muita competência, sabedoria, criatividade e o mais importante uma criteriosa pesquisa da História da qual relata. Dias depois, entrei em contato com o historiador e amigo Emerson Pinto de Araujo e o emprestei uma copia do referido trabalho para que depois de lido, fizesse um resumo e publicasse na revista Cotoxó. Mas que justo por ser ele a pessoa mais conhecedora da história de Jequié. Assim aconteceu. Porém, mesmo considerando perfeito o texto do professor não fiquei satisfeito, pois um fato mencionado no trabalho e que até aquele momento era para mim e também para Emerson desconhecido, teria que ser divulgado na sua integra para tornar conhecido para muitos outros habitantes de Jequié, Maracás e demais municípios da região.

Assim conta João Reis Novaes este fato:

“Para melhor compreender o desencadear dos acontecimentos que serão abordados, torna-se importante compreender o cenário político de Maracás em princípios de 1915, quando, por ser momento de eleições para a Intendência Municipal, os ânimos dos integrantes dos Rabudos e Mocós estavam à flor da pele. Os dois grupos lançaram mão dos mais violentos métodos para conquistarem o controle do Executivo municipal. As ruas de Maracás transformaram-se em palco de combates constantes entre as duas facções, que as povoavam com as suas hordas de jagunços. Chefiando os defensores dos interesses dos Mocós, além do Coronel José Antônio de Miranda, estavam José Miranda Rebouças, que recebia a alcunha de Juca Rebouças, e o presidente do Conselho Municipal, o rábula Nestor Sá. Os Rabudos eram chefiados pelo Coronel Marcionilio Souza e por seu correligionário e amigo João Isaías dos Santos.         

Nesse clima de instabilidade, tendo as ruas de Maracás como cenário, os jagunços das duas facções, volta e meia entravam em atrito uns com os outros. O resultado era a troca de tiros, os espancamentos e os assassinatos, o que deixou a população bastante apreensiva. As investidas de ambos os grupos era uma tentativa de intimidar ou, ao menos,  demonstrar   ao   seu  oponente  que  possuíam   meios  para resistir  ou desarticular   as   suas  manobras    e  deixar  claro  que    havia   uma  oposição e que   essa   oposição  deveria   ser respeitada e temida. Isso vem, mais uma vez, confirmar que as diferenças e os interesses de cada facção tornavam-se mais evidentes em períodos eleitorais, reforçando também a constatação a respeito da importância do controle dos cargos políticos e administrativos na luta pelo poder.

O auge do conflito entre os Rabudos e Mocós ocorreu quando o segundo grupo, por não possuir homens em armas o suficiente para fazerem frente aos jagunços do primeiro, resolveu estabelecer alianças com os Cauassús para combaterem o inimigo comum. De acordo com Vicente Silva Fróes, em carta publicada pelo Jornal A Tarde em julho de 1915, o Coronel José Antonio de Miranda reuniu-se com os irmãos José Olimpio e Eduviges Cauassú no Povoado de Tamburi, com o objetivo de materializar ações que enfraquecessem o poderio dos Rabudos. Assim, o Coronel teria contratado os Cauassús pela quantia de seis contos de réis para que estes enfrentassem e derrotassem o exército de jagunços que ocupava as ruas de Maracás, comandado por homens da confiança do Coronel Marcionillo Souza. Incentivados pelo fato de serem os Rabudos inimigos comuns, os Cauassús invadiram a Cidade de Maracás na manhã de 24 de outubro de 1915.

A invasão perdurou por quarenta e oito horas, com fogo cerrado. Os moradores tiveram que abandonar a cidade para escapar do tiroteio estabelecido entre os homens do Coronel Marcionilio Souza e os Cauassús. O comércio foi saqueado, as casas invadidas, suas paredes foram perfuradas para facilitar as manobras dos invasores durante os combates. Vejamos como o fazendeiro Vicente Silva Fróes narrou a invasão de Maracás pelos Cauassús, em uma carta publicada na época pelo jornal A Tarde:

[...] munidos de repetições e Mauser, fizeram o primeiro ataque em a manhã de 24 de outubro de 1915, bombardearam a cidade e roubaram aos pequenos comerciantes, a particulares e até as pobres viúvas. Terminando este ataque que durou 48 horas de fogo cerrado, dirigiu-se o senhor Amando de Miranda Lacrose para o Arraial de Morros, com avultado número de tais bandidos, praticando ali as maiores torpezas, terminando por obrigar a retirada imediata de todos os comerciantes e particulares que lhe não era afeiçoados [...].

O que motivou tal empreitada foi o desejo de demonstrar ao Governo estadual, a necessidade de uma intervenção, evidentemente em favor dos Mocós, já que o grupo de Marcionilio Souza estaria revelando a sua incapacidade de manter a “ordem e tranqüilidade” em Maracás. Ademais, a ação dos Cauassús poderia ser vista como resultado das inimizades pessoais do chefe dos Rabudos e não como uma manobra que pudesse garantir, aos Mocós, o controle das instituições políticas e administrativas do município. Essa estratégia de criar um clima de instabilidade que levasse o Governo a intervir nos conflitos locais foi muito comum ao longo da Primeira República, não só na Bahia, como ocorreria durante o Levante Sertanejo em 1919/1920, mas no Brasil como um todo.

A partir de então, o clima de intranquilidade exacerbou-se em Maracás e região, o que levou, segundo o jornal A Tarde, o Promotor Público João Estáquio de Oliveira Porto, a retirar-se de Maracás quatro dias após a sua chegada, alegando falta de segurança para o desempenho das atividades pertinentes ao seu ofício. O promotor ter-se-ia dirigido a Salvador, com o objetivo de informar ao Secretário de Polícia do Estado a situação de desordem em que se encontrava aquela região, para que, a partir daí, o Governo pudesse tomar as providências cabíveis para restabelecer a “ordem.” No dia 06 de novembro de 1915, através de carta publicada no Jornal A Gazeta do Povo, o bacharel João Porto, possivelmente por questões políticas, negou ter fugido de Maracás, afirmando que a sua partida para a Capital fora motivada por complicações em sua saúde e não por fugir dos conflitos internos. No entanto, não negou o clima de instabilidade instaurado no município, atingido pelos confrontos entre os Rabudos e os Mocós.

Como era de costume na época, sempre que os conflitos entre as facções políticas afetavam a normalidade do sertão, a sociedade baiana e o Governo estadual eram convocados a intervir nas questões locais. Indivíduos que estavam ligados, direta ou indiretamente, a uma das partes envolvidas na contenda, e que de alguma forma entendessem ser proveitoso sensibilizar a opinião pública por meio de jornais e impressos – atingindo assim um maior contingente de pessoas em diversas regiões, ainda que esses chegassem aos destinos com algum tempo de atraso – dirigiam-se à Capital e descreviam tendenciosamente os rumos que esses conflitos estavam tomando e as suas possíveis conseqüências para a comunidade local.

Essa atitude pretendia, por vezes, apresentar as ações dos membros do grupo rival como perniciosas aos habitantes da região afetada pelos conflitos e como uma afronta à “ordem” estabelecida pelas instituições do Estado republicano. Além de tentar atrair, para o lado do denunciante, a opinião pública, objetivava induzir o Governador a intervir nos confrontos locais, preferencialmente do lado do grupo que promovia a denúncia. Era, portanto, mais uma forma de enfraquecer, já que não tinha conseguido por meio do confronto direto, o poderio da facção adversária.

De acordo com essa lógica, logo após a investida dos Cauassús sobre a Cidade de Maracás, o Coronel Marcionilio Souza dirigiu-se a Salvador com o intuito de denunciar a aliança estabelecida entre o chefe dos Mocós e os líderes da família Cauassú. Assim, no dia 12 de novembro de 1915, em conferência com o Governo Seabra no Palácio Rio Branco, Marcionilio relatou a investida dos aliados dos Mocós a Maracás. Segundo o Jornal A Tarde, o Coronel teria sido ameaçado de morte pelo rival José Antônio de Miranda, o que o levou a pedir providências ao Governador para evitar que isso viesse a ocorrer. Respondendo a este pedido, Seabra “[...] prometeu ao Coronel de falar com o Chefe de Polícia, onde este passou um telegrama (sic) ao Sr. José Antônio responsabilizando-o pelo que vier acontecer ao Coronel Marcionilio”.

Durante a conferência entre o Governador do Estado e o Coronel Marcionilio Souza, quando este relatou os acontecimentos de Maracás no dia 24 de outubro de 1915, o Deputado Candido Villas Boas teria defendido o chefe dos Mocós, afirmando que ele era um homem de bem, incapaz de praticar atos que viessem a perturbar a paz daquela Cidade. É possível que este Deputado tenha sido um dos articuladores da nomeação do Coronel José Antônio de Miranda para ocupar a Intendência de Maracás durante os anos de 1916 e 1917. Quem também saiu em defesa de Miranda, então presidente do diretório do Partido Republicano Democrata em Maracás, Coronel José Antônio de Miranda, foi o órgão de imprensa  desse   partido, o  jornal   Gazeta  do Povo,  que   assegurava  ser  esse coronel  um  homem  estimado  e  de caráter inquestionável quer como particular ou homem político.

BREVE ARMISTÍCIO

Logo após a invasão dos Cauassús a Maracás, pelo menos na Sede do município, os conflitos entre as facções políticas locais foram amenizados temporariamente devido à intervenção do Governo do Estado que, atendendo ao apelo de um grupo de comerciantes italianos que ali residiam, enviou o então Secretário de Polícia, Álvaro Cova, para pacificar a cidade. Esse, por sua vez, embarcou no vapor da carreira para Cachoeira no dia 16 de novembro de 1915, acompanhado do Tenente-Coronel Paulo Bispo, do Alferes Cassimiro de Castro, do escrivão Pontes e do Cônsul italiano. Porém, antes de iniciar a sua viagem, o Secretário de Polícia telegrafou para os destacamentos de polícia dos municípios próximos a Maracás, ordenando que se deslocassem para Tamburi e lá aguardassem a sua chegada para o cumprimento de novas ordens.

O deslocamento do Cônsul italiano para a região conflagrada demonstra a influência que a comunidade italiana detinha no cenário político de então. Além de mobilizar o consulado italiano, essa comunidade, pelo fato de boa parte de seus membros estarem diretamente ligados ao comércio, também conseguiu fazer com que a Associação Comercial da Bahia pressionasse o Governo do Estado no sentido de encontrar uma solução para as contendas internas, pois o comércio, em tempos de conflito, era fortemente prejudicado.

Os chefes dos Rabudos e dos Mocós, ao tomarem conhecimento da vinda do Secretário de Polícia, trataram de recolher os seus jagunços, evitando o combate com os oficiais do Estado, o que possivelmente acarretaria prejuízos políticos para ambos os grupos. Ao chegar a Maracás, Álvaro Cova empreendeu um movimento objetivando desarmar as duas facções, intimando os seus líderes a entregarem as armas. O mocó Nestor Sá não quis atender à ordem do Secretário de Polícia, o que resultou em sua prisão, sendo libertado dias depois, no Povoado de Tamburi, momento no qual Álvaro Cova, juntamente com os seus subordinados, regressava à Capital por entender que a ordem tinha sido restabelecida no município. No entanto, os Mocós sentiram-se prejudicados pelas ações dos representantes do Governo do Estado, afirmando que os integrantes do grupo rival não foram desarmados, o que os deixavam em desvantagem bélica em relação a seus inimigos.

Ao regressar a Salvador, no dia 23 de novembro de 1915, Álvaro Cova assegurava o restabelecimento da “ordem” em Maracás e, para garantir a continuidade daquela situação, deixou de prontidão um destacamento de 35 praças sob o comando de um delegado regional e do Alferes Cassimiro. Entretanto, defendendo os interesses do seu correligionário, Coronel José Antônio de Miranda, o Secretário de Polícia, durante os esclarecimentos prestados à imprensa da Capital, omitiu a invasão de Maracás pelos Cauassús ocorrida no mês anterior. Pelo contrário, afirmava que os embates locais ocorreram por ciúmes do Coronel Marcionilio Souza. Esse teria se sentido preterido pelo fato de a sua Filarmônica, Lira Maracaense, não ter sido convidada a tocar na festa da Padroeira de Maracás, Nossa Senhora das Graças, como ocorrera com a Filarmônica União Popular, que pertencia aos Mocós.

O resultado, segundo o Secretário de Polícia, foi o entrincheiramento e a queima de mais de dez mil cartuchos durante a peleja estabelecida entre os membros das duas facções políticas. A situação só não ficara mais grave porque o Vigário Paulo Bento aboliu da programação do festejo a apresentação de grupos musicais. Outras fontes sustentam a ocorrência desses fatos, mas somente vários dias depois das investidas dos Cauassús a Maracás. Nesse momento posterior, enquanto ocorriam os festejos, tanto os Rabudos quanto os Mocós ocupavam as ruas da cidade com seus exércitos de jagunços, em busca de algum pretexto para reiniciar os confrontos armados, que só foram amenizados devido à ação do Secretário de Polícia do Estado.”  

Fonte:

* De tropeiro a coronel: ascensão e declínio de Marcionílio Antônio de Souza (1915-1930) – João Reis Novaes.

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