quarta-feira, 9 de maio de 2018

Homenagem de Charles Meira a sua querida mãe Maria Letícia da Silva Meira.

                                                                 Charles Meira
Charles Meira recebendo e dando carinho a sua querida mãe Maria Letícia.
            Na matéria deste mês presto uma homenagem a neta de José Marques da Silva (Zezinho dos Laços), Maria Letícia da Silva Meira, minha querida mãe, que completa no dia 08 de dezembro 90 anos de idade, a pessoa mais importante da minha vida.
            Todos os dias pela manhã faço minha caminhada. O percurso começa no Alto do Funil no Bairro do Jequiezinho e termina no Bairro do Campo do América, próximo ao Hospital Prado Valadares, onde fica a casa da minha mãe Maria Letícia.
            Ali chegando bato na porta e na maioria das vezes sou recebido por ela. Sempre sorridente logo fala: “pela batida sabia que era você”. Brinco com ela e digo que é mentira. Levanta a mão como se fosse me bater e com outro belo sorriso diz: “entra logo menino”. Dou a benção, em seguida um beijo, um cheiro e um abraço bem apertado e dela uma resposta imediata: “Deus te abençoe”. Em seguida peço a ela para calçar o sapato, pentear o cabelo e passar o batom para rapidamente sairmos, pois o sol já está lá em cima. Letícia fala sorrindo: “você não esquece o batom”.  Pergunto também se fez xixi, tomou café, o remédio, confiro se a roupa dela está adequada, estando tudo correto, vamos andar. Segurando na sua mão descemos os degraus existentes depois da porta. Antes de iniciar a caminhada pergunto também se Marli sua sobrinha e filha de criação estiveram na noite anterior com ela, se Regina sua sobrinha, Darcy sua prima e Tomaz meu irmão ligaram. Depois de ela responder negativamente escolho o local, porque por Letícia sempre vamos visitar Marli.

Marli Silva e Maria Letícia na casa de Tio Batista e Tia Ismênia.
Maria Letícia junto da planta que tem o seu nome.

           
A primeira caminhada da semana é feita para o lado do antigo Instituto de Educação Régis Pacheco, próximo da casa de Marli. Mainha vai reclamando que Marli tem muito tempo que aparece na sua casa. Provoco-a dizendo que não vai falar e ela diz: “você vai ver se eu não falo”. Sorrindo concordo e falo para não ir mais lá. Tudo isso acontece porque ela foi diagnosticada que tem o mal de
Alzheimer. Quando atravessamos cuidadosamente a Avenida Rio Branco, Letícia queixa que o sol está quente e passamos para o lado que tem sombra. Na sombra diz que está fazendo frio e reclama da falta do capote. Quando chegamos à Praça Miguel Bahiense ela admira uma planta que brota flores amarela e que dei o nome de Letícia em sua homenagem, porque gosta de flores. Perto do Posto de Saúde Municipal reclama que a casa de Marli é muito longe e aquela é a última vez que vai visitá-la. Na praça no fundo do posto pede para descansar por alguns minutos. Chegando à casa de Marli, local que gosta de ir porque toma um café reforçado, dizendo ser em homenagem o seu Manezinho e nunca se lembra de reclamar da demora da sobrinha de ir visitá-la. Depois do lanche, pede Logo para ir embora para sua casa. No retorno queixa do sol, da ladeira e do cansaço. Em casa fala que o coração está batendo muito, senta e pede água. Em seguida tira o sapato, calça a sandália e vai tomar um cafezinho, reclamando não ter comido nada na casa de Marli. Em seguida toca violão e canta a música: “Deus é tão bom, Deus é tão bom para mim”. Quando digo que vou sair, faz questão de me levar na porta e diz: “dê lembrança para Zé soldado”, ditado usado antigamente. Risada. Beijo e abraço e ela com carinho diz que o sol está quente e pede para ficar para o almoço. Digo que preciso resolver algumas coisas e ela pede que eu vá pela sombra. Com uma das mãos joga beijos para mim e eu peço para ela entrar para não cair.  Saio em direção ao Restaurante Espeto de Ouro e quando atravesso a avenida ouço os seus gritos, agora da janela novamente acenando e jogando beijos. Aceno também, jogo beijos e sigo minha caminhada de retorno para minha casa.

Charles Meira e Maria Letícia andando na Avenida Rio Branco.

          
  Na segunda caminhada da semana seguimos na direção do antigo Cine Auditórium, sempre de preferência no passeio. Inicialmente reclama de um pedaço do passeio ainda com cascalho, dizendo que vai falar para o dono do terreno concertar. Em frente do Ateliê da nossa amiga Dalva Rebouças, Letícia aperta varias vezes minha mão mostrando uma mulher que vinha na nossa direção com uma calça bem apertada e disfarçadamente fala: “não tem vergonha, mostrando tudo”. Sempre que deseja mostrar uma pessoa que ela acha gorda, magra, feia, bonita sempre dar este mesmo sinal. Prosseguimos a caminhada e perto do antigo Cine Auditórium novamente ela fala: “não gosto de passar perto desta casa”. Faço de conta que não estou entendendo e pergunto: por quê? “Pessoas que gosto bastante morava ali e morreram”. Quando falo as letras iniciais dos nomes ela lembra e diz: “Hilário e Zizinha”. Brinco e digo que eles fizeram uma viagem. E Letícia pergunta: “quando eles voltam?”. Respondo que voltarão em breve. Não concordando comigo usa uma frase que gosta de citar quando o fato é marcante: “aiai uiui, uiui aiai”, frase que repito e ela também. Do lado da sombra proseguimos a caminhada, pois ela reclama do calor. Quando passamos na porta da Igreja Católica Nossa Senhora da Conceição pede para entrar. Entra, olha e na saída diz que é muito bonita, porém sempre vazia. No retorno para casa pede para sentar na escadaria do antigo cinema. Em poucos minutos levanta e continuamos andando, parando apenas na porta da casa de Juninho, filho de tio Marialvo, porque a calçada está molhada e tivemos que desviar, pois Letícia não gosta de molhar o tênis.  Próximo da sua casa pergunta por que sua amiga Cece tinha deixado de visitá-la. Digo que não sei o motivo.

Maria Letícia tocando violão depois da caminhada.

           
Na terceira, o caminho é a Praça do Viveiro. Logo na descida da ladeira, depois do cursinho Expert pergunta quem morava em uma casa. Tento ajudá-la a lembrar, porém não adianta. Digo que era o senhor Astrolábio e dona Cacilda. Ela diz: “já morreram?”. Confirmo. Mais adiante fala que morava uma grande amiga dela. Quando falo que era Lucinha ela diz: “não saía da minha casa, comia, dormia e esqueceu-se de mim, acho que ela morreu” Tento amenizar e falo que Lucinha está morando com sua irmã em outra cidade, porém não concorda e diz: “ela é muito ingrata”. Seguimos a caminhada e próximo da padaria Trigo Rei pede para sentar em um pedaço de madeira, que fica na porta de um Ateliê. Sem demora seguimos até a Praça do Viveiro e retornamos para casa.



Maria Letícia e sua prima Darcy Nogueira.

          
  Na caminhada seguinte seguimos para a casa de Darcy Nogueira, sua prima, que mora próximo do Hospital Prado Valadares. Para a caminhada ficar maior vamos pela Avenida Rio Branco e próximo da Biblioteca Central retornamos pela Rua São Cristovão. Como o caminho é uma subida, quando chega perto da Clinica IORT, Letícia diz que está cansada e usa a seguinte expressão: “já estou quase arriando o saco com as rapaduras”. Dou uma risada e pergunto o significado da frase. Diz que é usada, quando a pessoa fica muito cansada. Em seguida chegamos à casa de Darcy sua prima querida, local que gosta de ir, porque sai um cafezinho e também brinca com os netos dela.

Maria Letícia em frente a Igreja Católica durante sua caminhada.

            Em outros dias vamos às residências de Maria Meira, Regina ou repetimos as caminhadas anteriores. O destino da caminhada diária pode mudar conforme os acontecimentos e a disponibilidade das pessoas que visitamos.

             * Texto publicado na Revista Cotoxó de dezembro de 2017.

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